O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Vidas Sacadas

Conclui, a duras penas,
Talvez tardias
De que viver é somente ir levando
Seu pequenino dia-a-dia.

Não há de ter fé, menos ainda, esperança
Há de ser desprovido de quaisquer expectativas
Mesmo essas julgadas por vocês como nobres

Como se atrevem a discorrerem sobre nobreza
Diante de tanta miséria perante tanta penúria
Ocultando milhões e milhões de biografias?

Não consideram - faz-se evidente -
O outro a vocês não diz nada
Ou fingem bem, parabéns.

Saiba, disseram-me um dia,
Ser mais fácil ignorar
Sendo assim, senhoras e senhores, mascarados
Misto de regalos enojados
Não me digam nem me apontem
Quais regras devo seguir

Não as quero
Nem mesmo anseio ouvir
Devolvo-as, abraças e siga-as
Tampando o teu coração
Mas, o meu não.

Continuo seguindo minha direção
Nada modifico - vou levando -
Já que a vida
Não me cumprimenta mais, essa danada
Tornou-se mal educada
Também não respondo presença
À sua lista de chamada
Prefiro escarrar na sua cara

Não me perguntem
Não tenho respostas
Quais são os lados quais são as facetas
Oportunas por denominarmos de certas

Aproprio-me das minhas crostas
Lado esquerdo, lado direito enxotados
Pensando bem, até mesmo, mal arranjado

Não me importo
Informo-lhe um pouco apressadamente
Que também não te suporto

Quanto ao que denominas
Tristezas, desgraças e infelicidades
Procure-as nas tendas
Essas que são esticadas
Sob as pontes edificadas
Agora, peço licença
Pra vomitar na tua cara

Queres muito, bem sei, teu ego anseia
Minhas súplicas, minhas solicitações, esqueça
Penando bem, sei que no fundo,
Isso até te alivia, diminui a tua culpa, tardia

Não rogo nada
Serei rápida, darei partida
Não arrazoarei da tua
Menos ainda de outras vidas
Deixadas por ti - esquecidas -

Creia, tenha uma única certeza,
Podes me titular
De louca e completamente desvairada

Enquanto a hora
Não se apresenta
Fumo meus cigarros
São vários, são profusos
Abasteço meus pulmões
Ei-los repletos da mais pura fumaça

Num intento temperamental, nefário, aturdido
Em percorrer o caminho das moradias
Daqueles denominados simples migalhas

Dá-se o encontro
Eis meu canto, talvez, um pouco fingido,
Não me bestifique
Nem me trates feito tola
Não me engano com a tua pessoa
Nem me Iludo com a tua fala

Todos os refúgios apontam-me ninharias
Tuas e também minhas
Então, permito somente à essa teimosa
Continuar buscando
Os leitos de morte dos inúmeros
Dos sofridos e apelidados de ninguém.

Esses mesmos que não têm casa
Não têm comida
O que dizer, então,
De esperança ou expectativa?

Pra terminar, não tente
Nem se atreva, tampouco ouse me doutrinar
Seu maldito hipócrita e fingido

Por isso, todas as vezes que me ofereces
Um copo d’água, bebo-a
E vomito um misto de sangue
No chão da tua abastecida casa

Quanto à minha boca
Limpo-a com ternura – um tanto brava -
Não sou pura menos ainda imaculada
Mas grito, berro e exclamo
Por essas vidas roubadas
Desses cuja a história insana
Não doou nem doa nada.
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