O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009














Estamos numa bela tarde de primavera.

Estou sentada no banco da praça principal.

O sol eleva meu humor e torna-me mais serena.

Daqui posso ver a Igreja local.

É linda, não, linda é pouco, é monumental.

Suas portas estão abertas solicitando aos fiéis que entrem.

Próximos à porta encontram-se alguns mendigos.

Suas roupas são velhas e rasgadas. Eles cheiram mal.

Os pedintes não tomam banho.

Os pedintes não têm escova de dente.

Os pedintes não têm identidade.

Os que passam próximos a eles não olham mais. Optaram por não enxergá-los. Assim, eles se tornaram invisíveis.

Já já a noite cairá. Os pedintes continuarão próximos à porta da igreja. Não entrarão.

Os invisíveis não são chamados a orarem como qualquer outro fiel.

Lá não há lugar para eles dormirem.

Os invisíveis ficarão ao relento mais uma noite. Acostumaram-se.

Eu não faço nada. Sou igual a todos os que estão de olhos vendados. Sinto apenas um gosto salgado molhando minha boca.

Abaixo a cabeça e praguejo a existência humana.

Abaixo a cabeça sem entender o significado do mundo.

Abaixo a cabeça sem entender o sentido da vida.

Nesses momentos tudo me soa demasiadamente cruel. Frio e cruel.

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