O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Poço




Afundei-me.
Calmamente elaborei
O meu póprio náufrago.
Pobre de mim,
Enternecida pelo ópio
Afundei-me,
Afundei-me sim.

Para sofrer um pouco mais










Vou a missa mesmo sem ter fé
Brinco na igreja
Pertubada, não quero mais sair desse lugar.
Teimosa, finco meus pés
Teimosa, ajoelho-me perante uma imagem
E gargalho até perder o ar.
Chegou a hora,
Não deixarei passar
Esperei tanto
Pela hora de me matar.

Para aliviar a minha dor





Penso no estrago ao qual me entrego diariamente
Antecipo, assim, o meu final.
Firmo-o na minha insana mente
Louca proclamo
Ergo bandeiras
Louca, ainda reclamo.

sábado, 23 de maio de 2009

Sangra coração


Sangra coração
Sangra seriamente
Nem percebe, tolo
Que não se faz razão.

Aperta esse peito
Tenta enlaçar
Força calmamente e direito
Mas não consegue sufocar.

Sangra coração
Sangra.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Moinho
















Tornou-se um moinho
De canto arredado
Refendido, supliciado.

Tornou-se um moinho
Máquina de triturar
Paixões árdegas a destroçar
Amores e amantes a desarranjar.

Tornou-se um moinho
Da mãe expatriado
Do caminho do amor desviado.

Tornou-se um moinho
Infausto a saborear
Seu castigo
Seu castigar.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Minha parede vermelha
















Ela me fita. Maldita. Soberana.
Faz-me sentir menor do que me reconheço
Pareço grande, mas sou pequena
Ela gosta e acaba por me tornar
Um pedaço da minha crença- maldita doença.

Apropriada passeia pelos meus pensamentos
Almeja minha alma, esse tormento
Talvez eu entregue o que ela quer
Sou humana, sou minúscula, sou mulher.

Com coragem e arrepiada
Fito-a por alguns instantes
Tenho medo, viro-me
Ela é grande, pra mim gigante.

Dou partida, vou de primeira
Lenta, faço de conta que vou embora
Mas continuo ali parada
E ela a me olhar tão desencantada.

Bem sei por que de mim se apropriou
Do que já fui, do que ainda sou
Maldita minha parede vermelha
Virei sua presa, sou seu horror.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Círculo Vicioso by Machado de Assis

















Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:


"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:


"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:


Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Tirania
















Espelho-me nessa hora
Àquilo que realmente sou
Fiz de mim um lixo vão
Alerto: - Creia nisso tudo não.

Sou hipócrita, sou mesquinha
E esmago na palma da minha mão
A tua vulgar soberania.

Bem sei que aquilo que me fascina
Ridiculariza mulheres e meninas
Continuo...

E com meu salto oito
Piso na tua face clara
E embaço de novo tua cara.

Meu Ser Evaporei na Lida Insana by Bocage

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumio dos desenganos.

Deos, oh Deos!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe num momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Chibatada






Mundo de aço
Onde falta espaço
Para aqueles
Que ao meio dia
Não sentam
Não comem
Alimentam-se friamente
Somente de fome.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Mãos Dadas by Carlos Drummond de Andrade
















Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Entidade


















Dia a dia a futilidade
De sermos nós a humanidade
Alvitram minha memória:
- Alma não existe!

Se algum dia existiu
Fugiu desesperançada
Ao deparar com a miséria
Pelo mundo alagada.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Pesar



O pesar do sentimento
O sentido do pensar
O pensar no acontecimento
A máscara - mais importante -
Disfaçar.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Estranho







Reduto do desconhecido
Estranhamento do pobre nascido
A luz brilha serena
Na cabeça da ainda pequena

Enquanto desliza a língua
Pelas pernas da menina
Avista na boca da esquina
A única que sua fraqueza anima

Apressa-se ao encontro da cobiçada
Segue rápido sem parar
Cantarola na passarela
Seus passos e o regresso dela

Bem próximo pára esfacelado
Não há forças para seguir
Estremece no cimento puro
Um suspiro a sucumbir.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

by Bob Marley

"Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação.
Porque sua consciência é o que você é e sua reputação é o que os outros pensam sobre você. E o que os outros pensam é problema deles!!!"

Acrescer






Ao conhecer sua sentença agastada
O homem pequeno sequer ponderou
Veloz, fugiu há alguns dias
- Fuga da vez, fuga tardia -
Da penitenciária tacanha e fria.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Amanhã


















Por décadas e décadas me sustentei na solidão
De pensar no outro dia - nem sei se viria -
Enquanto isso entre meus dedos
O lânguido hoje escorria.

Nas fraudes dessas horas
Sobrepus minha história
Ensaiei o embuste do futuro
Sem direito a qualquer glória.

- Amanhã, amanhã
Porque te apresentas no dia atual?
Torturas cada instante meu
Fruindo o medo e a amargura
Daquilo que não aconteceu.

- Amanhã, amanhã
Porque me fazes tanto mal?
Tua sobrevivência somente se dá
À custa de me incomodar.

- Vai-te embora amanhã
O hoje não te pertence
Quero a chance de viver
Meus instantes únicos e presentes.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cartas a Um Jovem Poeta - Rainer Maria Rilke

"Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade..."

- Primeira Carta
- Fonte Cartas a um jovem poeta tradução de Paulo Rónai - Ed. Globo - 10a. edição

domingo, 28 de dezembro de 2008

Prece: Quando eu morrer

















Quando eu morrer não quero ninguém chorando ao meu lado
Já não existo, lembrem-se, sou passado.
Quando eu morrer distribuam meus pedaços àqueles precisados
Depois aqueçam o que sobrar e arremessem em qualquer lugar.
Quando eu morrer não permito que ninguém
Vá mês a mês chorar num canto que nunca desejei.
Quando eu morrer me esqueçam, de passado não viverei.
Quando eu morrer, por favor, dêem-me paz
Ao morrer, lembrem-se, não quero nada mais.
Esqueçam o que fiz
Esqueçam o que ouviram ou o que preguei
E olvidem o pouco que rezei.
Festejem, por fim, o otário da vez
Festejem meu último suspiro
Festejem minha palidez.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

sábado, 13 de dezembro de 2008

Solidão,
A gente pensa que não sente
Enganamo-nos, tudo bem,
Mentimos pra gente
Entupindo de ar infamado
Nossas perniciosas mentes.

Mesmo assim, seguimos em frente
Rumamos rebeldes e insistentes
Para, por fim, descobrirmos, miseravelmente,
Que solidão é um desejo vasto e permanente.

sábado, 22 de novembro de 2008

Dó



A auto-piedade aniquila
As mãos e os braços da gente
Quando vem
Soa brava
Soa maligna
Também eloqüente.
Acaba por envenenar todo o ser
Enfraquecendo nossos corações e
Arruinando, impetuosa, as nossas mentes.

domingo, 12 de outubro de 2008

by ^gill b.








Fiquemos atentos
A vaidade e a hipocrisia
Permeiam nossas vidas
Assim como recheiam
Nossos infindos dias.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Trecho de "Loucos e Santos" by Oscar Wilde



"Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril".

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Inveja












Ouvi dizer que a inveja dói.

Que propicia ao (a) invejado (a) um sabor de desespero, como se ele (a) fosse inadequado (a), inoportuno (a), enfim, O (A) estranho (a).

Ouvi também que a inveja mata. Fiquei pensando: Cá entre nós, acredito que quem morre mesmo é o filho (a) da puta invejoso (a). Morre afogado (a) na sua incompetência. Foda-se ele (a).

Lucidez

A lucidez dói.
A lucidez castiga.
A lucidez maltrata.

Sorte que não sou lúcida...

Merda!
Finjo que não sou.
Na verdade vivo num palco assombrado.

Cria


Se eu tivesse sido mais esperta e escapado a tempo, teria sido poupada de carregar comigo tanto amor...Esse amor que aperta o coração. Esse amor que somente as mães conhecem.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

By Arthur Rimbaud


Elle est retrouvée!
Quoi? L' éternité.
C est la mar mêlée
Au soleil

Mon âme éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.

Donc tu te dégages
Des humains suffrages,
Des communs élans!
Tu voles selon...

— Jamais l' ésperance.
Pas d' oríetur.
Science et patience,
Le suplice est sur.

Plus de lendemain,
Braises de satin,
Votre ardeur
C' ést le devoir.

Elle est retrouvée!
— Quoi? — L' éternité.
C' est la mer mêlée
Au soleil.


Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Suplício" dedico ao amigo Karllos Hair


















Tenho medo,
Medo do medo,
Nem sei mais distinguir,
Sei não.

Abatida dou conta:
Transformei-me,
Sou outra – ulterior -
Fiz de mim uma prisão.

Exausta amigo, sussurro:
- Perdi. Não o venço mais não.
Seja pelo tempo,
Sequer pela exaustão.

Enfarada parelho, imploro:
- Vem e abraça meu coração.
Insto também:
- Refreia as minhas mãos.

Dessa forma querido, confidencio:
- O medo se esvai e
Liberto-me de vez
Dessa praga eficaz.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

By Jean-Paul Sartre

"O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate."

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Amar ou Amor


Amar ou amor serão para ti
Quem sabe, talvez, também para mim
Qualquer coisa assim:
Um tanto,
Um bocado,
Uma porção.
Nosso passadio, enfim...

sábado, 20 de setembro de 2008

Elegia by Drummond




"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais. Sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.

À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.

Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva.

Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan."

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Escureça os olhos












Escureça os olhos
Não me avistes mais
Tu me assolas
Pelas ocorrências que me traz.

Escureça os olhos
Não me avistes mais
A mim não fazes jus
Desdenha-me,
És abusivo por demais.

Sequer aguarde qualquer pouco
Ambicione logo um outro alguém
Aparta-me de vez
Hei de resultar feliz
Quando devolveres-me à paz.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Elegância by ^gill b.



Penso que elegância para nós mulheres começa no salto alto e termina nos dizeres que saem das nossas bocas. Isso sem desconsiderar, claro, a simplicidade e a sensatez.

Já para os homens ‘donaire’ começa na cortesia e necessita obrigatoriamente estender-se e passar pelo caminho do bom humor, afinal TPM é REAL.

Pensamos que ser afável seja algo fácil, porém observo-nos no dia-a-dia negligenciando nossa própria candura. Cismo que o difícil mesmo seja manter-se garbo (a). Acredito que o princípio da elegância esteja na educação. Não há elegância deseducada. Não há elegância sem mesuras. Não há...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Tablado


















Possuo um tablado, um tablado minado
Outrora se perdeu, cabal e esgotado
De forma duvidosa e tola foi escravizado
Fiquei só a observar algumas plantas.

Plantas malditas e pequenas
Plantas paradas, mudas e caladas
Plantas que o vento movimenta
Assenta e faz murchar

Penso em gritar... Elas não ouvirão
Vacilo. Discorrer com plantas
Seria o início do meu exilo
Retrocedo afiada e falida.

Mas pondero e delibero, logo brado
Em grave e tom bem aguçado:
- Plantas empacadas despontem daqui!
Plantas empacadas despontem daqui!
Voem rápidas auxiliadas pelo ar
Laqueiem suas caras
Suas caras de azar.
Devolvam meu palco
Tarde ele regressará
Não importa, aqui estará
Em seu legítimo lugar.
Plantas, depressa, tenho que passear.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

domingo, 10 de agosto de 2008

by Nietzsche

" Uma convicção é a crença de estar, num ponto qualquer do conhecimento de posse da verdade absoluta.
Essa crença supõe, portanto, que há verdades absolutas; ao mesmo tempo que foram encontrados os métodos perfeitos para chegar a isso; finalmente, que todo o homem que tem convicções aplica esses métodos perfeitos.
Essas três condições mostram logo a seguir que o homem das convicções não é um homem do pensamento científico; ele está diante de nós na idade da inocência teórica, é uma criança, qualquer que seja o seu porte.
Mas séculos inteiros viveram nessas idéias pueris que jorraram as mais poderosas fontes de energia da humanidade. Esses homens inumeráveis que se sacrificavam por suas convicções acreditavam fazê-lo pela verdade absoluta...

...Não foi a luta de opiniões que tornou a história tão violenta, mas a luta da fé nas opiniões, isto é, nas convicções.
Se no entanto, todos aqueles que faziam de sua convicção uma idéia tão grande, que lhe ofereceriam sacrifícios de toda a espécie e não poupavam a metade de sua força para procurar por qual direito se ligavam a essa convicção antes que a essa outra, por cujo caminho tinham chegado que aspecto pacífico teria tomado a história da humanidade!
Como teria sido muito maior o número de conhecimentos! Todas essas cenas cruéis que a perseguição dos herdeiros em todos os tipos oferece nos teriam sido poupadas por duas razões: em primeiro lugar, porque os inquisidores teriam dirigido antes de tudo sua inquisição para eles mesmos e com ela teriam terminado com a pretensão de defender a verdade absoluta; em segundo lugar, porque os próprios partidários de princípios tão mal fundados como são os princípios de todos os sectários e todos os “crentes no direito”, teriam cessado de compartilhá-los depois de tê-los estudado".

Choro de Menina Choro de Mulher


Menina não chora mais
Deixa de ser tola
Abraça logo a felicidade
Que o rapaz lhe traz.
Levanta tua cabeça e
Ao lado dele permaneça.
Tens o direito,
Tens o dever,
Mais: Tens a obrigação
De ser feliz e
Por você
Fazer render.

Carlos

Carlos meu curumim acanhado
Meu menino
Um lado já garoto
O outro garotinho
Na mão esquerda carrega um picolé
Na outra, puxa um balão
Carlos, criança pequena, ouve-me:
Por favor, cuida-te
É teu dever
Faz-se tua principal questão!
O pai te ignora
A mãe, tempos atrás, foi embora
Vem, depressa e atravessa a avenida
Ainda há tempo
Ainda há contramão.

Estranha

A cada tragada bem dada
Experimenta uma nota carta e
Bota na mesa sua cartada.
Se rei,
Se rainha,
Não sabe,
Talvez, erva daninha.

sábado, 9 de agosto de 2008

Desintegração



Digo adeus para não dizer que fico
Beijo teu rosto
Propositadamente evito tua face
Protejo-me da tua boca
Penso ser melhor assim
Sigo
Retiro-me pela porta dos fundos
Mantenho aberta a da frente
Tranco o portão
Mentira
Somente encosto.

Caminho até a parada
Aguardo o ônibus
Não sei qual é
Nem qual será
Após vários cruzarem o farol
Passo a observar as letras do painel
Decido por um caminho de nome mais extenso.

Assento a primeira fileira
Logo na primeira poltrona
Por sorte vazia
Assim posso ver o percurso
Olhar as folhagens
Mas não
Encosto a cabeça no vidro frio
Encaro meu reflexo
Assustada dou conta
De que não fui
Assustada dou conta de que por ti
Continuo apaixonada.

De súbito estou a teu lado
Em nossa cama
Em nosso leito sagrado
Ouço você tossir
Continuo com o braço direito sobre teu peito
Tua mão segurando a minha.

Tosses mais grave, balbucias:
- Maldito cigarro...
Rio e acendo um
Sei que queres
Ficas bravo com meu riso
Tragas e
Tosses novamente
Depois ri ao meu lado.


Mais um beijo
Outros afagos
Alguns ‘boa noite’
Adormecemos calados
Nossos corpos abençoadamente selados
Sonho com um lugar longínquo
Nunca antes por mim visitado
Estou em pé
Frente à uma padaria
Converso com uma senhora
Muito bela por sinal
Ela me acalanta
Não entendo
Por algo que me passa mal.

Despedimo-nos
Cada uma para o seu lado
É quando paro
Não entendo
Não sei aonde ir
Não sei meu endereço
Permaneço ali
Com alguns pães nas mãos
A caçar uma referência
Qualquer prescrição
Talvez uma seta
Ou uma sinalização.

Desperto
Ainda bem
Estou a teu lado e
Em nossa cama deitada
A cabeça sobre teu peito recostada
Estamos os dois
Estamos em casa.

Sinto um misto de alívio e alegria
Contemplo tua face
Admiro o semblante terno e
Gosto do mal humorado
Reparo a boca entreaberta
Reparo na respiração fragmentada.

Meus olhos percorrem os cantos
Cada parte do nosso quarto
Do nosso simples leito sagrado
Não há luxo
Nem muita beleza
Mas acolhe-nos pelas noites
Unidos em nossos risos
Agarrados as nossas tristezas.

Penso em levantar
Quem sabe fazer um café
Para quando despertares
Porém não consigo me mover
Pareço atada à cama
Nesse momento o moço me chama
Chegamos ao final
Sonolenta rebento
Não reconheço o local.

Desço
Degrau a degrau
Apanho minha mala
Meu pensamento segue esvaído
Não te esqueci
Nem esquecerei
Permaneço aqui
Aqui permanecerei.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Situação

Abate o nó,
Bota fora a corda,
Mas logo em seguida,
Ainda fraco e acanhado,
Põe-se a procurá-la...
Infelizmente, nada.
Não há como remediar
Sua ausência sancionada.
Fatigado,
Deita-se no chão escuro,
Deita-se no chão encaroçado,
E finge um mundo novo, velado.


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Falácia

Palavras tortas, sombreadas
Amarelas, amareladas
Assombros, assombradas
Tropicais,
Velejas, velejais.

Saibas:
Não me enganas mais.

És veneno de serpente,
Homem mau que transformou,
Em ódio, o que antes,
Eu apelidava puro amor.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Roland Barthes

"Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum".

terça-feira, 8 de julho de 2008

Consternação

Embirro coronhada
Fabulo melindrada
Por demais atontada
Sem meu amor pra eu amar
Sem meu amor pra me amar.

Dia após dia nas estradas
Pelas noites, só e desocupada.
Ainda lúcida primando
Arremato e
Finalizo poetizando.

Escavo alguns lugares,
Freqüento igrejas, bordéis e bares,
Reparo nos cantos,
Nos ambientes afastados,
Nas esquinas,
E, particularmente, em suas ruínas.

Revejo alguns vizinhos,
Sempre tão sós,
Tão sozinhos.

Depois da ilusão espalhada,
Num curto tempo desandada,
Laçou, laqueou
O lado certo e certeiro acertou.

Abrigou-se no meu corpo
Minha cabeça rodou e rodou
O coração solitário,
Novamente blefou,
Um terceiro ensaio circundou.

Renasci,
Acendi,
Elevei,
Luz branda, luz clara, clareei.

Uma vida a sós,
Uma vida a dois,
Uma vida a três.
Ou quem sabe
A quatro,
Cinco,
Ou seis.

Hoje ainda amargurada,
Com as costas queimando e raspadas,
E uma história para lhes contar:
Após períodos enlevada
Fui do meu caminho
Levianamente desviada.

Calei,
Permaneci calada.
Mentiras e
Mentiras conheci
Visitei-as, percorri.

Tomei café sem açúcar
Saboreei a refeição
Apontada de janta
Jantei,
Janta com pão.

Reparo agora nas paragens
Homens,
Mulheres,
Indigentes e
Crianças...
Crianças sempre carentes.
Escancaro a porta da frente,
Quem quiser, fique a vontade, entre.

Inclino-me na janela,
Contemplo o céu azul
Por alguns segundos penso
Num sim ou num não.
Resposta iluminada ou
Sagrada eu dispenso
Careço não.

Busco a torneira da pia,
E esfrego minhas mãos.
O cheiro de uva permanece
Abraçou-me,
Fortaleceu-me,
Fez-me intensa,
Garantida,
Fez-me TUA INIMIGA.

Dei pra distanciar
Você igual
A ação duplicar.

De lá pra cá
Vagas, vagueio
Meu amor, seu amor, sem amor,
Os dois apaixonados e,
Equivocadamente, envenenados.

Entupo-me de ópio
Quero o mais simplificado
Quanto a você de novo embriagado
Precisando me esquecer.
Eu uma resposta por merecer,
Ainda perguntando por quê...

- Porque eu?
- Porque esse lugar?

Nada de explicação
As questões retornam vazias
Pouco saudáveis,
Menos sadias.
Eu distante de ti,
Da tua vida.

Logo o sol partirá
Continuarei aqui nuveada
Nas minas tardes raivosas
Nas minas tardes espaçadas.

Já nas madrugadas frias,
Ou congeladas,
Ajoelho-me na beirada da cama
E não encontro aquele que me ama.

Mais uma noite sem dormir
Outra noite sem sentir
Teu corpo no meu
Como antigamente.
Repara:
Meu coração ainda mente.
Ouvi que ilusão passa
Que nada é permanente.

Rezo sem crença
Não sou mulher de fé
Sou pecadora
Remei minha maré.

Giro na cama,
Vigio o som do interfone,
Deitado ao meu lado
Um amigo ingrato
O aparelho de telefone.

A manhã chegou
Esqueça,
Esqueço,
Escape,
Eis minha oferenda.
Enquanto isso borboleteio
Sou puro rancor,
Creias que para sempre
Meu ódio conquistou.

Quem sou eu... O que sou eu...


Convenço-me:
- Uma mistura de povo e suplício
Atentando qualquer sacrifício
A esperar a hora sagrada
Onde lagrimarei envenenada.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Criado Mudo

Está desempregado
Sofre o destempero
Dos que pranteiam calados
Sem exageros.

Há dias não come
Palavras não menciona
Nesse momento está sentado
Num canto da cozinha.

O piso é de cimento puro
Logo nota o fogão:
Sujo,
Envelhecido e
Mudo.

Momento by ^gill Benício

Joana

Joana lamba as madrugadas
Não sente medo, de nada é amedrontada
Joana carrega com ela um único desejo
Vingar uma vida outrora saqueada.

Seus seios secaram causando dor
Os poros entupidos o pulmão bloqueou
Na cabeça Joana tem uma morte a dignar
Antes da hora ninguém perfilhará.

Sofre inopiosa a perda do miúdo carente
Um ente que nem sequer conheceu
Mas, por meses, dentro dela viveu.

Joana não mais chora, Joana é mãe agora.
Mesmo destratada segue o caminho da paz
Perecerá, por fim, o varão
Destituído e desabitado de coração.

Da tempestade Joana se despediu
Dos fios de cabelos arrancados
Joana fez um nó,
Joana fez um punhado.

O coração cruento assolado
Transita pequeno, transita acalentado.
Joana não pede, roga ou implora
Vagueia harmoniosa esperando a grandiosa hora.

Seus esforços serão poucos
Quase nada custarão
O próprio homem assinalou a sentença
Será a cunho, será a mão.

Suas mãos, no passado, abençoadas
Fazem dela, presentemente, uma alma desregrada
Por tempos o pai saqueador
Seu caminho alongou.

Joana prometeu,
Joana realizará
A vida apequenada tirará.

Ao avistar o mar ainda morno
Joana pensa em Maria, mãe de Jesus
Que não lagrimou o filho crucificado
Despreza-a! Seu momento faz-se mais sagrado.

No jardim de seu furacão
Impôs-se até uma condição
Não assentar nunca mais
Seu compassivo coração.

Apressa o passo a mulher
Respira ofegante, um pouco agoniada
Frente à calçada está a casa ambicionada.

Avança na direção norte
O dia clareado testemunhará
Todo seu horror adiado.

Adentra a casa rosa
Encontra a semente do mal
Lá há de enterrar
Longas formas de azar.

Por fim, clama o malfeitor
Dispara variadas vezes
Até fazer calar
O barulho ensurdecedor.

Resignada contempla o sangue no chão
Satisfeita ajeita os cabelos com as mesmas mãos
Puxa a porta e atravessa a avenida
Parte para sua jovem e lúgubre vida.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

"Embriaguem-se" by Baudelaire

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:

"É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

quinta-feira, 26 de junho de 2008










"...O melancólico é um 'habitante do imaginário'.

No imaginário o 'tempo não passa'. No imaginário vive-se em luto permanente..."

by Julia Kristeva

terça-feira, 24 de junho de 2008

Sentinela










Alimento-me de poesia,
Dela arrebato o alento.
Quando o mantimento escassear,
Desde já anuncio:

Abrasem meu corpo,
Olvidem-no de qualquer cerimonial.
Suprimam o burlesco jogral e
Respinguem até o final.

Ofereçam-me a difusa paz e
Desfiarei minha vida
Em sua largueada saída.

sábado, 21 de junho de 2008

Supressão

Pouco a pouco se alivia em movimentos sossegados,
Pondera ser inconsciente,
Sorridente bem sabe que não
Elegeu perecer a desejo planeado
Sem bênção e apagados os seus pecados.

Enquanto desfalece desfruta
A ponte suspensa conquistada
Escolheu a forma para ir embora
Ajuíza agora clemência por fora.

No seu perecimento suplica
Não padecerá preces ou complacências
Tampouco alheia estará às incumbências.

Ambiciona algum acolhimento
No minuto que antecede o final
Sua última etapa,
Sorvida pelas águas do mal.

Morrediça há algum tempo -
Não sabe precisar bem quanto -
Ah, lembrou-se: Em apoucadas doses o corpo fragmentou,
Em seguida a alma branca secou.

Feito pomba, feito nuvem
Feito semblante velado
Por gente distante
Eles, os tais mascarados.

Tragou, arrancou, risonha amou
Pena, prontamente, de novo, o soluço a encontrou
Há que se evidenciar: Desnudou-se, por completo, essa mulher
Transpôs seu aclamado e antigo pudor!

Já sente a leveza do casco desmobiliado
O ar estendê-lo-á até findar
Quanto à gêmula que aplaclara seu coração
Correu apressada,
Fez-se densa a destruição.

Desconhece o sim, não reconhece o não.

Nesse ínterim afastou o amor e as vestes arrebatou
Numa ladeira escura os calçados abandonou
Goza agora a fúria da sua única dor
Porém, capacitou-se em tirar proveito: Lágrima alguma restou.

Memoriou tempos passados
Talvez uma desconfiada salvação
Ligeira e sem tardanças abortou
Desfez-se da preocupação.

Expira plácida e plena, ressoa serena
Também pura e grandiosa a moça pequena
Embebedar-se-á noite afora
Naquele boteco remanente, de frente.

Soberba seus últimos momentos vigiará
Reivindicou dizer adeus
Ao tosco que a atravessou
Impulsiona os olhos, chega, chegou. Suspira, suspirou.

Jaz ali mais uma mulher...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Aditamento

Quiçá passado o furacão
Eu possa mais uma vez,
Em vão,
Circular tua vizinhança.

- Abafar-me em teus braços?
Inda versas assombrosas distâncias...
Olvida agora, assaz,
A audaciosa e enferma esperança!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Carlos Drummond de Andrade

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade e não considero honesto rotular de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e, até mesmo, da ação”.

A angústia - (Desalento) by Jean Paul Sartre

A responsabilidade por todo o mundo é um fardo pesado para qualquer pessoa.

A angústia existencial decorre da consciência de que são as escolhas dessa pessoa que definem o que ela é ou se tornará. E também por saber que estas escolhas podem afetar, de maneira irreparável, o próprio mundo.

A "angústia" decorre, portanto, da consciência da liberdade e do receio de usar essa liberdade de forma errada.

É muito mais fácil acreditar que existe um plano, um propósito no universo, e que nossos atos são guiados por uma mão invisível em direção a esse propósito. Neste caso, meus atos não seriam responsabilidade minha, mas apenas o meu papel em um roteiro maior.

Mas Sartre nos dá mais um de seus conceitos em oposição a essa crença: Não há um propósito ou um destino universal. E o homem diante desta constatação se desalenta.

O desalento é a constatação de que nada fora de nós define nosso próprio futuro. Apenas nossa liberdade.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Plaustro (Ou 'Esperou pelo sol...').


Esperou pelo sol, insensível não o acudiu
Ateou lembranças distantes, vãs, dispensou-as
Inquiriu nas palavras algum sentido à vida
Não dominou signos nem significados; chorou assentado.

Impelido visitou botecos, contornou vielas
Vias, alamedas e passarelas
Entretanto, nas passagens exausto desbotou
Cambaleado o chão, pela primeira vez, enxergou.

Com uma manta verde se adornou
Intentando não mais seguir caminho
O corpo contrário tremeu acelerado
Mesmo desprovido partiu derrocado.

Seus pés lamosos perderam-se
Um verdadeiro vai e vem
Rapidamente transformou-se em nada
Constituiu-se em mais um ninguém.

Dores no corpo ecoaram suas mágoas
Cercou-se de pastilhas, gotas e agulhas
Pouca alegria aventurou,
Desnudado quis despir sua existência - tarde recuou.

Pensou na morte como solução para a vida
Mesmo com as lentes quebradas de tempos atrás
Quando já aporrinhado clamava algum tipo de paz.

Ofuscado e fiel concluiu
Suas tristezas a ruína acolherá
Nela há de encontrar beleza e serenidade
Ultimadas numa cama branca e asseada.

Mas, seus olhos ainda infantis
Não perderam o lacrimejar
O medo do medo o assaltou e fez-se fiel e parceiro
Um verdadeiro companheiro.

O que fez dele? O que fez por ele?
Respostas cruas vieram-lhe a mente
Junto com o medo, seu amigo alanhado,
A cabeça rodou e o mundo girou.

Ainda assim remoeu possibilidades
Prendeu-se a um antigo lugar
A corda invitando mais tempo
Algo a lhe acompanhar.

Golpeado, o chão novamente fitou
Pingos ensangüentados escorreram
Pelas pernas magras e trêmulas
Ardilosamente acanhado desmoronou.

Resolveu pedir ajuda, gritou por socorro
Todavia, não havia mais ninguém, lembram-se?
Partiram em seus barcos azuis
Folgazões navegando mares e marés hostis.

Agora mais pobre, caluniado e doente
Tornou-se transparente, quase invisível
Seu rosto deslembrado para trás ficou
Nenhuma bóia a esse homem sobejou.

Rastejante encontrou o trecho indicado
Caminho confuso, percurso bifurcado
Achacado não reconheceu o passado
Seu coração soa em vão, grita inutilizado.

Restaram-lhe algumas manchas escuras no peito
Borbotando um liquido morno e avermelhado
Faz-se casto, puro e enlouquecido
Enfim, seu lugar encontrado e merecido.

Um punhal de osso dourado no peito fincou
Pelo pai, quando vivo, a ele doado
Ostentou, dias ao vento, ali, bem alojado.

Nuvens claras teimam e figuraram pelo ar
As janelas estão semi-abertas e as portas encostadas
Porém, seus olhos acuados
Dificultam reparar, desviam o admirar.

Igrejas, prédios, campos de futebol
Fez-se puro silêncio.
A pouca esperança atrás descartada
Carente se esgotou e com o punhal de osso dourado findou.

Escreve emaranhado, o estômago vazio
Pensa numa prece, oração
Ou num trecho de alguma canção
Esqueceu-as; o corpo já arrebata o frio.

Seu coração opaco escora a descobrir
O que exclamou e perpetuou nunca existir
Exausto conclui que se enroscou por completo
Nos cadarços de seu tênis amarelo e indiscreto.

Restaram-lhe alguns pensamentos
Bem sabe que água não entornará
O corpo miúdo e desprovido
Não incluirá como se afogar.

Casualmente avista sua pretendente
Uma fogueira bela e candente
A ela esse homem pertence
Alquila seu braço e ruma um caminho diferente.

Terras áridas visitarão
Por nada esperam, bem sabem, nada terão
A companheira o informa:
- A água doce o mar sugou e graceja sem perdão.

A partida principiou, logo há de cessar
Aqueceu-se por completo no fogaréu
Nenhuma alma a contemplá-lo lá do céu.

Dedico esse poema à amiga Gilmara.

domingo, 8 de junho de 2008

Pequeno desabafo de dor...



Minhas lágrimas transformam-se em tristezas,
Minhas tristezas compõem-se de mágoas,
Das minhas mágoas brota o desprezo
Do meu desprezo vem a insignificância.

Àquele que me faz chorar,
Um dia tornar-se-á, para mim, nada.
Eis a representação encontrada
Para resistir e prosseguir existindo.

(P/ ti M.)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Transparências"

Meu espelho,
Agora infiel,
Compõe-se d’uma acanhada sombra
Fina, puro pó.

Apartada
Quase por completo
Por mim sentenciada
A viver ante o nada.

By Clarice Lispector


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A má fé segundo Jean Paul Sartre

Segundo Sartre, a má-fé é uma defesa contra a angústia e o desalento, mas uma defesa equivocada. Pela má-fé renunciamos à nossa própria liberdade, fazendo escolhas que nos afastam do projeto fundamental, atribuindo conformadamente estas escolhas a fatores externos, ao destino, a Deus, aos astros, a um plano sobre humano.

Sartre também considerava a idéia freudiana de inconsciente como um exemplo de má-fé.

Má-fé, no existencialismo, não é mentir para outras pessoas, mas mentir para si mesmo e permitir-se fugir de sua própria auto-determinação.

Quando Sartre refere-se à má-fé, ele o faz no sentido de que a mesma compreende mentir para si próprio. Porém, o fato de não utilizá-la leva o indivíduo à angústia uma vez que ele não mente mais para si, tendo consciência de que tudo aquilo que lhe ocorrera em vida é atribuído às suas escolhas, somadas evidentemente às suas limitações naturais, sociológicas, econômicas, históricas e culturais.

Assim, não há como responsabilizar o destino ou qualquer providência divina pelos acontecimentos de sua vida. Diria Sartre: "Estamos sós e sem desculpas".

P.s.: Ao abandonar a má-fé, o homem passa a viver em angústia, pois ele deixa de se enganar. Esta passagem do estado de má-fé para a o de angústia é extremamente importante para que o sujeito possa encontrar sua liberdade no âmbito metafísico.


Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.Wikipédia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sartre

terça-feira, 1 de abril de 2008

Menino Desajeitado

Octopus by Victor Hugo200

O brincar das ondas mortas
O tilintar das marés vazias
Os movimentos soltos, à revelia
Na tua vida, pelos nossos dias.

Por onde andas ó menino desajeitado
Onde se embocou agora, outra vez enganado?
Tudo espero menos que permaneça recatado
Grita e estarei a teu lado.

Por onde andas ó menino atrapalhado
Donde se enfiou, novamente fechado?
Tudo espero até que estejas confuso
Grita e adormecerás ao meu lado.

Há a terra onde pisou brincando com as ondas
E as marés abandonadas todas vazias
O tilintar, os movimentos, aprazias?
Menino tens jeito: Contagia.

Carente, abastado, estatelado
Pequeno, ingrato, mal educado
A vagar sem rumo e sem norte
Passeou pela casa da minha triste sorte.

Por onde andas ó menino calado?
Onde estás nessa noite melancolicamente fria?
Gira correndo pra casa, serás perdoado
Somente tu para embalar os meus dias.

O mangar do alvoroço findou
Entre sons e espíritos desocupados
O abalo solto, finalmente, foi enlaçado
Em nossos caminhos frágeis e eternizados.