O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

domingo, 22 de novembro de 2009

Idiota





Você pode encontrar uma luz acesa que fará reluzir sua existência.
Mas isso não durará. Logo ela haverá de se apagar. Enquanto você permanecerá no vasto escuro da solidão.

Disfarce

População
Extra
Ação
Sentimento
Sensação
Percorre
O vazio
Em vão
Pura dissimulação
Sofre
Ajeita-te
Sentido
Sofreguidão
Segue
Só
Sem rumo
Sem direção
Encara
A contra mão.

Clausura



Rendam-se!
Não há saída
As portas estão trancadas
Prenderam os portões com correntes enquanto os humanos continuam anestesiados.
Rendam-se
Não há saída!

sábado, 21 de novembro de 2009

Categorização

Na minha mente
Elaborei o amor
Articulei,
Alterquei,
Modifiquei,
Refinei e
Arquitetei.
Assim, edifiquei.

Quando ele sutilmente se apresentou descortinou tudo o que em minha cabeça outrora se fabricou.

Enganei-me. Impiedosamente.

domingo, 15 de novembro de 2009

Dever de Sonhar by Fernando Pessoa

”Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis."

By Bob Marley

"Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação.
Porque sua consciência é o que você é e sua reputação é o que os outros pensam sobre você. E o que os outros pensam é problema deles!!!"

By Jean-Paul Sartre

"O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate."

Para eu pensar











Pensas que sou demasiadamente ingênua
Assim, desfrutas das minhas eternas amarguras
Saibas que esse caminho, lúcida, eu elegi
E fiz dele meu passadio principal.
Saibas que bem sei que nunca quis meu bem
Mas saibas, também, que bem sei, que nunca me fiz mal.

sábado, 14 de novembro de 2009

Situação


















Há uma sombra no telhado da minha casa
Ela impede que o sol me visite e me aqueça
Já briguei, escrachei, bradei alto e supliquei
Mas ela não se movimenta. Permanece estacionada.
Bem sei que essa sombra que me acompanha
Eu, dentro do meu ser, inundado de devaneios, sozinha criei.

Interior




Alma enviesada
Atenta:
- Há viés na encruzilhada.

Toma
Leva o que é teu
Que eu fico com o resto do que é meu.

Sopro


Um caminho
Uma direção
Um sopro
Sofreguidão.

Por merecimento
Por indicação
Por ser
Ora do sim, ora do não.

Mentira


















Durante o dia ensaio alguns passos
Para sair,
Ir à rua,
Talvez, receber alguns abraços.

Durante a noite elaboro na minha mente
Uma agenda arrematada
Que para mim somente mente.

Trancafiei-me
Isolada encontro-me
Institui assim
O dorido começo
Do meu incessante fim.

Limite


















Há algo que ensaio há tempos para te dizer
Demorei, não sei explicar bem o porquê
Talvez seja o que provoca minha ausência da vida
Durante todos os meus dias.

- Não suporto mais o ar que tu respiras
Não tolero mais o teu sorriso
Não sustento mais o som da tua voz
Não quero mais em teus braços adormecer
Prefiro a solidão a passar a vida com você.

Então,
Aqui
Agora
Nesse momento
Cortam-se os nossos laços.

Sigas teu caminho
Enquanto eu seguirei o meu
Torço para que longe de mim
Tu sejas finalmente feliz
Creia,
É meu coração quem diz.

Adeus.













Porque insistes em me perguntar quem eu sou.
Se não tenho resposta nem para mim imagine para ti.
Inclusive, há tempos, deixei de buscá-las.
Peço-lhe, por favor, que se retire.
Vá embora.
Mantenha-se longe de mim.

Para lembrar sempre...

by Drummond:
“Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade e não considero honesto rotular de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e, até mesmo, da ação”.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pranto

















Pranto irremediável
Pranto ensurdecedor
Pranto nostálgico
Pranto fielmente trazido
Pelas mãos do horror.













Estamos numa bela tarde de primavera.

Estou sentada no banco da praça principal.

O sol eleva meu humor e torna-me mais serena.

Daqui posso ver a Igreja local.

É linda, não, linda é pouco, é monumental.

Suas portas estão abertas solicitando aos fiéis que entrem.

Próximos à porta encontram-se alguns mendigos.

Suas roupas são velhas e rasgadas. Eles cheiram mal.

Os pedintes não tomam banho.

Os pedintes não têm escova de dente.

Os pedintes não têm identidade.

Os que passam próximos a eles não olham mais. Optaram por não enxergá-los. Assim, eles se tornaram invisíveis.

Já já a noite cairá. Os pedintes continuarão próximos à porta da igreja. Não entrarão.

Os invisíveis não são chamados a orarem como qualquer outro fiel.

Lá não há lugar para eles dormirem.

Os invisíveis ficarão ao relento mais uma noite. Acostumaram-se.

Eu não faço nada. Sou igual a todos os que estão de olhos vendados. Sinto apenas um gosto salgado molhando minha boca.

Abaixo a cabeça e praguejo a existência humana.

Abaixo a cabeça sem entender o significado do mundo.

Abaixo a cabeça sem entender o sentido da vida.

Nesses momentos tudo me soa demasiadamente cruel. Frio e cruel.

Fim

Não entende nada
Desse disparate
Dessa disparada.

Foice
Faca
Facada.

Morte
Vida
Acabada.

Suave mentira

Ela olha
Ela escuta
Ela finge
Ela desgosta
Aquele que sua alma feriu
Machucou
Com martelo quebrou
Partiu
O que nunca mais se juntou
Os canos estão largados no chão
Lá estão, por lá ficarão.

sábado, 7 de novembro de 2009

Zombaria






Vive de ilusão
Não sente medo
Agarrada está
À sua extensa situação
Desorientada caminha
No meio da grande multidão.
Todos os dias em que caminho por essa estrada vejo glórias e pedaços de pedaços de mais pedaços. É cruel.

Suicídio



















Saudade triste
Tristeza
Pobre pequena
Pobreza.

Desequilíbrio
Desorientação
Marcam seus passos
Seguram suas mãos.

O punho outrora marcado
Por um corte feito cortado
Vê novamente o sangue
No caco de vidro quebrado.

O corte é quem a faz caminhar
Nele ela vive a pensar
Ruma buscando a hora certa
Para novamente se eliminar.

by Mário de Andrade

Eu sou um escritor difícil 
Que a muita gente enquisila, 
Porém essa culpa é fácil 
De se acabar de uma vez: 
E só tirar a cortina 
Que entra luz nesta escuridez.

(A Costela de Grão Cão)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Se eu soubesse quem sou faria algo para facilitar minha vida.

















Encontrei no ato de escrever a forma que precisava para expressar meus devaneios. Sou insana, anormal e gosto de mim assim. Não quero ser cordeiro andando lado a lado, de forma igualzinha, aos outros.

Quando escrevo não tenho nenhuma pretensão de oferecer a quem lê quaisquer alternâncias para suas vidas.

Cada um sabe bem o que quer. Cada um sabe bem o que pode.

Somos livres para buscarmos aquilo que nos é necessário.

Somos livres para entendermos as palavras segundo nossas estampas.

Um homem qualquer

Seu ofício no começo era o de pedreiro
Com o tempo descobriu a madeira e encantou-se
Passou, então, a ser carpinteiro.
Esse homem que levanta monumentos
Somente é visto pelos poucos que têm alguma sabedoria.

Ofício

Pedra
Conchavo
Palhaço
Pedaço
De aço
Mal feito
Pavão elaborado
Encontra-te agora
Todo arrebentado.
Se o amor diz tanto para a maioria das pessoas não entendo porque não o distribuem àqueles que dormem ao relento?

Uma moça

A moça dos cabelos longos
É carente de amor
E ao ser afagada pelos ventos
Cintila no ar furtando-se do tempo.

Lua

Lua melodiosa
Enternecida
Encantada
Aparece
Aparecida
De norte a sul
De leste a oeste
Lua melodiosa
Tens vida
Oferta-a.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Abraço


Não sei quem eu sou
Não sei o que eu faço
Ando vulnerável.

Sei somente que para me sustentar
Proponho um acanhado afago
Nessa tentativa estico o meu braço
Possibilitas-me o calor do teu abraço?

Cláusula


















O homem magro reflete sobre sua existência
Descortina um conjunto desigualado
O mesmo homem pondera sobre seu mundo
Percebe-o sujo, fétido, imundo.

Põe-se a pensar sobre sua vida
Constata que nada o espera
Também nada ele anseia
Em ninguém mais confia.

Pede licença para informar:

- Senhoras e senhores desse lugar
Sinto mas, chegou a hora, de me pronunciar
Não há saída
Não dá para remediar
Todas as portas estão trancadas
Como disse, não há saída
Não espero mais
Fugir desse estar
Assim, haverei de me sustentar
No tempo que se prolonga
No tempo que se prolongará
Minhas acanhadas e volumosas
Formas e formas de azar.

Enxerto











Pelas lânguidas mãos minhas
Vazava o resto dos meus dias
Enquanto podia ser alguém
Tornei-me um vaso de cristal.

Vaso preso ao passado
Vaso preso aos sentidos
Vaso preso aos pensamentos
Vaso contido nos sentimentos.

Perdi-me.

Bel prazer


















Primo pelo bel prazer
Nele faço tudo acontecer
Seja dia, seja noite e
Encaro com brilho o entardecer.

Primo pelo bel prazer
Nele percorro meu corpo são e
Encontro no meu peito
A batida suave do meu coração.

Primo pelo bel prazer.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Rapaz


















Ternura
Amargura
Feio
Feiúra.

Doce
Encanto
Acalanto
Danou-se.

Cruel
Sagaz
Viril
Esse rapaz.

Pobre
Penúria
Suado
Ele jura.

Grato
Gratidão
Farto
Fartura.

Sorte
Condição
Composto
Composição

De não.

Socorro


















Preciso de alguém que me diga
Qual porta devo abrir
Encontro-me perdida
Penosamente ainda consigo resistir
Mas não consigo distinguir
Qual é a melhor opção
E sigo rejeitando
Os pedidos do meu coração.

Véu negro


















Começo com a verdade
Quem quiser que acredite
Mostro aqui para todos
Os que fingem saciar
A fome dos que estão
Na verdade a matar.

Na avenida da perdição
Os fracos vão atrás de comida
Sabem que pouco encontrarão
E que por pouco tempo
A fome fartarão.

Simples constatação
Vidas e vidas de perdição
Retratando a fraude de norte a sul
Fazem-se presente e fantasiam
Que alimentarão
Aqueles que estão
Encarcerados na prisão.

E continuam a provocar
Enorme maestrias
Na rotina diária da grande massa
Na vida de todos os pobres que passam.

Desejo que morram todos sufocados
Desejo que morram esses desavergonhados
Feitos de podridão
Enganosos avessados
Pela grande maioria
Que aqui estão
Humildemente retratados.

Que morram esses abastados
Que humilham a população
Que morram esses desorientados
Que ostentam na injustiça
Um abastado coração.

Que morra essa grande devassidão.
Estou farta de mim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fastio


















Levanta-te rápido menina
Não vês que o dia esta a clarear?
Vamos anda logo com isso
Inicia teu ritual habitual
E farta-te de pó.

Quem sabe quando a noite chegar
Poderá ela te fazer enxergar
Onde metida estás.

Levanta-te!
Segue teu fastio diário
Mas não reclama
Do pó branco
Suave e frio
Que te acalanta
Dias e noites a fio.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Final

A quentura da fogueira aquece minha face
Valho-me dela para secar minhas constantes lágrimas
Valho-me dela para aquecer minhas mãos frias
Assim, quem sabe, possa eu um dia
Reclamar o olvidado perdão.

Isso é o que me resta.

Asno

...E um dia, a pequena grande senhora daquele vilarejo, perdido ao longo das rodovias, olhou para o homem de sua vida e pensou: "Deus meu, ele era tão inteligente e agora, assim, da noite para o dia, transformou-se num asno".

Ana Luíza, a Princesa


















Num morro elevado
Vive uma moça nobre
De nome sofisticado
Atende por Ana Luíza.

Tem poucos anos
É linda como uma pétala
Como menina inicia
Como mulher se transforma.

Ana Luíza, Princesa
Com tua inocência transforma o jogo da vida
Converte-o em momentos de alegria e pureza.

Menina Princesa que reluz
Conspurca esse esgoto
Num mundo de luz.

Transforma Princesa
Esse piso empoeirado
Num mundo menos desencantado.

És forte menina
És sábia mulher
E na tua pureza
Reina tua riqueza.

Agora de ti me despeço
Tens ciência do meu bem querer
Que por você
Vai além e supera
Qualquer entender.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tentativa







Tenha mais medo de você. O outro é incapaz de fazer o mal que você pode fazer a si próprio.

Persecução





Ato
De fato
Boato
Sem salto
Erguida
No asfalto
Persecução
Vai além
De um não.
Enquanto você pensa no futuro o hoje escorre pelos teus dedos. Assim você não tem hoje e nem terá amanhã. O hoje é o passado assombrado. O futuro é uma ilusão propagada para nos fazer sentir que somos alguém quando não somos nada.







Meu maior medo sou eu.

Em verdade vos digo:




Alguém precisa me deter senão eu me afogo na minha própria ignorância.
Alguém precisa me deter senão eu me destruo na minha mais pura lucidez.

by Machado de Assis

"As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos.
Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo... Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados... Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore."

Medo

Medo de ti
Medo de mim
Não sei se não
Não sei se sim.

domingo, 25 de outubro de 2009

Vão





Vazio advindo
Do tempo sumido
Aquele que se foi
E não volta mais
Lembre-se de no final
Não olhar para trás.

Solidão











A solidão apazigua
As pessoas que a desconhecem
Mas também atormenta
Os que nela se estabelecem.

A solidão respira fundo
Escondendo-se oportunamente
Em nossos miúdos mundos.

Falsidade
Todos a conhecem
Falsidade
Todos nela se entristecem.

Admitas!

Recordação


















Prisão
E preguiça
Morta
E quase mortiça.

Através da porta de ferro
Ela adentrou o inferno
Esse foi o seu erro
Recordar o seio materno.

Não ouço os sinos das igrejas

Francisco













Por anos e anos Francisco sucumbiu
Por anos e anos Francisco vergou-se
Anos a fio a desalentar-se
Deixando a fraqueza do mundo lhe dominar.

Francisco sujeitou-se às madrugadas
Delatou-se à escuridão das noites
Ele determinou esse castigo
Por ter permitido, descomedidamente,
Aludir sua vida
À invasão alheia e indecente.

Francisco prepara-se para reparar
Tudo o que deixou passar
Finalmente Francisco já se permite
Alguns momentos de alegria
E começa a espalhar
Sua porção de semente.

Francisco acolheu alguns convites
Nos instantes de contentamento
Despediu-se, por fim, da lenta enganação
E festeja sua vida vivendo em ascensão.

Francisco reina em sua pouca soberania
Enquanto isso celebra com uma canção
Aliviando do pesado passado
Seu iludido e cansado coração.

Francisco vá viver.
Francisco seja feliz
Lembre-se somente:
De quando anoitecer
Agradecer por você ser você.

Cálamo





Pena pequena
Pena enfeitada
Pena maldita
Pena amaldiçoada.

Caminha sozinha
Na contra mão
Porém, felizmente
Dá de cara com o chão.

sábado, 24 de outubro de 2009

Pesar



















Quase não me sinto mais humana
Sou como um poço raso
E reconheço
Dentro de mim nada restou.

O vazio tornou-se meu abrigo
A devassidão agora é minha guia
E carrega-me com sua mão fria.

Rio de mim
Sozinha
Vou levando
Minha vida
Descrente
Longínqua
E, como sempre,
Vazia.

Nós nos amamos


















Nós nos amamos
Sem saber bem por que
Ele tem um jeito falante
E eu uma forma calada de acontecer.

Mesmo assim nós nos amamos
O elo do nosso amor atingiu o ar
O sabor do bem querer faz-nos amar e mais amar
Nosso amor tem seu jeito próprio de ir além
Transpirar.

Quem repara demonstra estranheza
Descocados não entendem
São pequenos
Escabrosos
Erguidos estão
No topo da intensa pobreza.

Nós nos amamos
Sem saber bem por que
Mas, o nosso amor
Faz o amar,
Aquecidamente, se estabelecer.

Nós nos amamos
Por fim, começamos a entender
Um reconhece no outro
Sua face
Seu decoro
Seu ser.

Nós nos amamos.

Sumiço




Saia agora
Por aquela porta
Nunca mais
Volte aqui
Somente assim
Serei eu
Novamente em mim.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Súplica


















Hoje visitei um santuário
Alojado bem no meio da multidão
Pude constatar as inúmeras aberrações
A sufocar tantos corações.

Pergunto-me:
- Porque o sofrimento se aloja
No coração dos pobres e esquecidos?

Não tenho respostas
Não tento forjá-las
Rogo apenas
Para que os desfavorecidos
Não sofram em demasia.

Vigília




Enquanto as pessoas dormem eu, contrariamente, mantenho-me alerta.
Passo as madrugadas fazendo aquilo que me dá a vida: Arquitetando palavras.
Assim, satisfaço minha insônia.

Suplicação


















Repara nas minhas mãos
Sempre frias
A denunciarem
Os danos que me amortecem
Todos os dias.

Repara na minha solidão
Constatarás, assim, minha inaptidão
De não saber viver
Cercada pela grande multidão.

Sou crua
Sou pouco afável
Aos poucos vou morrendo
Com a falta que experimento
De afeição e amor.

Repara na minha solidão
Preciso de uma mão
Careço de amor
Oferta-me
Alivia, assim, a minha dor.

Repara em mim
Nos meus movimentos
Vês?
Não alento.

Com isso sofro
A dor dos que foram
De lado deixados
E, penosamente, vivem perturbados.

Repara nos meus olhos
A anunciarem minha melancolia
Repara:
Meu olhar denuncia
Quem eu sou
O que eu fui
E essa sobra tardia.

Repara na minha vida
Sabias que fui predestinada
A uma longa e isolada jornada?

Repara nas minhas tardes
Tão tristes
Tão vazias
Elas todas
Minhas crias.

Repara na solidão
Que enfrento sozinha
Abraçada a um não
Ofertado por mim
Ao meu acanhado coração.

Repara:
Não reconheço
Para mim todos os dias
São feitos de imperfeições.

Repara:
Disso favoreço-me
Da mesma dor
Da maioria dos mortais.

Porém, sejamos francos
Intimamente sabemos
Que somos todos iguais
Miseráveis e, em demasia, banais.

Sempre escondidos
Atrás d'uma pretensiosa máscara
Fingindo que somos
Humanos normais.

Hoje o Sol me disse não


















Hoje o supremo Sol, lustroso e influente, olhou-me e preceituou:

- Não!
Hoje tu não sairás de casa
Hoje tu não comerás
Hoje os dentes tu não escovarás
Hoje tua roupa não haverás de trocar
Dispensarás a água
Eximir-te-á da fala
Escusar-te-á da tua forma de expressão.

Nesse momento entrei em discussão com todos aqueles ‘nãos’.

Alagada pela coragem, consistente proferi:
- Não senhor Sol.
Rejeito um dos teus ‘nãos’.
Não permitirei senhor Sol
Que me impeças de escrever
Tu não haverás de me privar
Do meu afligido ar
Meus sentimentos, senhor Sol
Tu não haverás de ocultar.

Sabes que admiro tua luz soberana
Sabes que admiro teu calor vigoroso
Sabes que admiro teu poder de alumiar
E sabes que admiro tua sabedoria
Em ‘os humores’ clarear.

- Mas, agora, interdito-o com o meu não!
Vedo-te de me proibir
Do reduzido pouco
Que edifica minha existência.

Vedo-te de me proibir
Daquilo para o qual
Arteiramente sei que nasci.

Assim, enuncio:
Não para você também senhor Sol.
Aqui haverei de continuar
Com minhas palavras
Perquirindo nas entrelinhas
Meu habituado respirar.

Não senhor Sol. Passar bem!

Invisível














Não aparecerei mais
Nessa luz sombreada
Sei que sou acre e fria
Sei também que tu sabes
Que minha mente
Tornou-se meu intenso guia.

Escondo-me agora para sempre
Jogo fora o que tu tanto querias
Lanço longe, lanço forte
Minha deteriorada semente.

Invisível sou
Invisível estou
Invisível serei
Invisível sei que morrerei.

Fina


















A jovem moça já não agüenta mais
Drogar-se para ao mundo sobreviver
Mesmo assim ela insiste
E segue dia após dia
Anestesiando-se.

Mesmo ciente
De que seu pequeno corpo
Não suporta mais.

Mesmo ciente
De que pouco a pouco
Ela dará cabo
De seu miolo de paz.

É noite
Escureceu
Não agüenta mais
Mas caminha
Corre
Vai atrás.

Fim


















Seu corpo tonteia impetuosamente
Algo semelhante a saltar de pára-quedas
Pela primeira vez encontra-se sem guia
E inicia o ritual de preparação
Para a sua esperada morte.

Sabe que na queda sofrerá
Fortemente todos os cortes
Mas, está pronta para sentir
A dor da carne nela sobrevir.

Desatais


















Decida-se homem:
Ou tu pegas ou tu largas;
Ou tu vives ou tu morres de vez
Mas, por favor, decida-se homem.

Saia de cima desse muro escuro
Dê um parecer
Um pouco antes do anoitecer
Vamos: Faça-se entender.

Decida-se homem.

Colisão

















Meu amor me encontrou
Sozinha e, como sempre, desamparada
Logo, com um sorriso me afagou
E desde então não mais me deixou.

Não permitirei
Que meu amor se vá
Encontrei nele meu abrigo
Minha solidão de frente ele atacou
Finalmente, a praga, meu amor, findou.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

by Clarice Lispector

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Embuste


















- Sou eu o réu do teu julgamento.

Somos cientes de que se equivocaram
Quando elegeram a ti julgar
Afirmo isso por saber
O que na minha vida sucedeu
Quando me perdi sem conhecer
O que deveria ser certo ou errado
Enquanto que pelas minhas mãos
Vazava o resto do meu eu solidificado.

- Sou eu o réu do teu julgamento

Pequei, pequei
Deslizei pelos meus pensamentos infiéis
Na tua face bati
Com minhas mãos inundadas de anéis.

Enquanto te fitava de modo torto
Descobria o sabor de morrer de desgosto
Sabe por quê?
Por desconhecer os meus limites
Por não reconhecer os meus medos tolos
Sem saber como reclamar teu perdão
Sem saber como suplicar teu socorro.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Outrora meus desejos romperam tua figura
E enquanto tudo se transformava
Eu ainda a navegar pelas ruas escuras
Enfastiada em minha própria mistura
Eu mais uma vez perdida no meio do dia
Vagando por entre palavras sujas e vazias.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Exaurida e exausta sigo insignificante
Caminho pelas ruas
Atravesso avenidas
Adentro madrugadas
Mas sempre, ora, sempre de mim tão cansada.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Meu olhar ainda se encontra intimidado
Esse findará minha tortura
Cortando-me em pedaços miúdos
Então, brava, dispenso o mundo ao qual me doei
E, brava, reconheço no que me transformei.

- Sou eu o réu no teu julgamento.

Sou eu o réu num momento exaustivo
Sou eu o réu sem saber como te pedir asilo
Sou eu correndo para brigar
Outra vez comigo.

- Sou eu o réu do teu julgamento

Na penumbra da noite vazia
Elegeram equivocadamente a ti homem
A sentença a ser dada
Há que se fazer parar agora
E acabar logo com esse engano
Então, imploro alto para mim o julgamento.

E oro
Oro para que tu tenhas a devida paz
Oro para que tu possas adormecer tranqüilo
Oro para que tuas noites sejam preenchidas pelos sonhos
Oro para que sob a luz possas dignamente viver.

Por fim caminho contra o tapume
Enquanto entôo meu último som:
- Sou eu o réu desse julgamento
Serei eu a pagar por esse tormento.

- Sou eu o réu desse julgamento.

Enfim, admitiram
Deram-me a sentença
Aos meus ouvidos
Soou feito doença
Morro agora
Inundada pela descrença.

- Sou eu o réu desse julgamento.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pena de morte

Vingar a tua sorte
Seria como transpor alguns limites
O limite das forças
O limite da força das forças
O limite da ausência de posse
E dos corredores sombrios
Vingar a tua sorte
Seria como galgar a tua pena de morte.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Composição: Nelson Cavaquinho e Irani Barros

Sempre só
Eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
Mas não consigo achar ninguém

Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de Mim
Tô chegando ao fim

A luz negra de um destino Cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde eu tô representando o Papel
Do palhaço do amor

Sempre só
E a vida vai seguindo... vai Seguindo assim
Não tenho quem tem dó de Mim
Tô chegando ao fim

A luz negra de um destino Cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde eu tô representando o Papel
Do palhaço do amor

Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de Mim
Eu tô chegando ao fim

Eu tô chegando ao fim
Eu tô chegando ao fim
Eu tô chegando ao fim

Final

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Insensatez

Sorriso branco
Sorriso fraco
Feito de plástico
E milhas de aço.
Pensa que tem
Acredita
Saboreia
Ser mais um alguém
Sem pertencer às trevas
Sem pertencer ao além.