O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Dor diferente a que cada ser sente somente...

























É a dor provocada pela mísera e pensante mente

Essa que pesa pesada
Profunda,  nada rasa 
Fincada na frente da gente.


É a dor provocada pelo mísero fogão

Esse da cozinha que queima carvão

Comida não e não.


É a dor acumulada por anos de culpa católica

Essa vivida nos moldes cristã

A arder na espinha e a derrubar os dentes - vã e vã.


É a dor sussurrada ao pé do ouvido 

Pela própria boca da gente

Dizendo mesmo entalada: - Fui eu, fui eu. 


Essa dor

Essa má e malvada

Essa desgraça, desgraçada

Mistura escancarada

Falta de auto-perdão

Para o outro sim

Para mim compaixão nunca tem não.


Esquece 

Esqueceu na escada

Enquanto se punha a lavar o santinho

Aquele do altar

Pobre, 'tadinho'...


Bem feito moça

Bem feito rapaz

Bem feito penitência abocanhada

Tão má, tão malvada.


Outrora quisera a cara limpar
Frente ao mesmo altar
Daquele infeliz, o crucificado,

O filho do tão 'ele' falado

Aquele que renasceu sim

Voltou sem flores

Somente cheirando a jasmim.


Mas pai nenhum teria

Deixado sua pobre cria - criado -

Semi-calado 

Tão cinza, tão abafado

Morrer na cruz crucificado.


Sim, mãos sangrando na madeira fria

Todo nu, pelado - sem roupa? -

Pai esse, sem dúvida, um malvado. 


É hora de parar de mentir

Olha bem, olha aqui 

Sim, olha para mim.


'Cê' sabe bem, muito bem

Que o tal, o 'ele' - já citado - 

Pode-se dizer que é farsa criada

Para não se conceder 
Razão em viver. 


Esquece, existe não

Se, por ventura, existisse

Não teria criança lambendo calçada

A pensar que é doce sendo salgada. 


Deve ter ido morar junto a lúcifer - foi tarde -

- Sinto pelo pobre Jesus -

Que aos quatro cantos a voz elevou

Ao falar a fala mais bela - homem magro de coragem:

- Amai-vos uns aos outros... 


Jesus sinto tanto por você 

Mas, cá entre nós tenho a dizer:

- Acreditastes mesmo que poderias

Ao se deixar na cruz pregar

Salvar a humanidade,
Essa tão feia e tão fria?


Se decidires um dia voltar

Vou eu contigo - não -
Vou eu no teu lugar

E concedo minhas mãos
Mesmo sendo esse meu coração

Desprovido de fé e esperança
A quem quiser elas martelar.


Somente porque tu foste e sempre serás

Um rapaz ingênuo, porém, de coragem 
Suficiente a dar e doar
A todos que por aqui, nesse lugar, 
Conseguirem se fazer 
E ainda algo deixar a restar.

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