O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Crack, Nossos Meninos e o Esporte











I

Hoje, nesse domingo de solzinho acalorado, resolvi, enfim, limpar o fogão.

Há semanas que olho pra ele, ele olha pra mim e eu me consumo de vergonha de ver tanta gordura acumulada.

Determinei que não receberíamos visita até o colesterol do infeliz estar zerado. Seja quem for eu paro no início da rua, não permito que adentre a Alameda. Aqui não entra de jeito nenhum. Se for necessário aciono a CIA ou o FBI ou a Força Tarefa. Essa me parece mais viável para pedir socorro, concordas?

Todo dia a gordura ficava martelando na minha cabeça e enviesando os meus olhos. Ou eu o limpava ou ele – creiam – acabaria me matando de ódio e humilhação. Eita, fogãozinho infame. Mas, falando sério, não dá pra deixar de reconhecer o poder que o infeliz exerceu nesses meses todos sobre mim.

Bom, voltando: Passei o dia esfregando e esfregando o danado. Tive que usar tudo o que tinha em casa = pouca coisa, para desengordurar o bicho. Usei Veja com detergente e água quente porque o óleo, ao longo dos meses, puta ignomínia, tornou-se, por completo, empedernido.

O que posso fazer? Faxina sempre foi meu calcanhar de aquiles e não tem sobrado troco algum para pagar uma diarista. Estamos zerados.

Sabe de uma coisa? Todos os dias tenho a impressão de que os meninos chegam em casa, olham para o fogão, depois olham para mim e despacham mentalmente a seguinte pergunta: - “E aí 'Isaura', não vai fazer nada?”

Quem mandou parir? Se eu morasse sozinha deixaria o infeliz apodrecer até atingir o ponto de jogá-lo fora, depois compraria outro, mesmo que fosse a perder de vista. Simples assim, não?

Continuando: Enquanto minha mão adormecia no esfrega esfrega minha cabeça reflexionava efusivamente sobre a situação da Cracolândia. O tempo todo que demorou a limpeza, ou melhor, a faxina no fogão, fiquei pensando nos meninos do Brasil e no Crack e, claro, só poderia dar de cara com a Cracolândia e refletir sobre o que poderia afastar nossas crianças do Crack. Ou, talvez, no que poderia torná-los menos vulneráveis e suscetíveis.

E não é que do alto da minha taluda ignorância cheguei a uma conclusão? Somente o esporte será capaz de encarar de frente esses alimentos perversos. Somente o esporte tem força – já determinei - para fazer um ‘cara a cara’ com as drogas, um ‘face to face’ pesado, sabe? É, bater de frente, mesmo, poderosamente, encarar sem receio algum essas substâncias que exercem tanta propriedade sobre nossos meninos, sejam eles moradores do Viaduto Marechal Deodoro ou da Praça da Sé, sejam eles moradores de condomínios de luxo.

Cheguei a única solução: No lugar da Cracolândia teria que haver campos de futebol. Poderiam ser umas quadrinhas de futebol para preencher os espaços, mas algo teria que ser construído ali. Lembrei de Traffic e dos campos de beisebol...

Sim, essa era a solução. Tenho a mente ingênua, eu sei. Mas funciono assim. Fazer o quê?

Ao término da minha conclusão estava inundada pela expectativa e pela ansiedade pré-precoce (Vocês já a conhecem.). Precisava contar a alguém o que havia determinado. Precisava contar para alguém que determinara que no lugar da CRACÔ teríammos quadras de futi. Que elas sairiam a qualquer preço. Nem que eu tivesse que ir até o inferno, visitar Lúcifer, 'believe me'.


II


Vocês sabem o que acontece hoje na Cracolândia? Diariamente circulam por lá alguns policiais. De posse de seus cassetetes dispersam os moradores do local – sim, moradores! Depois viram as costas e se vão. Na sequência todos os moradores voltam para suas ‘casas’ – leia: SEUS NINHOS DEMARCADOS NOS CANTOS DAS RUAS.

Desculpe a dispersão. Voltando: Auto-proclamei: Abaixo a Cracolândia. Viva o futebol.

Auto-proclamei II: No lugar desse inferno terão que construir alguns campinhos de futebol. Não sei quantos. Não medi o local, mas esse ciclo tem que mudar: - Policiais dispersam – Moradores voltam – Policiais dispersam – Moradores voltam - Policiais dispersam – Moradores voltam...

Fui um pouco além nos meus pensamentos: Pensando bem já que para se fazer uma quadra de futebol é necessário pintar aquelas faixas brancas no chão (não sei o nome técnico), poderiam aproveitar e pintar mais algumas listras. Essas que são necessárias para delimitar espaço num jogo de vôlei ou de basquetebol.

Viu? Três em um.

Depois, para finalizar a obra, era só colocar uma cesta de basquete e uma rede de vôlei. Pronto. Na brincadeira os guris teriam três modalidades para usufruir. Ah, lembrando, precisaríamos de professores. Mas isso é fácil: Voluntário no Brasil é coisa que não falta.

Então, eu, diante da minha certeza bipolar concluí: Só o esporte tem o poder de afastar, ou melhor, livrar os meninos das drogas. Não adianta querer inventar mais moda. Balela. Já vou adiantando: Caso queira me expor seu ponto de vista quanto à minha solução para a CRACÔ acho bom você se armar de argumentos bem palpáveis, fortes mesmo sabe? Afinal sou cabeça dura e tenho um lado pra lá de positivista. Às vezes nem eu me reconheço. Saiba você que quando ponho algo na cabeça para tirar do lugar depositado só mesmo chamando um guincho. Não será qualquer mané com palavrinhas ou frasesinhas de efeito que me fará mudar de idéia, mesmo que essa idéia - a minha - seja considerada simplista e inocente. (Acho melhor ignorar isso para o bem da minha auto-estima).

Fui um pouco além na minha conclusão: Nem as artes, nem a escola, nem o trabalho, menos ainda os pais - coitados - serão capazes de afastar o mal – haja Crack - que se alastra por aí.

Esse que, penso eu, sei lá, só serve para preencher o tempo, encher barriga vazia e iluminar corações sentidos mesmo que isso aconteça somente apenas por alguns instantes. Aqueles ditos instantes que só a pedra proporciona, sabe? O tal do click.

No meu entusiasmo mental pensei que como o esporte detém o poder de agir no organismo liberando as ‘inas’ da vida, necessárias ao nosso bem estar físico, para ficarmos ‘cool’ somente ele, entãoe, poderia preencher o vazio que cuida FEROZ e VELOZ dos nossos garotos, sem falar do êxito que detém sobre eles.

Conclusão concluída resolvi que teria que fazer alguma coisa. Então pensei no bom e velho – na maioria das vezes invisível - abaixo assinado. Esse, depois de bem assinado seria entregue NAS MÃOS das autoridades. Feito. Começo a colher assinaturas amanhã, na segundona. Primeiro passo aqui no prédio, depois vou para as ruas. Penso que umas mil assinaturas, todas de moradores do bairro, tornem o abaixo assinado significativo.

O segundo passo será levar (já tô no PRESENTE, reparou?), pessoalmente para os filhos da puta que exercem o poder – SIM, AQUELES TODOS ELEITOS POR NÓS - nem que eu tenha que bater de porta em porta de tudo que é autoridade. Só descansarei depois que alguém me disser 'hello'. Podes crer. Palavra de Gill.

Se você quiser aderir ao movimento – nossa virou MOVIMENTO – envie-me um email. Serei muito grata. Ah, como não terá sua assinatura coloque o número do seu RG. Eu imprimo e anexo. É grampeio mesmo.

Só mais uma coisinha: Cuidado comigo. Já disse que não estou disposta a ouvir merda. O que dizer então de ler merda. Cuidado com o que vai me escrever. Estou tão indignada com essa pedraiada esfumasçante e tanto policial vazando lá na CRACÔ que posso comer meu note, get?

Excedi-me nas palavras. Para finalizar: Estou tomada pela raiva. Não. Estou tomada pelo ódio. Bom sinal.


III


Como sou bem neurótica salvei esse texto no note em Word - em modo de compatibilidade, claro -. Salvei também no WordPad. Em seguida salvei, de novo, na Pen Driver também repetindo a sequência do Word (modo de compatibilidade, entendeu?), e do WordPad. Um ‘backpezinho’ nunca é demais. O que dizer então de back up's em versões distintas e quantidades variadas? Só mesmo você (eu) Gill.

IV

Fecho o note, coloco a Pen de forma horizontal, sempre horizontal – mania - sobre ele e vou para a sala. Inicio um papo - um tanto o quanto monossilábico - com meu caçula, o Pedro Henrique:

- Escrevi um artigo. (Esqueci de mencionar que seus ouvidos estão ocupados com fones).

- Ahn.

- O nome é: O Crack, Nossos Meninos e O esporte.

- Ahn. (Ele tá jogando o joguinho dele (joguinho da porra).

- Amanhã começo um abaixo assinado.

Ele tira o fone do ouvido esquerdo.

- Aonde você vai fazer abaixo assinado mãe?

- Vou começar aqui no prédio depois vou para as ruas.

- Pra quê?

Explico o lance do Crack versus as quadras. Ele resolve – garoto sem compaixão – me jogar um balde de água fria.

- Mãe na Cracolândia tem duas quadras de futebol.

Não!!! Não e não.

- Sério?

- É.

Insisto mais um pouco no meu são delírio de fazer algo:

- E basquete, vôlei? Tem?

- Não.

Sem piedade alguma ele me encharca novamente:

- Mãe quem quer jogar futebol na Cracolândia?

- Ué, os meninos que fumam pedra.

- Ahn.

Não entendo a porra de mais um Ahn. Esse INDEFESO ‘ahzinho’ tem o poder de me abater – Ops. Cuidado com a deprê. Depois dá-lhe fluoxetina.

- Ué então falta professor, alguma coisa falta senão eles estariam jogando bola.

Ele ri. Filho da puta. Sei que a puta em questão sou eu e do alto do meu um metro e sessenta e nove, adornada pelos meus longos cabelos - não tiro as pontas desde abril de dois mil e nove por falta de dinheiro – sem falar que o cabelo está em dégradé: Quatro cores: Castanho escuro, castanho claro, loiro e branco nas malditas têmporas, também por falta de grana para comprar tinta e colorir . Você certamente está pensando: E eu com isso?


Insisto um pouco mais:

- Falta alguma coisa. É claro: Tem alguma coisa errada com os dois campos de futebol senão eles usariam.

O guri sorri e volta ao VASTO repertório de ‘Ahns’:

- Ahn.

- Algo está errado.

Como é que eu passei várias vezes na porra da Cracolândia e não vi quadra nenhuma? Cega. Merda, só olhei para os meninos, nunca desviei os olhos. Concluo rapidamente que sou miserável e egoísta até no olhar.

E como não tenho pudor nem vergonha na cara continuo meu DIÁLOGO com o carinha dos ‘ahns’. Sou foda mesmo, eu sei.

- Amanhã vou até lá. Quero ver essas quadras de perto. Como foi que nunca reparei?

Resposta nenhuma só mais um:

- Ahn.

- Vou. Alguma coisa deve haver para ser feita. Não dizem todo dia nessa porra de vida que pra tudo tem solução? Eu, pelo menos, ouço isso, NO MÍNIMO, uma vez por dia. Alguma coisa tem que dar pra fazer, ah tem. Amanhã eu vou lá – grande coisa, FULANA – vou sim, tá resolvido.

De repente reparo melhor no meu filho e ‘detecto’ que seu ouvido esquerdo já está ‘ocupado’.

Em qual momento da minha fala ele colocou o fone? Qual a diferença, MÃE? Acho que falei sozinha, feito trouxa, pelo menos por uns vinte minutos. Tudo bem. Pela metade ou não consegui expor minha idéia para alguém.

Fudeu. Agora já não sei mais que porra propor para os meninos deixarem o Crack. Um estalo: Observar o local, estudar o espaço, conhecer a geometria, falar com os guris, of course, and blá, blá, blá = outras idéias teriam que surgir = desculpe, bateu a preguiça. Amanhã. Sem falta. Nossa, tenho a impressão de que estou rezando para o AMANHÃ. Para que ‘no amanhã’ eu vá até lá.

Uai não acredito em deus. Desculpa deus. Sabe, vou te confessar uma coisa: Pra compensar minha falta de fé tenho sempre a seguinte frase na ponta da língua para quando sou questionada com aquela maldita perguntinha? – Você acredita em deus? De pronto eu: - Se deus existe ele está no coração de cada um de nós.

Nossa, reconheço agora, pensando sobre esse ângulo, que tem gente pra caramba sem coração ou sem deus dentro dele. Mas tenho minha crença. Resume-se a Jesus. Será que é pra compensar minha falta de fé? Sei lá. Só sei que sou fá número um de Jesus. Desde que me reconheço por gente descrente uso crucifixo. Adoro cruz.

Todos os dias penso em como consigo viver absorvida nessa dualidade? Eu com minha cabeça cheia de dúvidas sobre algumas afirmações que Jesus pregou. Começando pela afirmativa de quem era seu pai. Tudo bem. Vou sobrevivendo até que bem com essas interrogações mentais. Melhor deixar pra lá. Para isso preciso de um grito interno:

- Olha o foco, mulher.

Chega. Paro por aqui. Prá variar me excedi nas palavras. ‘Sorry’.

V


Não preciso nem dizer que a essa altura do campeonato já estou no meu quarto 'alone' falando sozinha, pra variar, em voz alta – calma, tenho sempre o cuidado de fechar a porta - sentadinha na beirada da cama com o meu note no colo digitando esse epílogo. Metida a besta. EPÍLOGO.

Bom, pra finalizar repito: Amanhã vou lá. Depois te conto. Tchau.
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