Palavras, poesias, poemas, versos, sonetos, estrofes, contos, crônicas, pensamentos, devaneios...
O caminho...
Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.
Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.
Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade
Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.
Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.
Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.
É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.
Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.
Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.
É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.
Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.
Humana sou.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Desdita
Saudade

Menino tu não fazes idéia da saudade que sinto de ti.
Menino aqui em casa falta teu riso.
Menino aqui em casa falta tua fala.
Menino aqui em casa eu dou por falta da tua face.
Menino aqui em casa eu dou por falta da tua birra.
Menino aqui em casa eu dou por falta do teu beijo.
Menino aqui em casa eu anseio louca por um abraço teu.
Menino não demora não.
Vem logo e aquece esse alquebrado coração.
Amém.
Esboço
Bate forte quase se acaba
Porque é bobo e chora
O amor que foi embora.
Sôfrego bate um coração que ainda aflora
Usa a face
Usa o cheiro
Usa o sabor
Daquilo que chamou
No passado de amor.
Sôfrego bate um coração que ainda aflora
Pouco soberano
Quase que em penhora
Rebuscado sem fala
Sem palavra, verbo ou ditado.
Sôfrego bate um coração que ainda teima em aflorar.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Trinta dicas "infalíveis" para escrever um bom texto:
2. É desnecessário empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.
3. Anule aliterações altamente abusivas.
4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.
5. Evite lugares-comuns assim como ‘o diabo foge da cruz’.
6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.
8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou? ...então valeu!
9. Porra, palavras de baixo calão podem transformar seu texto numa merda.
10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.
11. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto em que a palavra se encontra repetida.
12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem idéias próprias".
13. Frases incompletas podem causar
14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou, por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.
15. Seja mais ou menos específico.
16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!
17. A voz passiva deve ser evitada.
18. Utilize a pontuação corretamente especialmente o ponto e a vírgula, pois, a frase poderá ficar sem sentido será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação
19. Quem precisa de perguntas retóricas?
20. Conforme recomenda a A.G.O. P, nunca use siglas desconhecidas.
21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderar.
22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"
23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O texto fica horrível!!!!!
25. Evite frases exageradamente longas, pois, estas dificultam a compreensão das idéias nelas contidas e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, dessa forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.
26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.
27. Seja incisivo e coerente; ou não...
28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando dessa maneira irritante.
29. Outra barbaridade que tu deves evitar chê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras... Nada de mandar esse trem... Vixi... Entendeu, bichinho?
30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá agüentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.
Tino
Denominei de subterrâneo
Esse que por décadas e décadas me assolou
Sim, meu afiado crânio
Meu cérebro, perverso, afundou.
Nesse momento dou partida
Para viver uma nova vida
Como resultado minha alma comprazer-se-á
Do transparecer latente de sua existência.
Tantas questões
Tantas perguntas
Tantas dúvidas
Tantas prerrogativas...
Enfim, pus tudo de lado
Sem meu crânio ei de viver
Pela vida seguirei, vou recorrer
Sem enganos.
Eis uma nova realidade
Que a partir de agora me proporcionarei
Eis uma nova realidade
Momentos joviais de felicidade.
Letramento – Artigo Revista Mackenzie edição/41 - página 22
Li há pouco uma reportagem na revista Mackenzie, edição 41 - ano 2008 - pág. 22, intitulada “OS LIMITES DA NOSSA LINGUAGEM SÃO OS LIMITES DO NOSSO MUNDO” por Ludwig Wittgenstein.
Faço um breve resumo:
- 28% da população brasileira sabem ler e escrever PLENAMENTE;
- 72% são considerados analfabetos funcionais
Divididos em:
- 40% apresentam o nível básico lendo e compreendendo apenas textos fáceis e, ainda assim, com dificuldades de interpretação;
- 25% são considerados analfabetos rudimentares que só conseguem identificar informações em textos curtos e
- 7% são completamente analfabetos, incapazes de ler uma palavra ainda que simples.
APENAS 20% DA POPULAÇÃO BRASILEIRA TÊM A ESCOLARIDADE MÍNIMA OBRIGATÓRIA: Ensino médio e Ensino fundamental.
Imaginava mais ou menos esse panorama, mas, ao constatá-lo na entrevista encharquei-me de uma profunda tristeza.
Imaginem olhar uma palavra escrita e não conseguir identificar o que ‘aquilo’ quer dizer.
Penso nas pessoas analfabetas em ponto de ônibus atentas a todos os ônibus que passam, sem identificar o nome, orientando-se por cores ou números e, vez ou outra, perguntando para alguém ao seu lado se o ônibus tal já passou.
Se pensarmos sobre o título da reportagem concluiremos o quão pequeno e limitado é o mundo de uma pessoa não letrada.
Penso em quantas vezes isso aconteceu comigo. Quantas vezes já me perguntaram. Talvez, um (a) analfabeto (a) usando uma forma de chegar ao seu destino, sem demonstrar que não sabia ler.
Vejo aqui um método de esconder a vergonha por não saber ler. A vergonha não pertence a eles (as). A vergonha pertence ao Brasil.
Grata!
Gaveta
Tuas gavetas nunca hei de vasculhar
Intrigada fico não
Caso queiras tens o sinal.
Não sabes de onde surgiu tanta coragem
Viver a seca junto à estiagem
Com ele será assim
Assoviaram na janela dela.
Tola se fez
Emudeceu
Logo calou
Também ensurdeceu.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Sem sentido

Não tem mais a quem socorro impelir
Vaga mais uma noite só pelas ruas sombrias
Também chora um passado renunciado distante
Comprazes-se das amarguras vividas em tantos instantes.
Caminha pelas calçadas tumultuadas
Roga, na mente, quem sabe, talvez, um pouco de alegria
Porém, conhece-se bem
Sabe que não será abençoado por qualquer ventura.
Moço quieto esse moço
Moço quedo esse moço
Apaziguado esse moço
Moço esse pela vida inteirinha maltratado
Por isso situou seu tudo de lado.
Havia a fé que saboreava
Havia a reza que rezava
Havia a igreja que freqüentava
Havia nele algo em que acreditava.
Esqueceu, resolveu eternizar
Sua alma nas ondas agitadas do mar
Sabe bem, é bem sorvido de intuição
Quando seu fim estiver próximo
Irá para o mar
Por lá ficará
Até não mais respirar.
Há tempos abençoou essa constatação
Há tempos não deseja mais nada
Há tempos não sonha
Se o sonho o procura o procura em vão.
Tem ciência que de daqui para frente
Diariamente seu coração
Será ferido um pouco mais
Espera apenas ir nos braços da paz.
Quem sabe moço?
Quem sabe?
Segredo aberto

Vou te contar algo
Que jamais deverias saber
- Sou peregrina
Caminho por aí
Também vou por lá
Não reparo nos arredores
Sequer nos ambientes
Não me alojo pelos cantos
Sou estrangeira
Nasci para andar
Solta pelas ruas
Livre eu percorro
Subidas altas
Livre eu percorro
Também os morros.
Essa é a chave
- simples -
Daquilo que me faz
Uma mulher capaz
De sem nada ter
Ser feliz
E, mais, nunca
Deixar-me envolver.
Sinto lhe dizer
Meu prezado rapaz
Mas primeiro peço
Que me deixe em paz
Segundo lhe informo
Não sou mulher
Arquitetada para acorrer
Não nasci para ninguém
Não nasci para você.
Sendo assim
Afasta-te de mim. Vai.
sábado, 5 de junho de 2010
Parto molhado


Aqui, sim, sobre meu estômago
Não sei ao certo parece que um pouco mais pra baixo
Sim, dói, dói muito
Não, cuidado, por favor, não aperta.
Todos os dias tenho passado por isso durante as manhãs
É uma mistura de dor de estômago com cólica menstrual
Tenho a impressão de que estou entrando em trabalho de parto
Enquanto dói não consigo nem chorar.
Dura uns quarenta minutos
Aí repentinamente passa, some
Vai embora da forma que veio – subitamente.
Então eu choro.
Choro copiosamente
Choro como se estivesse de luto
E sinto que mais uma vez te pari
É! Você nascendo de novo em mim.
Falto
Escape

Desato o nó das cortinas
Do meu quarto pintado de amarelo
Enquanto isso meu pranto escorre
Lançado ele está novamente ao vento
Que entra pela janela semi-aberta.
Somente assim acordo
Ainda sonolenta, levanto-me
E chamo:
- Vem cá meu querido
Ao meu encontro
Vem cá meu encanto.
Despedida
Alforria
Fez da alegria
Minha cria
Malditas plantas.
- Quem foi que me salvou?
Se é que isso realmente aconteceu
Da morte isolada e fria.
Quem foi que me resgatou?
Da dor que sentia
Chamada por alguns
Dor tardia?
Foi ele
Outra vez
- Novamente -
Que me deu vida.
Foi ele
Outra vez
- Novamente -
Que ateou fogo
Na partida.
Ofereço-te o que posso
Meu amor, meu calor
Enquanto esqueço o que me esfria.
Consagração

Fecho os olhos e busco por ti
Vejo-o na negritude de mais uma noite frienta
Fecho os olhos e busco por ti
Enxergo-o em um alguém que tem
Uma figura física semelhante à tua.
Venho até aqui para simplesmente lhe dizer:
- Dessa vez perdi - em definitivo meu rapaz -
Perdi aquele que foi o meu único bem
Perdi aquele que foi capaz de fazer de mim
Uma pessoa, uma mulher, um alguém.
- Peço, constata comigo:
Foi nisso que deu
Por eu
Ignorar as conseqüências – Joguei-as fora
- Peço, constata comigo:
Foi nisso que deu
Por eu
Ignorar as condescendências – Coloquei-as de lado
- Infere comigo:
Foi nisso que deu
Por eu – Mulher de reduzida sabedoria -
Ignorar até mesmo minha existência – Execrei-a.
Agora vejo que somente tu
Será capaz de desarraigar
Esse manto negro com o qual
Ao longo desse tempo me cobri.
Então, venho até aqui
Lembra, tenho algo a lhe pedir:
- Somente tu rapaz será capaz
De banhar meu corpo imaculado
Esgotada, peço-lhe, por favor,
- Pega minha mão
Leva-me até o banheiro
E deixa a água do chuveiro
Envolver com sua força fluente
Não só o meu corpo
Mas também
Permita que ela arranque
Todas as impurezas que conquistei
Durante esses anos em que mergulhei
Na mais estreita solidão.
Peço, mais uma vez,
- Repara na planeada responsabilidade -
Por mim a ti doada – perdoa -
De resgatar-me enquanto ainda não é tarde.
Penso que ao jorrar a água pelo ralo
Levará com ela - creio eu –
Não só a sujeira da carne
Mas também todas as incertezas
Que durante minha vivência conquistei
E, no meu interior guardei.
- Só tu podes meu distante rapaz
Limpar aquilo que macula
Minha alma inapropriada
Só tu podes meu distante rapaz
Limpar aquilo que macula
- Não te faças de rogado -
Purificando com tuas lânguidas mãos
Essas manchas escuras
Que reguei e fiz crescer
No meu coração.
- Creio eu que a água levará
- Tu serás o responsável por retirar -
A saboreada penitência
Cultuada por mim anos após anos
Na mais isolada existência.
Apreciação

Para seres feliz como tu realmente querias haverias que antes de crer cegamente naquela dama e, por conseqüência, levá-la à cama para concretizar o ato do amar, o ato de amar para quando o sol raiasse iluminando o aposento e o novo dia, informando-te quem ao lado dela tu realmente serias. Somente nesse momento seria hora de denrolar as tranças da donzela e romper o elo que, na escuridão, uniu-se a ela.
Fique esperto homem: Teu coração não despojará nas mãos dessa formosa dona.
Se nessa armadilha verdadeiramente não queres cair. Penses...
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Professão

Já és homem feito, homem adulto. Já entendes e vivencias as agonias e alegrias da vida.
Já conheces os medos que permeiam nossas existências, rondam nossos caminhos.
Já reconheces em teu dia-a-dia, também, as euforias que a danada da vida nos oferta como se, dessa forma, pudesse compensar-nos pelas peças que nos prega, pelos testes que valentemente nos aplica e pela forma como diariamente nos desafia a dar o próximo passo, a fazer a próxima escolha.
Enfim, meu filho, tu já conheces a capacidade que a vida tem de nos manejar como se fôssemos um bando de marionetes e sempre estivéssemos a dever-lhe algo, tendo assim, que estarmos prontos para lidar com as todas as diversas e inesperadas pelejas do dia-a-dia.
Já sabes também que a vida tem o poder de fazer com que nos sintamos tão impotentes perante algumas situações e, por vezes, prostremo-nos sem ter a menor idéia do que fazer.
A vida tem a capacidade soberana de fazer com que bailemos ao som de suas melodias e, por vezes, também tem a capacidade de fazer com que nos percamos na coreografia quando em determinado momento não fazemos a menor idéia do rumo a ser tomado ou do caminho a ser seguido.
Reconheces rapaz quantas coisas tu já sabes da vida?
Então, por isso, resolvi lhe contar algo que ocorria comigo quando tu ainda eras pequenino e andava através dos meus braços e dos braços do teu pai.
Resolvi te contar algo da época de quando tu, todas as noites de todos os dias da semana, eras ninado ao som de uma diferente canção ora cantada por mim, ora cantada por teu pai.
Nascestes no ano de mil novecentos e oitenta e seis. Nascestes numa época perigosa e perversa onde existiam quadrilhas profissionais que roubavam crianças e vendiam-as para casais de países estrangeiros.
Vivíamos um verdadeiro tropel na cidade de São Paulo. As autoridades tinham perdido o controle sobre essas organizações criminosas. Ficava a cargo dos pais defenderem suas crias com unhas e dentes.
Podes imaginar como essa tua mãe frágil se sentia, não é?
Pois lhe digo meu filho que vivia uma agonia contínua. Fui abandonada pelo sossego. Vivia de sobressalto.
Sendo bem honesta menino eu vivia tomada pelo medo, pela insegurança e por uma dor que machucava meus ossos. Hoje sei que aquela dor espelhava os sentimentos que se firmavam dentro de mim.
Todos os meses te levava ao pediatra para essas consultas de rotina. Íamos somente os dois. Pegávamos uma condução que percorria um trajeto e levava em torno de quarenta minutos até nos deixar no devido local.
Teus olhos azuis confundiam-se com a cor da água do mar. E, como mãe zelosa, eu tanto para te cuidar quanto para reforçar teus encantos cobria-te com roupinhas que somente realçavam o mar espelhado em teus olhos e o dourado dos teus cabelos.
Funcionava mais ou menos assim: Arrumava-te. Na sequência aprontava-me. Munia-me de uma mochila com teus pertences – empunhava-a nas costas, recolhia-o em meus braços, hoje penso no quanto te apertei contra meu peito na esperança de que ninguém tivesse força física suficiente para afastar-te de mim. e caminhávamos até a parada.
Ao entrarmos no coletivo meus olhos percorriam quase todos que estavam ali. Para mim eram nítidos os olhares que se viravam contra nós, ou melhor, contra ti.
Arrepiava-me quando alguém se aproximava e dizia algo. Ao ouvir um cumprimento expressando tua beleza meu estômago gelava.
Recordo-me agora de uma pessoa, num deses percursos mensais, sussurrar algo à mínima distância de nós:
- Tens um menino colorido. Repara mãe: Seus olhos são azuis, suas bochechas cor-de- rosa, seus lábios vermelhos e os cabelos, tão belos, amarelos como o ouro.
Claro que fiquei lisonjeada, mas o medo daquela pessoa abafou por completo o orgulho de ser tua mãe.
Confesso-te hoje meu rapaz que o medo quase que me consumiu por completo. Verdade.
Tinha medo não só dos olhares que lançavam a ti. Tinha medo também dos elogios que emitiam e daqueles mais 'calorosos' que se aproximavam querendo ver-te mais de perto e poder te admirar melhor.
Nas minhas seis horas diárias de trabalho meu pensamento estava sempre em casa, ou melhor, em ti. Imaginava coisas trágicas. Imaginava alguém iludindo tua babá dizendo que te levaria para passear a meu mando.
Nos finais de semana quando teu pai estava conosco o tempo todo conseguia sentir um pouco da brisa da paz. De leve.
Não sei se tu te lembras que todos os domingos almoçávamos, religiosamente, na casa da tua vó Geralda. Ainda não tínhamos carro então íamos de ônibus.
Teu pai fazia questão de te carregar. Sabe que parecia que ele flutuava com você nos braços? Verdade.
Eu ficava encarregada de levar tua mochila. Dentro dela as coisas que previa que poderias necessitar.
Mesmo sentindo a brisa leve da paz que teu pai me proporcionava nos finais de semana ainda assim mantinha-me uns setenta por cento em estado de alerta. Qualquer pessoa que chegava em nossa casa me pegava de prontidão.
Nunca tinha falado dessa aflição para ninguém. Foi numa segunda-feira, à noite, que chamei teu pai e sussurrei ao pé de seu ouvido:
- William, tenho medo de que alguém roube o João Gabriel.
Foi então que ouvi aquilo que me libertaria do medo. Ouvi aquilo que me salvaria da dor que se amontoava no meu estômago:
- Gill, se um dia isso acontecer nem que eu tenha que ir até o inferno trago nosso menino de volta.
Aquelas palavras devolveram-me a tranqüilidade. Afinal ele afirmara que te buscaria em qualquer lugar do mundo. Meu alívio foi imediato. Restaurava-se naquele momento a tranqüilidade que havia perdido em meu coração.
Hoje penso que poderia ter confidenciado a ele com mais antecedência. Dessa forma, libertaria-me logo do medo, porém hoje também penso que na vida há um momento apropriado para tudo.
Confidencio-te isso meu rapaz para que saibas que teu pai, com poucas palavras, foi capaz de arrancar com a mão o medo que se estabelecera dentro de mim.
Hoje reconheço o quanto sou grata a ele por ter me devolvido a paz. Naquele dia, quando ele terminou de falar parecia que tinha me devolvido todo o alívio perdido em poucos meses.
Serei eternamente grata a teu pai.
Ele foi o meu herói. Primeiro que não deixaria ninguém te levar, segundo que iria te buscar fosse aonde fosse.
Percebo agora que resolvi te contar essa história somente para te dizer o quanto meu amor por ti é grande. Faz-se descompensado, exagerado, inigualável.
Por fim, fique sabendo moço bonito que sempre senti por ti esse amor vigoroso.
Agora, homem feito, já aprendestes a lidar com minha forma de amar assim como aceitá-a. Só pra te relembrar: Isso é para sempre, tá?
Será que esse é o preço que pagarás enquanto viveres por teres sido gerado por mim?
Era isso que tinha para lhe confidenciar meu querido.
Com amor
‘Mãezinha’.



