O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cláusula


















O homem magro reflete sobre sua existência
Descortina um conjunto desigualado
O mesmo homem pondera sobre seu mundo
Percebe-o sujo, fétido, imundo.

Põe-se a pensar sobre sua vida
Constata que nada o espera
Também nada ele anseia
Em ninguém mais confia.

Pede licença para informar:

- Senhoras e senhores desse lugar
Sinto mas, chegou a hora, de me pronunciar
Não há saída
Não dá para remediar
Todas as portas estão trancadas
Como disse, não há saída
Não espero mais
Fugir desse estar
Assim, haverei de me sustentar
No tempo que se prolonga
No tempo que se prolongará
Minhas acanhadas e volumosas
Formas e formas de azar.

Enxerto











Pelas lânguidas mãos minhas
Vazava o resto dos meus dias
Enquanto podia ser alguém
Tornei-me um vaso de cristal.

Vaso preso ao passado
Vaso preso aos sentidos
Vaso preso aos pensamentos
Vaso contido nos sentimentos.

Perdi-me.

Bel prazer


















Primo pelo bel prazer
Nele faço tudo acontecer
Seja dia, seja noite e
Encaro com brilho o entardecer.

Primo pelo bel prazer
Nele percorro meu corpo são e
Encontro no meu peito
A batida suave do meu coração.

Primo pelo bel prazer.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Rapaz


















Ternura
Amargura
Feio
Feiúra.

Doce
Encanto
Acalanto
Danou-se.

Cruel
Sagaz
Viril
Esse rapaz.

Pobre
Penúria
Suado
Ele jura.

Grato
Gratidão
Farto
Fartura.

Sorte
Condição
Composto
Composição

De não.

Socorro


















Preciso de alguém que me diga
Qual porta devo abrir
Encontro-me perdida
Penosamente ainda consigo resistir
Mas não consigo distinguir
Qual é a melhor opção
E sigo rejeitando
Os pedidos do meu coração.

Véu negro


















Começo com a verdade
Quem quiser que acredite
Mostro aqui para todos
Os que fingem saciar
A fome dos que estão
Na verdade a matar.

Na avenida da perdição
Os fracos vão atrás de comida
Sabem que pouco encontrarão
E que por pouco tempo
A fome fartarão.

Simples constatação
Vidas e vidas de perdição
Retratando a fraude de norte a sul
Fazem-se presente e fantasiam
Que alimentarão
Aqueles que estão
Encarcerados na prisão.

E continuam a provocar
Enorme maestrias
Na rotina diária da grande massa
Na vida de todos os pobres que passam.

Desejo que morram todos sufocados
Desejo que morram esses desavergonhados
Feitos de podridão
Enganosos avessados
Pela grande maioria
Que aqui estão
Humildemente retratados.

Que morram esses abastados
Que humilham a população
Que morram esses desorientados
Que ostentam na injustiça
Um abastado coração.

Que morra essa grande devassidão.
Estou farta de mim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fastio


















Levanta-te rápido menina
Não vês que o dia esta a clarear?
Vamos anda logo com isso
Inicia teu ritual habitual
E farta-te de pó.

Quem sabe quando a noite chegar
Poderá ela te fazer enxergar
Onde metida estás.

Levanta-te!
Segue teu fastio diário
Mas não reclama
Do pó branco
Suave e frio
Que te acalanta
Dias e noites a fio.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Final

A quentura da fogueira aquece minha face
Valho-me dela para secar minhas constantes lágrimas
Valho-me dela para aquecer minhas mãos frias
Assim, quem sabe, possa eu um dia
Reclamar o olvidado perdão.

Isso é o que me resta.

Asno

...E um dia, a pequena grande senhora daquele vilarejo, perdido ao longo das rodovias, olhou para o homem de sua vida e pensou: "Deus meu, ele era tão inteligente e agora, assim, da noite para o dia, transformou-se num asno".

Ana Luíza, a Princesa


















Num morro elevado
Vive uma moça nobre
De nome sofisticado
Atende por Ana Luíza.

Tem poucos anos
É linda como uma pétala
Como menina inicia
Como mulher se transforma.

Ana Luíza, Princesa
Com tua inocência transforma o jogo da vida
Converte-o em momentos de alegria e pureza.

Menina Princesa que reluz
Conspurca esse esgoto
Num mundo de luz.

Transforma Princesa
Esse piso empoeirado
Num mundo menos desencantado.

És forte menina
És sábia mulher
E na tua pureza
Reina tua riqueza.

Agora de ti me despeço
Tens ciência do meu bem querer
Que por você
Vai além e supera
Qualquer entender.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tentativa







Tenha mais medo de você. O outro é incapaz de fazer o mal que você pode fazer a si próprio.

Persecução





Ato
De fato
Boato
Sem salto
Erguida
No asfalto
Persecução
Vai além
De um não.
Enquanto você pensa no futuro o hoje escorre pelos teus dedos. Assim você não tem hoje e nem terá amanhã. O hoje é o passado assombrado. O futuro é uma ilusão propagada para nos fazer sentir que somos alguém quando não somos nada.







Meu maior medo sou eu.

Em verdade vos digo:




Alguém precisa me deter senão eu me afogo na minha própria ignorância.
Alguém precisa me deter senão eu me destruo na minha mais pura lucidez.

by Machado de Assis

"As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos.
Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo... Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados... Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore."

Medo

Medo de ti
Medo de mim
Não sei se não
Não sei se sim.

domingo, 25 de outubro de 2009

Vão





Vazio advindo
Do tempo sumido
Aquele que se foi
E não volta mais
Lembre-se de no final
Não olhar para trás.

Solidão











A solidão apazigua
As pessoas que a desconhecem
Mas também atormenta
Os que nela se estabelecem.

A solidão respira fundo
Escondendo-se oportunamente
Em nossos miúdos mundos.

Falsidade
Todos a conhecem
Falsidade
Todos nela se entristecem.

Admitas!

Recordação


















Prisão
E preguiça
Morta
E quase mortiça.

Através da porta de ferro
Ela adentrou o inferno
Esse foi o seu erro
Recordar o seio materno.

Não ouço os sinos das igrejas

Francisco













Por anos e anos Francisco sucumbiu
Por anos e anos Francisco vergou-se
Anos a fio a desalentar-se
Deixando a fraqueza do mundo lhe dominar.

Francisco sujeitou-se às madrugadas
Delatou-se à escuridão das noites
Ele determinou esse castigo
Por ter permitido, descomedidamente,
Aludir sua vida
À invasão alheia e indecente.

Francisco prepara-se para reparar
Tudo o que deixou passar
Finalmente Francisco já se permite
Alguns momentos de alegria
E começa a espalhar
Sua porção de semente.

Francisco acolheu alguns convites
Nos instantes de contentamento
Despediu-se, por fim, da lenta enganação
E festeja sua vida vivendo em ascensão.

Francisco reina em sua pouca soberania
Enquanto isso celebra com uma canção
Aliviando do pesado passado
Seu iludido e cansado coração.

Francisco vá viver.
Francisco seja feliz
Lembre-se somente:
De quando anoitecer
Agradecer por você ser você.

Cálamo





Pena pequena
Pena enfeitada
Pena maldita
Pena amaldiçoada.

Caminha sozinha
Na contra mão
Porém, felizmente
Dá de cara com o chão.

sábado, 24 de outubro de 2009

Pesar



















Quase não me sinto mais humana
Sou como um poço raso
E reconheço
Dentro de mim nada restou.

O vazio tornou-se meu abrigo
A devassidão agora é minha guia
E carrega-me com sua mão fria.

Rio de mim
Sozinha
Vou levando
Minha vida
Descrente
Longínqua
E, como sempre,
Vazia.

Nós nos amamos


















Nós nos amamos
Sem saber bem por que
Ele tem um jeito falante
E eu uma forma calada de acontecer.

Mesmo assim nós nos amamos
O elo do nosso amor atingiu o ar
O sabor do bem querer faz-nos amar e mais amar
Nosso amor tem seu jeito próprio de ir além
Transpirar.

Quem repara demonstra estranheza
Descocados não entendem
São pequenos
Escabrosos
Erguidos estão
No topo da intensa pobreza.

Nós nos amamos
Sem saber bem por que
Mas, o nosso amor
Faz o amar,
Aquecidamente, se estabelecer.

Nós nos amamos
Por fim, começamos a entender
Um reconhece no outro
Sua face
Seu decoro
Seu ser.

Nós nos amamos.

Sumiço




Saia agora
Por aquela porta
Nunca mais
Volte aqui
Somente assim
Serei eu
Novamente em mim.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Súplica


















Hoje visitei um santuário
Alojado bem no meio da multidão
Pude constatar as inúmeras aberrações
A sufocar tantos corações.

Pergunto-me:
- Porque o sofrimento se aloja
No coração dos pobres e esquecidos?

Não tenho respostas
Não tento forjá-las
Rogo apenas
Para que os desfavorecidos
Não sofram em demasia.

Vigília




Enquanto as pessoas dormem eu, contrariamente, mantenho-me alerta.
Passo as madrugadas fazendo aquilo que me dá a vida: Arquitetando palavras.
Assim, satisfaço minha insônia.

Suplicação


















Repara nas minhas mãos
Sempre frias
A denunciarem
Os danos que me amortecem
Todos os dias.

Repara na minha solidão
Constatarás, assim, minha inaptidão
De não saber viver
Cercada pela grande multidão.

Sou crua
Sou pouco afável
Aos poucos vou morrendo
Com a falta que experimento
De afeição e amor.

Repara na minha solidão
Preciso de uma mão
Careço de amor
Oferta-me
Alivia, assim, a minha dor.

Repara em mim
Nos meus movimentos
Vês?
Não alento.

Com isso sofro
A dor dos que foram
De lado deixados
E, penosamente, vivem perturbados.

Repara nos meus olhos
A anunciarem minha melancolia
Repara:
Meu olhar denuncia
Quem eu sou
O que eu fui
E essa sobra tardia.

Repara na minha vida
Sabias que fui predestinada
A uma longa e isolada jornada?

Repara nas minhas tardes
Tão tristes
Tão vazias
Elas todas
Minhas crias.

Repara na solidão
Que enfrento sozinha
Abraçada a um não
Ofertado por mim
Ao meu acanhado coração.

Repara:
Não reconheço
Para mim todos os dias
São feitos de imperfeições.

Repara:
Disso favoreço-me
Da mesma dor
Da maioria dos mortais.

Porém, sejamos francos
Intimamente sabemos
Que somos todos iguais
Miseráveis e, em demasia, banais.

Sempre escondidos
Atrás d'uma pretensiosa máscara
Fingindo que somos
Humanos normais.

Hoje o Sol me disse não


















Hoje o supremo Sol, lustroso e influente, olhou-me e preceituou:

- Não!
Hoje tu não sairás de casa
Hoje tu não comerás
Hoje os dentes tu não escovarás
Hoje tua roupa não haverás de trocar
Dispensarás a água
Eximir-te-á da fala
Escusar-te-á da tua forma de expressão.

Nesse momento entrei em discussão com todos aqueles ‘nãos’.

Alagada pela coragem, consistente proferi:
- Não senhor Sol.
Rejeito um dos teus ‘nãos’.
Não permitirei senhor Sol
Que me impeças de escrever
Tu não haverás de me privar
Do meu afligido ar
Meus sentimentos, senhor Sol
Tu não haverás de ocultar.

Sabes que admiro tua luz soberana
Sabes que admiro teu calor vigoroso
Sabes que admiro teu poder de alumiar
E sabes que admiro tua sabedoria
Em ‘os humores’ clarear.

- Mas, agora, interdito-o com o meu não!
Vedo-te de me proibir
Do reduzido pouco
Que edifica minha existência.

Vedo-te de me proibir
Daquilo para o qual
Arteiramente sei que nasci.

Assim, enuncio:
Não para você também senhor Sol.
Aqui haverei de continuar
Com minhas palavras
Perquirindo nas entrelinhas
Meu habituado respirar.

Não senhor Sol. Passar bem!

Invisível














Não aparecerei mais
Nessa luz sombreada
Sei que sou acre e fria
Sei também que tu sabes
Que minha mente
Tornou-se meu intenso guia.

Escondo-me agora para sempre
Jogo fora o que tu tanto querias
Lanço longe, lanço forte
Minha deteriorada semente.

Invisível sou
Invisível estou
Invisível serei
Invisível sei que morrerei.

Fina


















A jovem moça já não agüenta mais
Drogar-se para ao mundo sobreviver
Mesmo assim ela insiste
E segue dia após dia
Anestesiando-se.

Mesmo ciente
De que seu pequeno corpo
Não suporta mais.

Mesmo ciente
De que pouco a pouco
Ela dará cabo
De seu miolo de paz.

É noite
Escureceu
Não agüenta mais
Mas caminha
Corre
Vai atrás.

Fim


















Seu corpo tonteia impetuosamente
Algo semelhante a saltar de pára-quedas
Pela primeira vez encontra-se sem guia
E inicia o ritual de preparação
Para a sua esperada morte.

Sabe que na queda sofrerá
Fortemente todos os cortes
Mas, está pronta para sentir
A dor da carne nela sobrevir.

Desatais


















Decida-se homem:
Ou tu pegas ou tu largas;
Ou tu vives ou tu morres de vez
Mas, por favor, decida-se homem.

Saia de cima desse muro escuro
Dê um parecer
Um pouco antes do anoitecer
Vamos: Faça-se entender.

Decida-se homem.

Colisão

















Meu amor me encontrou
Sozinha e, como sempre, desamparada
Logo, com um sorriso me afagou
E desde então não mais me deixou.

Não permitirei
Que meu amor se vá
Encontrei nele meu abrigo
Minha solidão de frente ele atacou
Finalmente, a praga, meu amor, findou.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

by Clarice Lispector

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Embuste


















- Sou eu o réu do teu julgamento.

Somos cientes de que se equivocaram
Quando elegeram a ti julgar
Afirmo isso por saber
O que na minha vida sucedeu
Quando me perdi sem conhecer
O que deveria ser certo ou errado
Enquanto que pelas minhas mãos
Vazava o resto do meu eu solidificado.

- Sou eu o réu do teu julgamento

Pequei, pequei
Deslizei pelos meus pensamentos infiéis
Na tua face bati
Com minhas mãos inundadas de anéis.

Enquanto te fitava de modo torto
Descobria o sabor de morrer de desgosto
Sabe por quê?
Por desconhecer os meus limites
Por não reconhecer os meus medos tolos
Sem saber como reclamar teu perdão
Sem saber como suplicar teu socorro.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Outrora meus desejos romperam tua figura
E enquanto tudo se transformava
Eu ainda a navegar pelas ruas escuras
Enfastiada em minha própria mistura
Eu mais uma vez perdida no meio do dia
Vagando por entre palavras sujas e vazias.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Exaurida e exausta sigo insignificante
Caminho pelas ruas
Atravesso avenidas
Adentro madrugadas
Mas sempre, ora, sempre de mim tão cansada.

- Sou eu o réu do teu julgamento.

Meu olhar ainda se encontra intimidado
Esse findará minha tortura
Cortando-me em pedaços miúdos
Então, brava, dispenso o mundo ao qual me doei
E, brava, reconheço no que me transformei.

- Sou eu o réu no teu julgamento.

Sou eu o réu num momento exaustivo
Sou eu o réu sem saber como te pedir asilo
Sou eu correndo para brigar
Outra vez comigo.

- Sou eu o réu do teu julgamento

Na penumbra da noite vazia
Elegeram equivocadamente a ti homem
A sentença a ser dada
Há que se fazer parar agora
E acabar logo com esse engano
Então, imploro alto para mim o julgamento.

E oro
Oro para que tu tenhas a devida paz
Oro para que tu possas adormecer tranqüilo
Oro para que tuas noites sejam preenchidas pelos sonhos
Oro para que sob a luz possas dignamente viver.

Por fim caminho contra o tapume
Enquanto entôo meu último som:
- Sou eu o réu desse julgamento
Serei eu a pagar por esse tormento.

- Sou eu o réu desse julgamento.

Enfim, admitiram
Deram-me a sentença
Aos meus ouvidos
Soou feito doença
Morro agora
Inundada pela descrença.

- Sou eu o réu desse julgamento.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pena de morte

Vingar a tua sorte
Seria como transpor alguns limites
O limite das forças
O limite da força das forças
O limite da ausência de posse
E dos corredores sombrios
Vingar a tua sorte
Seria como galgar a tua pena de morte.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Composição: Nelson Cavaquinho e Irani Barros

Sempre só
Eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
Mas não consigo achar ninguém

Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de Mim
Tô chegando ao fim

A luz negra de um destino Cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde eu tô representando o Papel
Do palhaço do amor

Sempre só
E a vida vai seguindo... vai Seguindo assim
Não tenho quem tem dó de Mim
Tô chegando ao fim

A luz negra de um destino Cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde eu tô representando o Papel
Do palhaço do amor

Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de Mim
Eu tô chegando ao fim

Eu tô chegando ao fim
Eu tô chegando ao fim
Eu tô chegando ao fim

Final

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Insensatez

Sorriso branco
Sorriso fraco
Feito de plástico
E milhas de aço.
Pensa que tem
Acredita
Saboreia
Ser mais um alguém
Sem pertencer às trevas
Sem pertencer ao além.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Estupidez

Remexeu
Vasculhou
Optou
Nada encontrou.
Burra.



Penso na caricatura na qual me transformei.
Sou uma espécie de espelho ao avesso
Espelho esse apegado a nada.
Um nada profundo e distante de mim.

domingo, 27 de setembro de 2009

Alquimia do amor by Charles Baudelaire

Um te ilumina com ardor,
O outro te enluta, Natura!
O que diz a um: Sepultura!
Ao outro diz: Vida e esplendor!

Hermes que oculto me conquistas
E para sempre me intimidas,
Tu me fazes igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas;

Por ti do ouro o ferro improviso
E torno inferno o paraíso;
Roubando às nuvens seu sudário,

Um corpo querido amortalho,
E às margens do celeste estuário
Grandes sarcófagos entalho.
Amor não existe
Nesse mundo cão
Feito de pedra
Coberto de sabão.
Chapada
Enlouquecida
Mestre
Nem da sua vida.




Ostenta um caminho
Ostenta propriedade
Ostenta seu destino
Rico em saudade.

sábado, 19 de setembro de 2009

Hora Grave by Rilke

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

a b c






Palavras destiladas
Palavras vazias
Palavras soltas
Nuas, cruéis e frias.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Até

Doce mentira


Fincastes em meu coração
Um punhal aceso
Da cor do ouro, dourado
Com ele formastes
Nosso vínculo sagrado.

O que é isso?

Bule de água
Bule de café
Bule de chá
E o mundo remando contra a maré.

Desafio

Há prestígio
Começou o horror
Também a vingança se apresentou.

Vazio destilado
Pequeno, não doado
Infeliz entristecer.

Segue, avante
Um dia esquece
Um dia há de esquecer.

Merda

Há um copo
Há mais uma taça
Há outro garoto
Perdido na praça.

Cansaço bom

Felicidade de fato é boato
Assim como o amor
Um abrigando o outro
Enquanto lastimam o rancor.

Erro

Erro
Errado
Errante
Comigo
Contigo
Berra
O berrante.

Mundo esgotado

Mundo esgotado
Com um deus protetor
Nas ruas as crianças
Soltas, famintas, largadas
Sem luz
E sedentas de amor.

Oi

Menino

Menino grande
Garoto pequeno
Menino homem
Garoto que vem
Garoto que some.
Chegou a hora
De dizer adeus
Tu ficas com tuas convicções
Que eu vou ao encontro das minhas solidões.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sorry III





Sinto muito
Não consigo elaborar
O que sinto por ti é medíocre
Deixa-me em meu devido lugar.

Moça bonita


















A moça é nova
A moça é bonita
De cachaça se embriaga
E segue pelas calçadas
Ternamente acalantada
Pelo prazer de ser
O que seu desejo a fez querer.

A moça reconhece que não é
A mais cobiçada da platéia
Não liga, pisa firme e continua
Acalantada pelo ópio e aturdida.

Esperta, reprime as pedras duras
Enquanto murmura às escuras
- Sou eu, sou eu, sou eu.

É noite

















É noite. O dia já se foi. Penso numa procura.
Não sei bem do que se trata
E através da minha imaginação
Vou em busca de algo que me faça
Derreter o aço que se apossou do meu coração.

Sei que a tentativa poderá ser em vão
Afinal com correntes grossas travei meus sentimentos
Não sinto mais amor
Não sinto mais bem querer
Não tenho desejos
Não tenho sonhos
Vivo sozinha da minha pequena assombração.

É noite
Vou correndo para não me atrasar
Mesmo assim chego depois do início
Fico num canto a observar
Os doentes no precipício
Rogando não sei bem o que
Como se dessa forma
Alguém fosse lhes querer.

É noite
Não me peçam para ficar
Saio agora
Adeus.

Desencantamento


















Entraram afoitamente e esquadrinharam sua casa
A moça não gostou ficou brava
Tiraram tudo do lugar
Onde outrora a moça colocara.

A moça ficou irancuda
A moça espezinhou
Com o que executaram
Com a dor que os cegos lhe causaram.

Vasculharam sua casa
A procura de um pouco de amor
Após examinarem tudo
Nada encontraram.

Olharam as paredes
Sentiram tristeza e dó
A moça novamente ficou brava
Não quer piedade nem pena
Quer apenas viver
De sua íntima e famosa cena.

- Sua vida de faz de conta - .

Veia

Ainda saboreio o encanto no teu olhar, mesmo que irreal e distante.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Medo

Os amantes


















Os amantes caminham pelos parques
De tão enamorados seus corpos balançam
São os movimentos do amor.

Os amantes mantêm-se acordados
Varam noites, escorregam nos dias
Mas não perdem tempo em desfrutar do amor.

Os amantes estão cegos
Não percebem que tudo não passa de ilusão
E que no final cada um seguirá seu caminho da solidão.

Adeus








A suplicação é tua e o fado é meu
Encontramos um ao outro e fomos felizes
Até que tudo se perdeu.

Saibas agora meu rapaz
Que não permitirei mais que me ofendas como fazias
Saibas agora meu rapaz que não permitirei mais que humilhes como fazias.

Nossos caminhos são diferentes
O meu reluz água límpida
Porque sou ingênua e demasiadamente crente
Porém, em ti não creio mais.

O teu reluz inadequação
Do teu peito não jorra
Sequer uma canção.

Vai-te embora
Farei o mesmo
Saia do meu caminho
Sairei to teu
Temos permissão agora
De errarmos sozinhos e separados.

Um pouco mais infelizes haveremos de ser
Você com tuas idéias brilhantes
E eu com meu jeito de ex-falante.
Também com minhas fraquezas
E meu jeito simples de acontecer.

Infelizes haveremos de ser
Cada um com seu caminho deteriorado
Nada e nada deixado de lado
Nada e nada não mais perdoado.

Seguiremos com nossos corações rancorosos
Temos uma vida pela frente
Se quisermos vivê-la
Haveremos de ser totalmente diferentes.
É um jogo de faz de conta: A gente faz de conta que ama e que acredita que é amado. Assim fazemos de conta que somos felizes. Somos mesmo é um bando de mentirosos.
Pequei. Amei um amor que não devia. Por isso sou castigada, diariamente, pela crueldade divina.
Parabéns pela tua covardia em não dares sequer um bom dia àquele (a) que passa ao teu lado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Gill Benicio e as Palavras

Sempre gostei das palavras. Não me recordo muito bem quando comecei a carregar o Aurélio na bolsa. Sei que faz um bom tempo. Hoje ele está guardado numa mesa no meu quarto porque o dicionário virtual chegou, mas não me desfaço do meu primeiro Aurélio.
Lembro bem que tinha receio de que alguém me perguntasse algo, como o sinônimo ou significado de uma palavra, e eu não soubesse responder. Ficava doida só em pensar. Quando isso ocorria recorria ao livrinho, claro. Portanto, ele sempre esteve ao meu alcance.
Mas, também lembro-me de apreciar as palavras.
Ou no livreto ou no pensamento elegia a palavra mais bonita, a mais feia, a mais estranha, a mais difícil, a mais forte, a mais apropriada – são poucos os que sabem apropriá-las adequadamente. (Desculpe, mas é a mais simples e pura verdade. Eu e você sabemos disso).
Meu pensamento ficava viajando nas letras, sílabas, no ritmo, na sonoridade, e nas rimas. Nossa, eu já pensava em rimas não sei desde quando. E música então. Consumia as letras – ainda consumo - Nunca deixei escapar uma frase sem eu entender, nem que para isso tivesse que voltar o vinil cem vezes até ter toda a letra no papel.


Comecei a escrever na adolescência sem nenhuma pretensão. Passei minha vida adulta distante do mundo das letras. Reencontrei-me nas linhas aos quarenta e poucos anos de idade. Reencontrei-me pura, sábia, simples, profunda, mágica nas rimas e, principalmente, verdadeira.


Não omito um pensamento nem guardo para mim o que quer que seja. Coisas que passam pela minha cabeça, páram no meu coração e voltam à minha cabeça, sem dividir com as pessoas.


Quanto às pessoas lerem ou não é outra história. Sei que dividi meus escritos de forma equivocada. Não o fiz de forma certeira. Meu público ainda é muito pequeno. Espero ampliá-lo. Desejo mesmo. Não me sinto prepotente admitindo que posso ser lida e admirada por muitos e, claro, também ignorada por outros tantos, afinal esse poder, abençoadamente, a liberdade nos propicia.


Te aguardo não sei quando, não sei aonde. Mas sei que nos reencontraremos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

By Jean-Paul Sartre

"O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate."

by Graciliano Ramos

"Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas
com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos
estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei,
ainda nos podemos mexer".

Os amantes by Julio Cortázar Tradução de José Jeronymo Rivera

Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.

Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
Uma vez mais antes de haurir o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então, quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos.

Enlouquecer ou esse homem esquecer















Intenta, articula, inventa
Uma forma, um jeito, uma possibilidade
Procura um meio, um caminho, uma maneira
De rapidamente satisfazer sua vontade.

Arrancar da mísera mente
O amor que por esse homem
Na pele e nos pelos sente.

Vê na loucura o princípio, sua semente.
Pensa em sair correndo
E depara-se com a presa, a corrente.

Não encara mais o que sente
É triste, sozinha e carente
Submeteu-se a grandes desaforos
Agora procura outro lugar, outra hora
Talvez, assim, possa apagar da memória
A simples e estranha história.

Desejo
















Despertou pensando nele
No bem que ele lhe propicia
No resguardo que ele lhe oferece
E na cama em que ele a sacia.

Recordou dos movimentos intensos
Ocorreu-lhe o frenesi embriagado
A barriga suada, os músculos cansados
O bem querer de um a amar o outro
Dois amados.