O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sei lá












Vem
Senta aqui
Ao meu lado
Posso te ouvir
Se tens
Algo a me contar
Talvez, o que se passa,
Qualquer coisa
Sei lá.

Nada posso mudar
Nem pretendo
Com palavras vazias
Encharcar-te
Posso somente te escutar
Se comigo te sentes à vontade
Podes falar
Desabafa
Bota pra fora
Sabe antes tenho a confidenciar
Não sou ninguém
Para ajuizar
Um ato teu
Ousar criticar
Nada vou supor
Nem imaginar
Menos ainda
Não tenho
A pretensão
Para pensar
Em querer te aconselhar
Penso que é besteira
Sei lá.

Enquanto te ouço
Doar-me-ei a ti
Prometo ser honesta
Com o que ouvir
Prometo ser tranqüila
Com o que te aflige
Lembro-te
Nada posso alterar.

Vem
Senta aqui
Quem sabe
Depois de soltares
Algumas palavras
Possa eu
Se me permitir te abraçar
Fazer-te sentir
Um pouco de calor
Melar-te no meu suor
Desculpa foi que corri
Para chegar aqui
Cá estou
Para te atender.

Vem
Senta aqui
Tens o tempo que precisar
Tirei meu relógio
Calada
Dedico-me a ti
Saibas tu
Que sinto algo assim também
Não sei o nome
Só sei
Que quando vem
Tudo que preciso
É de alguém
Para me escutar
Parece que emagreço
Desculpa o jeito
É como sinto
Em mim.

Desculpa se fui inadequada
Com o exemplo
Apenas quis dizer
Que penso que todos têm
Algo guardado para gritar.

Nada posso espelhar
Não tenho palavras bonitas
Não posso
Nem quero te adoçar
No mundo tem pouco açúcar
Há mais sal por aí
Já lambi
Besta eu
Verdade
Lambi.

Saibas apenas
Que comigo
Poderás contar
Asseguro-te que
Calada hei de ficar
Ah, se tens algo
A me perguntar
Saibas que sou dispersa
Não tenho respostas elaboradas
Sou descompassada
Não tenho nada planejado
Nenhuma frase
Nenhuma sentença
Nada que possa
Efeito provocar.

Repito
Tens comigo
Somente o tempo que precisar
Estou sentada aqui
No banco atrás dessa grande árvore
Que parece formar um cenário
Reconhecido como fiel.


Vim aqui pra te atentar
Somente isso
Tenho a doar
Somente isso
Ofereço
Diferente disso seria mentir
Não faço isso
Não quero
Em nada te iludir.

Se há respostas
Estão todas
Dentro de ti
Um padre me disse isso
Estão elas
Guardadas em lugares diferentes
Espalhadas pelo corpo
Foi, o padre me falou
Que pouco a pouco
Ao falar
Tu vais tirando
De dentro de ti
O que pensar
O que terás a fazer
E como poderás agir
Para contigo
Melhor se sentir.

O padre me disse
Foi bom ouvir
Sabe que acreditei nele?
Hoje penso que funciona assim.

Ah, aviso-te que
O banco está meio frio
E a brisa está forte a cair
Dizem que a brisa
É o afago da chuva
Aí está
A chuva caindo
Sem nada cobrar
E ainda se põe
A nos afagar.

O banco vai gelar mais
Molharemo-nos
Na brisa
Que refresca
O corpo
Leva o suor
Ah, o padre também me disse
Ao ser questionado
Que a brisa alivia a alma
Se isso acontece
Sei não
Sei lá.

Ah, agradeço-te
Por me escolher
Para nesse momento
Contigo estar
Saibas que isso
Bem me fará
Desse monólogo hei de sair
Mais serena
Desse monólogo hei de sair
Impotente, mas tranqüila
Sabe por quê?
Ao te ouvir
Minha voz na tua
Ressoará.

Vem
Não demora
A qualquer hora
Senta aqui
No banco frio
Com a brisa
A cair e cair
Em nossos cabelos
Em nossa pele
Provavelmente
Ficaremos encharcadas
As roupas molhadas
Será legal
Brisa boa
Faz bem
Nada de mal.

O padre também disse
Que a brisa
Serve para purificar
Coisas que se alojam
Em lugares tortos
Desprotegidos
Enfraquecidos.

Se é isso
Sei não
Também pra quê
Se dá pra sentir
Querer com isso
Formular
Algo a mais
Para se preocupar?

Sei lá.

Agora? Tudo bem.
É só sentar.
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