O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

sábado, 21 de junho de 2008

Supressão

Pouco a pouco se alivia em movimentos sossegados,
Pondera ser inconsciente,
Sorridente bem sabe que não
Elegeu perecer a desejo planeado
Sem bênção e apagados os seus pecados.

Enquanto desfalece desfruta
A ponte suspensa conquistada
Escolheu a forma para ir embora
Ajuíza agora clemência por fora.

No seu perecimento suplica
Não padecerá preces ou complacências
Tampouco alheia estará às incumbências.

Ambiciona algum acolhimento
No minuto que antecede o final
Sua última etapa,
Sorvida pelas águas do mal.

Morrediça há algum tempo -
Não sabe precisar bem quanto -
Ah, lembrou-se: Em apoucadas doses o corpo fragmentou,
Em seguida a alma branca secou.

Feito pomba, feito nuvem
Feito semblante velado
Por gente distante
Eles, os tais mascarados.

Tragou, arrancou, risonha amou
Pena, prontamente, de novo, o soluço a encontrou
Há que se evidenciar: Desnudou-se, por completo, essa mulher
Transpôs seu aclamado e antigo pudor!

Já sente a leveza do casco desmobiliado
O ar estendê-lo-á até findar
Quanto à gêmula que aplaclara seu coração
Correu apressada,
Fez-se densa a destruição.

Desconhece o sim, não reconhece o não.

Nesse ínterim afastou o amor e as vestes arrebatou
Numa ladeira escura os calçados abandonou
Goza agora a fúria da sua única dor
Porém, capacitou-se em tirar proveito: Lágrima alguma restou.

Memoriou tempos passados
Talvez uma desconfiada salvação
Ligeira e sem tardanças abortou
Desfez-se da preocupação.

Expira plácida e plena, ressoa serena
Também pura e grandiosa a moça pequena
Embebedar-se-á noite afora
Naquele boteco remanente, de frente.

Soberba seus últimos momentos vigiará
Reivindicou dizer adeus
Ao tosco que a atravessou
Impulsiona os olhos, chega, chegou. Suspira, suspirou.

Jaz ali mais uma mulher...

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