O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

domingo, 1 de maio de 2016

Estio

Seca,
Nua,
Crua,
Tanto por dentro,
Quanto por fora.

Dentro dela também um vazio a envolve,
Depois se auto expele pelo nariz, olhos e outros poros.

Ela deixa a casa,
Segue rua adiante,
Caminha e não repara,
Em quem nela repara,
Somente frente a uma vitrine,
Percebe seu corpo desnudo.

Plateia pequena ovacionou,
Ela sequer se abalou,
Se, era ordinária e vil,
Os demais filhos de putas,
Que nenhum sequer pariu.

Quando a plateia decidiu de novo gritar,
Desnuda, despida, seca e também incrédula,
Ela percebeu a quão vil e ordinária poderia ser.

Praguejou a todos que a rodeavam,
Ofendeu mães, filhas, pais, talvez até tias,
Nem por um momento sentiu pesar,
Agora aquilo que se fazia resto,
E resto se joga no lixo.

Resto essa mulher não iria mais ingerir
Resto alguma essa mulher se permitiria,
Novamente deglutir.

A partir desse momento,
Deu-se conta de que só haveria,
Uma única maneira de ajuizar:

- Ou seria do jeito dela,
Ou ele poderia à casa da mãe retornar.

Se por um tempo ela permitirá,
Que ele logo a moesse como lixo orgânico.

Agora, seca e vazia,
A explorar seu papel vil,
Não seria a morte dela,
Ele a celebrar.

Inverteram-se os pesadelos:

- Agora sou eu quem te esmago,
Pisoteio,
Arranco-te da casa, sem nada,
Desnudo e descalço,
E lanço com essa força que ganhei,
Um merecido pé na sua bunda.

Tratar logo de escolher,
Frouxo, bundão,
Em qual estrada tu,
Há de bradar por nela correr.

Problema teu, meu bem
Problema teu, neném,
No meu ventre não te carreguei,
Nem em meus seios te amamentei.

Problema teu, meu exibem,
Ponha-se daqui para fora,
E, por definitivo, esqueça,
O caminho de volta.

Para mim foi uma década de azaração,
Consolo-me, porém, em saber,
Que para ti,
Serão décadas de humilhação.


Tchau bundão!

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