O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Derradeiro


















Sempre, como de costume, entre nós aconteceu
Novamente sobre algo tu pensou e, sozinho, resolveu
Aqui estás na minha frente tomado, penso eu, pelo que vejo,
Acompanhado de teus seus objetos pessoais
A revelarem teu desejo de retornar
A revelarem teu desejo de ficar
A revelarem teu desejo de ocupar
Teu ex-canto-lugar.

Entendo eu, afinal, vezes infindas ocorreu
De tua elevada independência crer lhe possibilitar
Sozinho decidir ora onde estar
Sozinho decidir ora quando partir
Sozinho decidir o local que mais te agradar.

Também é ela que te assegura o poder das decisões finais
Seja o que for: Situações variadas ou o corre corre habitual.
Aqui estás novamente a agir
Repetindo-se como és, considero eu que talvez nem seja intencional.

Volto a dizer que também é ela que te faz acreditar
Que fiquei eu aqui nesse canto, nosso ex-sagrado-local,
A guardar para ti o 'teu' espaço
Entretanto antecipo que outra realidade cá estabelecida
Será responsável por te mostrar a porta de saída.

Não se apaga da vida os acontecimentos e as situações vividas
Afinal ela não é escrita numa caderneta usando-se grafite
No papel onde é constantemente grifada
O azul se firmou
O azul firmado deixou
Além do que juntos passamos
Também o que haveríamos de passar e manter.

Não entendo eu muito bem como tal decisão lhe ocorreu
A considerar pelo tempo em que tu se ausentou
Não entendo também eu também muito bem o que fazes aqui
Pois, foi sem sequer um sopro prévio a mim anunciar
Que outro lugar irias buscar
Partindo assim, sem se acanhar.

Agora, nessa hora, tarde da noite, já passa das dez
Aqui estás e manifesta o desejo de reatarmos nosso laço
Como podes nisso pensar?
Não lhe restam recordações?
Do dia em que tu foi
E fiquei eu com o corpo todo gelado
Sem saber se repousaria na cama ou iria a um bar beber.

Tentas agora meu corpo novamente aquecer
Com o calor do teu abraço
Não será assim, olhe, reconheças em mim em mim
Algo se diferenciou.

Durante o tempo da tua ausência, foi o tempo, sim, ele próprio,
Que veio ao meio encontro desdobrando-se em me observar
Até clamar gentilmente à luz do sol
Que meu coração fosse envolto pelo perdão
E que meus dias e noites também abraçasse
Para assim, também contribuir e diminuir minha solidão.

Despertei
Dei conta
Vi
Senti
Tua ausência já não me doía tanto
Tua partida já não me fazia sofrer
Tampouco roguei eu a deus clemência
Para tu voltar e em teu colo me ninar.

Para terminar, somente algo mais tenho a lhe dizer
- Deves continuar a caminhar no percurso que começou
Não pare mais aqui nesse lugar
Nem penses que ainda poderás algo sequer
Ao meu lado, por ventura, firmar.

Peço, por favor, que saia agora
Abrirei a porta da frente para ti, será a última vez
Não mais, nunca, voltarás a atravessá-la
Esqueça por completo de quem agora
Sozinha aqui mora
Esqueça por completo de quem agora
Sozinha aqui ficou e bem se instalou.

Adeus.

Ah, desejo eu que um dia tu recuperes a tua fala.
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