O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Despedimento


















Ouço atenta o que me dizem ao telefone
Não emito nenhuma palavra
Não tenho nada a dizer.

Desligo mecanicamente o aparelho sem me despedir e caminho até o quarto.

Abro o armário e escolho um vestido
Entre tantos fico na dúvida.

Opto por um de meia manga na altura dos joelhos
Cor sóbria, cinza escuro, tecido de malha
Ótimo. Não precisa passar.

Estico-o sobre a cama e busco um calçado adequado.
Melhor não ser muito alto
Sei que vou andar bastante
Encontro o par ideal para compor meu último visual para ele que não perceberá o tom das minhas vestes nem o meu cabelo preso.
Pior, não sentirá o perfume que tanto apreciava e que oportunamente usarei.

Dirijo-me até o banheiro
Arranco a roupa e jogo-a no chão
Abro o chuveiro e enfio-me debaixo dele
Deixo que a água encharque meus cabelos
Deixo que a água umedeça com certa força minha pele
Sinto-me mais consciente agora
Como dizem por aí a água esfria a cabeça
Penso um pouco sobre nossa história
Relembro algumas passagens
Pareço que ouço sua voz em meus ouvidos
E sinto um leve arrepio no meu corpo.

Não entendo bem o porquê
Não sei o que ouvi, apenas reconheci o tom.
Relembro algumas vivências
Dois em um
Um em dois
Profundo
Extenso
Vivido quase que na plenitude do entendimento que se pode querer viver com alguém.

Esqueço.
Paro com os pensamentos e lavo bem os cabelos.
Depois de banhar o corpo enxugo-me com certa raiva.

Como posso nesse momento passar por esse ritual todo sabendo o que virá pela frente?

Como sempre não deixo de passar creme nas pernas, nos braços e no rosto.
Penteio os cabelos e prendo-os num coque. Deixo que o aroma do meu perfume toque suavemente minha pele.

De volta ao quarto busco na bolsa o rímel e o pó.
Passo no rosto e resolvo também usar um pouco de blush, afinal ando tão pálida.

Enfio-me no vestido, calço os sapatos e acendo um cigarro.

Sento-me na beirada da calma. Nas mãos seguro os meus óculos escuros.

Não sei direito o que vou fazer lá
Não sei direito porque vou.
Apenas sinto a necessidade de ir vê-lo mesmo sabendo que o tempo não voltará nem fará com que nada seja diferente do que foi e do que será daqui pra frente.

Levanto-me com certa pressa. Na sala pego as chaves do carro. Já no elevador lembro-me que esqueci meus cigarros. Paciência.

Dou partida. Vou a sessenta por hora, sem pressa, sem lágrimas, vazia. O único sentimento que reconheço em mim nesse momento é o de insatisfação. Não vasculho entender. Dou-me uma trégua e respiro fundo.

Paro no local indicado. Desço. Ando vagarosamente até encontrar a sala que me foi informada.
Lá estão reunidos tantos conhecidos. Não aceno nem cumprimento ninguém.

Caminho até a mesa que me parece fria e olho como o estenderam sobre ela. Seu corpo jeitosamente adornado pela madeira.

Tenho vontade de tocar-lhe o rosto.
Tenho vontade de dar-lhe um beijo, mas não faço nada.
Apenas observo.

Noto o pequeno alvoroço. Trata-se da família.

Não rezo nem penso em nada que poderia lhe dizer.

Fico ali parada por alguns instantes imaginando apenas a solidão que me espera.

Ninguém se aproxima de mim. Melhor assim. É como se existisse de forma velada um pacto de respeito ao comportamento de todos perante essas situações.

Passo a mão pela mesa. Úmida. Um pouco de poeira.

Nesse momento minha mão busca as mãos dele. É quando sinto no rosto uma lágrima que teimava em cair.

Dobro-me e beijo-o escandalosamente por alguns minutos. Tenho esse direito. Beijo-o com paixão e já com saudades.

Quando me ergo reparo que alguns me olham de forma piedosa e o sentimento de tristeza se intensifca.

Resolvo que devo voltar para casa. Preciso me deitar. Talvez dormir um pouco. Talvez chorar um pouco.

Viro-me e encontro o percurso até a porta de saída.

Já no carro dou partida. Não sinto meus movimentos. Apenas repasso-os.

O caminho de volta parece mais demorado e ouso ouvir uma música.

Em casa troco a roupa. Boto meu pijama. Bebo um copo d’água e estendo-me debaixo do edredom. Janela fechada. Luzes apagadas.

Peço mentalmente que o sono venha me encontrar. Nos sonhos vejo apenas ele caminhando pela sala procurando um cd que há tempos não ouvia e que não sabe aonde colocou. No sonho vou ajudá-lo na sua busca e encontro. Fico feliz por ele e fico feliz por eu ter achado.

O jantar já está pronto. Foi ele quem fez. Sentamos à mesa e comemos falando algumas besteiras e rindo um pouco. Ao fundo, a música.

O sonho vai embora e acordo entusiasmada. Recheada de momentos vividos. Recheada de momentos únicos. Vou até a sala e coloco no aparelho de som o mesmo cd que ouvimos juntos tantas vezes.

Olho pela janela e vejo que o sol está indo embora.
Olho pela janela e entendo que o sol está indo embora.
Olho pela janela e choro desesperançada sua partida.
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