O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Embuste


















- Sou eu o réu do teu julgamento.

Somos cientes de que se equivocaram
Quando elegeram a ti julgar
Afirmo isso por saber
O que na minha vida sucedeu
Quando me perdi sem conhecer
O que deveria ser certo ou errado
Enquanto que pelas minhas mãos
Vazava o resto do meu eu solidificado.

- Sou eu o réu do teu julgamento

Pequei, pequei
Deslizei pelos meus pensamentos infiéis
Na tua face bati
Com minhas mãos inundadas de anéis.

Enquanto te fitava de modo torto
Descobria o sabor de morrer de desgosto
Sabe por quê?
Por desconhecer os meus limites
Por não reconhecer os meus medos tolos
Sem saber como reclamar teu perdão
Sem saber como suplicar teu socorro.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Outrora meus desejos romperam tua figura
E enquanto tudo se transformava
Eu ainda a navegar pelas ruas escuras
Enfastiada em minha própria mistura
Eu mais uma vez perdida no meio do dia
Vagando por entre palavras sujas e vazias.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Exaurida e exausta sigo insignificante
Caminho pelas ruas
Atravesso avenidas
Adentro madrugadas
Mas sempre, ora, sempre de mim tão cansada.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Meu olhar ainda se encontra intimidado
Esse findará minha tortura
Cortando-me em pedaços miúdos
Então, brava, dispenso o mundo ao qual me doei
E, brava, reconheço no que me transformei.

- Sou eu o réu no teu julgamento.

Sou eu o réu num momento exaustivo
Sou eu o réu sem saber como te pedir asilo
Sou eu correndo para brigar
Outra vez comigo.

- Sou eu o réu do teu julgamento

Na penumbra da noite vazia
Elegeram equivocadamente a ti homem
A sentença a ser dada
Há que se fazer parar agora
E acabar logo com esse engano
Então, imploro alto para mim o julgamento.

E oro
Oro para que tu tenhas a devida paz
Oro para que tu possas adormecer tranqüilo
Oro para que tuas noites sejam preenchidas pelos sonhos
Oro para que sob a luz possas dignamente viver.

Por fim caminho contra o tapume
Enquanto entôo meu último som:
- Sou eu o réu desse julgamento
Serei eu a pagar por esse tormento.

- Sou eu o réu desse julgamento.

Enfim, admitiram
Deram-me a sentença
Aos meus ouvidos
Soou feito doença
Morro agora
Inundada pela descrença.

- Sou eu o réu desse julgamento.
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