O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

"Embriaguem-se" by Baudelaire

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:

"É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

quinta-feira, 26 de junho de 2008










"...O melancólico é um 'habitante do imaginário'.

No imaginário o 'tempo não passa'. No imaginário vive-se em luto permanente..."

by Julia Kristeva

terça-feira, 24 de junho de 2008

Sentinela










Alimento-me de poesia,
Dela arrebato o alento.
Quando o mantimento escassear,
Desde já anuncio:

Abrasem meu corpo,
Olvidem-no de qualquer cerimonial.
Suprimam o burlesco jogral e
Respinguem até o final.

Ofereçam-me a difusa paz e
Desfiarei minha vida
Em sua largueada saída.

sábado, 21 de junho de 2008

Supressão

Pouco a pouco se alivia em movimentos sossegados,
Pondera ser inconsciente,
Sorridente bem sabe que não
Elegeu perecer a desejo planeado
Sem bênção e apagados os seus pecados.

Enquanto desfalece desfruta
A ponte suspensa conquistada
Escolheu a forma para ir embora
Ajuíza agora clemência por fora.

No seu perecimento suplica
Não padecerá preces ou complacências
Tampouco alheia estará às incumbências.

Ambiciona algum acolhimento
No minuto que antecede o final
Sua última etapa,
Sorvida pelas águas do mal.

Morrediça há algum tempo -
Não sabe precisar bem quanto -
Ah, lembrou-se: Em apoucadas doses o corpo fragmentou,
Em seguida a alma branca secou.

Feito pomba, feito nuvem
Feito semblante velado
Por gente distante
Eles, os tais mascarados.

Tragou, arrancou, risonha amou
Pena, prontamente, de novo, o soluço a encontrou
Há que se evidenciar: Desnudou-se, por completo, essa mulher
Transpôs seu aclamado e antigo pudor!

Já sente a leveza do casco desmobiliado
O ar estendê-lo-á até findar
Quanto à gêmula que aplaclara seu coração
Correu apressada,
Fez-se densa a destruição.

Desconhece o sim, não reconhece o não.

Nesse ínterim afastou o amor e as vestes arrebatou
Numa ladeira escura os calçados abandonou
Goza agora a fúria da sua única dor
Porém, capacitou-se em tirar proveito: Lágrima alguma restou.

Memoriou tempos passados
Talvez uma desconfiada salvação
Ligeira e sem tardanças abortou
Desfez-se da preocupação.

Expira plácida e plena, ressoa serena
Também pura e grandiosa a moça pequena
Embebedar-se-á noite afora
Naquele boteco remanente, de frente.

Soberba seus últimos momentos vigiará
Reivindicou dizer adeus
Ao tosco que a atravessou
Impulsiona os olhos, chega, chegou. Suspira, suspirou.

Jaz ali mais uma mulher...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Aditamento

Quiçá passado o furacão
Eu possa mais uma vez,
Em vão,
Circular tua vizinhança.

- Abafar-me em teus braços?
Inda versas assombrosas distâncias...
Olvida agora, assaz,
A audaciosa e enferma esperança!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Carlos Drummond de Andrade

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade e não considero honesto rotular de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e, até mesmo, da ação”.

A angústia - (Desalento) by Jean Paul Sartre

A responsabilidade por todo o mundo é um fardo pesado para qualquer pessoa.

A angústia existencial decorre da consciência de que são as escolhas dessa pessoa que definem o que ela é ou se tornará. E também por saber que estas escolhas podem afetar, de maneira irreparável, o próprio mundo.

A "angústia" decorre, portanto, da consciência da liberdade e do receio de usar essa liberdade de forma errada.

É muito mais fácil acreditar que existe um plano, um propósito no universo, e que nossos atos são guiados por uma mão invisível em direção a esse propósito. Neste caso, meus atos não seriam responsabilidade minha, mas apenas o meu papel em um roteiro maior.

Mas Sartre nos dá mais um de seus conceitos em oposição a essa crença: Não há um propósito ou um destino universal. E o homem diante desta constatação se desalenta.

O desalento é a constatação de que nada fora de nós define nosso próprio futuro. Apenas nossa liberdade.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Plaustro (Ou 'Esperou pelo sol...').


Esperou pelo sol, insensível não o acudiu
Ateou lembranças distantes, vãs, dispensou-as
Inquiriu nas palavras algum sentido à vida
Não dominou signos nem significados; chorou assentado.

Impelido visitou botecos, contornou vielas
Vias, alamedas e passarelas
Entretanto, nas passagens exausto desbotou
Cambaleado o chão, pela primeira vez, enxergou.

Com uma manta verde se adornou
Intentando não mais seguir caminho
O corpo contrário tremeu acelerado
Mesmo desprovido partiu derrocado.

Seus pés lamosos perderam-se
Um verdadeiro vai e vem
Rapidamente transformou-se em nada
Constituiu-se em mais um ninguém.

Dores no corpo ecoaram suas mágoas
Cercou-se de pastilhas, gotas e agulhas
Pouca alegria aventurou,
Desnudado quis despir sua existência - tarde recuou.

Pensou na morte como solução para a vida
Mesmo com as lentes quebradas de tempos atrás
Quando já aporrinhado clamava algum tipo de paz.

Ofuscado e fiel concluiu
Suas tristezas a ruína acolherá
Nela há de encontrar beleza e serenidade
Ultimadas numa cama branca e asseada.

Mas, seus olhos ainda infantis
Não perderam o lacrimejar
O medo do medo o assaltou e fez-se fiel e parceiro
Um verdadeiro companheiro.

O que fez dele? O que fez por ele?
Respostas cruas vieram-lhe a mente
Junto com o medo, seu amigo alanhado,
A cabeça rodou e o mundo girou.

Ainda assim remoeu possibilidades
Prendeu-se a um antigo lugar
A corda invitando mais tempo
Algo a lhe acompanhar.

Golpeado, o chão novamente fitou
Pingos ensangüentados escorreram
Pelas pernas magras e trêmulas
Ardilosamente acanhado desmoronou.

Resolveu pedir ajuda, gritou por socorro
Todavia, não havia mais ninguém, lembram-se?
Partiram em seus barcos azuis
Folgazões navegando mares e marés hostis.

Agora mais pobre, caluniado e doente
Tornou-se transparente, quase invisível
Seu rosto deslembrado para trás ficou
Nenhuma bóia a esse homem sobejou.

Rastejante encontrou o trecho indicado
Caminho confuso, percurso bifurcado
Achacado não reconheceu o passado
Seu coração soa em vão, grita inutilizado.

Restaram-lhe algumas manchas escuras no peito
Borbotando um liquido morno e avermelhado
Faz-se casto, puro e enlouquecido
Enfim, seu lugar encontrado e merecido.

Um punhal de osso dourado no peito fincou
Pelo pai, quando vivo, a ele doado
Ostentou, dias ao vento, ali, bem alojado.

Nuvens claras teimam e figuraram pelo ar
As janelas estão semi-abertas e as portas encostadas
Porém, seus olhos acuados
Dificultam reparar, desviam o admirar.

Igrejas, prédios, campos de futebol
Fez-se puro silêncio.
A pouca esperança atrás descartada
Carente se esgotou e com o punhal de osso dourado findou.

Escreve emaranhado, o estômago vazio
Pensa numa prece, oração
Ou num trecho de alguma canção
Esqueceu-as; o corpo já arrebata o frio.

Seu coração opaco escora a descobrir
O que exclamou e perpetuou nunca existir
Exausto conclui que se enroscou por completo
Nos cadarços de seu tênis amarelo e indiscreto.

Restaram-lhe alguns pensamentos
Bem sabe que água não entornará
O corpo miúdo e desprovido
Não incluirá como se afogar.

Casualmente avista sua pretendente
Uma fogueira bela e candente
A ela esse homem pertence
Alquila seu braço e ruma um caminho diferente.

Terras áridas visitarão
Por nada esperam, bem sabem, nada terão
A companheira o informa:
- A água doce o mar sugou e graceja sem perdão.

A partida principiou, logo há de cessar
Aqueceu-se por completo no fogaréu
Nenhuma alma a contemplá-lo lá do céu.

Dedico esse poema à amiga Gilmara.

domingo, 8 de junho de 2008

Pequeno desabafo de dor...



Minhas lágrimas transformam-se em tristezas,
Minhas tristezas compõem-se de mágoas,
Das minhas mágoas brota o desprezo
Do meu desprezo vem a insignificância.

Àquele que me faz chorar,
Um dia tornar-se-á, para mim, nada.
Eis a representação encontrada
Para resistir e prosseguir existindo.

(P/ ti M.)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Transparências"

Meu espelho,
Agora infiel,
Compõe-se d’uma acanhada sombra
Fina, puro pó.

Apartada
Quase por completo
Por mim sentenciada
A viver ante o nada.

By Clarice Lispector


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A má fé segundo Jean Paul Sartre

Segundo Sartre, a má-fé é uma defesa contra a angústia e o desalento, mas uma defesa equivocada. Pela má-fé renunciamos à nossa própria liberdade, fazendo escolhas que nos afastam do projeto fundamental, atribuindo conformadamente estas escolhas a fatores externos, ao destino, a Deus, aos astros, a um plano sobre humano.

Sartre também considerava a idéia freudiana de inconsciente como um exemplo de má-fé.

Má-fé, no existencialismo, não é mentir para outras pessoas, mas mentir para si mesmo e permitir-se fugir de sua própria auto-determinação.

Quando Sartre refere-se à má-fé, ele o faz no sentido de que a mesma compreende mentir para si próprio. Porém, o fato de não utilizá-la leva o indivíduo à angústia uma vez que ele não mente mais para si, tendo consciência de que tudo aquilo que lhe ocorrera em vida é atribuído às suas escolhas, somadas evidentemente às suas limitações naturais, sociológicas, econômicas, históricas e culturais.

Assim, não há como responsabilizar o destino ou qualquer providência divina pelos acontecimentos de sua vida. Diria Sartre: "Estamos sós e sem desculpas".

P.s.: Ao abandonar a má-fé, o homem passa a viver em angústia, pois ele deixa de se enganar. Esta passagem do estado de má-fé para a o de angústia é extremamente importante para que o sujeito possa encontrar sua liberdade no âmbito metafísico.


Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.Wikipédia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sartre

terça-feira, 1 de abril de 2008

Menino Desajeitado

Octopus by Victor Hugo200

O brincar das ondas mortas
O tilintar das marés vazias
Os movimentos soltos, à revelia
Na tua vida, pelos nossos dias.

Por onde andas ó menino desajeitado
Onde se embocou agora, outra vez enganado?
Tudo espero menos que permaneça recatado
Grita e estarei a teu lado.

Por onde andas ó menino atrapalhado
Donde se enfiou, novamente fechado?
Tudo espero até que estejas confuso
Grita e adormecerás ao meu lado.

Há a terra onde pisou brincando com as ondas
E as marés abandonadas todas vazias
O tilintar, os movimentos, aprazias?
Menino tens jeito: Contagia.

Carente, abastado, estatelado
Pequeno, ingrato, mal educado
A vagar sem rumo e sem norte
Passeou pela casa da minha triste sorte.

Por onde andas ó menino calado?
Onde estás nessa noite melancolicamente fria?
Gira correndo pra casa, serás perdoado
Somente tu para embalar os meus dias.

O mangar do alvoroço findou
Entre sons e espíritos desocupados
O abalo solto, finalmente, foi enlaçado
Em nossos caminhos frágeis e eternizados.

sexta-feira, 7 de março de 2008

"Alma Amada - a parte de cá" - Eis, por fim, Tânia



'A parte de lá' by Tânia Barros

"Minh'alma, amad'alma,
que de mundo e desmundo
é coroada!

Que desmundo é este te alumia
a luzir o mundo com tanta galhardia?!"


'A parte de cá' by gill benício

O final (?), 'a parte de cá' by gill benício

Tua amad’alma
De mundo e desmundo coroada
Não te espantes agora, minha senhora. Faz-se hora?
Para aclarar noites sórdidas e acobardadas?

Que desmundo é este que te alumia,
A luzir o mundo em galhardia?
Olhas! Perpetua com brio próprio, aludia
Nosso acanhado desmundo das palavras em melodias.

Outrora, quão infeliz, rudemente estudado
Por fim, depois de tanto rebuscado,
Burila calmo e acalmado: Pobre, jamais coitado.

Caminha seguindo pelos dias
Igrejas,
Altares e
Melancolias.

Colossal, enfim, aquietou-se nos lugares
Não ambiciona durar algazarras
Deseja mesmo é alastrar-se
Embebedando suavemente mentes secas pelos ares.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Peso adocicado - Para ti "iSA bELA"



Estranha qualquer tentativa de elucidar
Estrangeira é a forma desse ensaio
Vê-se imperiosa rápido articular
Não agüenta mais - tão Bela - calar

Há um peso adocicado em suas costas
Não arreda pé posse ou lugar
Atende essa garota orgulhosa
Impedindo-a de notar como o largar

Há um peso adocicado em suas costas
Frente a algo quase não esquecido
Intrusa prerrogativa perdura do passado
Remoendo tantos anos desajustados

É um peso estranho de explicar
É um peso estranho de sentir
Ela o reconhece como um peso adocicado
Sua grande dificuldade: Deixá-lo de lado

Peregrina caminha por sua extensa alameda
Avança a passos longos e compridos
Deleita-se no gosto desgastado - seu paladar
Não descobriu, todavia, como agir como evitar

Procura formas e formas de expulsá-lo
Vê-se arranhando os próprios calcanhares
Equilibrada em suas sandálias de salto alto
Alcança os mínimos e maiores lugares

É o peso adocicado das suas costas
Suplicando, ambicionando continuar
Pela manhã estrondosamente, na sua frente, gritou:
- Irei embora somente à minha hora!

Largou as sandálias e agora pisa na areia molhada
Agatanhou as solas dos pés cândidos delicados
Todavia, não sentiu dor - há até um pequeno rumor
“O peso adocicado tem lá um forasteiro sabor”

Dissimulado, esse danado, não disfarça mais
Intrometido, o velado, nem pede licença
Indiscreto, tal safado, chega a qualquer hora
Arredio desvairado louco a namora

Tornou-se deveras mal-educado
Mantém-se principiando nada gentil
Tampouco guardou o que lhe era afável
Maldição perdeu o doce ar da dor pueril

Cansada bem mais que enamorada
Decidiu resoluta removê-lo – ainda paira certo temor
Precipício abaixo há de arremessá-lo
Aspira vê-lo só, bem longe, devastado

Agarra-o, maneja-o com destreza
Despenhadeiro abaixo o impele – pura certeza
Com a força de mulher madura a execrar
Deseja sua alegre tristeza – por fim - serenar

Nesse momento Isa pisa na calçada
Retrai-se um pouco meio desamparada
Ignora, não pensa, segue abençoada
O peso adocicado transformou-se em nada

Agora persegue acompanhada seu caminho
Apaziguada - atenta - menos desalinho
Forte e serenizada
Tranqüila mais adocicada

Enxerga adiante o mundo que se abre
Abraça-o com energia abstrata
Pede exílio para ela mais o pequenino
Tão senhora, tão exata
Dá partida sossegada.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

"Apagamento II" - Para a amiga Tany por gill benício

Desejar sem aspirar não discorrer
Como carentes indigentes e enamorados
Buscando desesperados somente sobreviver
Por palavras digeridas mastigadas e corroídas

Ler? Não ler nada - sumir
Escrever? Menos ainda - apagar
Cada uma com sua alma salgada
Condenadas ao sol que não despontará

Desatar as cortinas descortinar
Doar sangue - doar vento - ventar
Na ânsia de simplesmente reter os sentidos
Existir, para quê?

Sumir não divagar
Não abrandar menos afastar
Não iludir-se - desesperançar
Dobrar o relógio - despertar

Maldito encanto nosso - doce retiro
Rarefeito puro espanto
Onde me abrigo noite adentro dia afora
Sem pensar na maldita hora

Apavoras-te?
Eu também
Sozinha, cá sem ninguém
Reduzida a nada
Um pouco mais, menos encantada

Saboreio o sal do teu ar
Sou a voz do mundo a te enfrentar
Açoite sólido açoite lírico
Ecoando divinamente devagar
Pairando de qualquer forma
Pairando em qualquer lugar

gill benício

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Perdão para o pai



Não penso mais num ser humano errando
Por intento ou desejo
Ninguém ingressa a errar por aspiração
Seria falta de ciência ou capricho vão.

Faz-se tudo no intuito de acertar
Todavia, o desacerto chega
Sem aviso prévio
Ninguém a comunicar só desarranjar

Dói ter ciência da ausência do nome do teu pai
Na tua certidão de nascimento
O quão difícil deve ter sido
E ainda persiste encoberto o enigma.

Por isso não te desgosto mais
As mágoas se quebraram
De tempos pra cá, posso te asseverar
Com lisura e integridade no coração

Que as angústias espancaram
Nos muros e paredes da minha solidão

Compreendi,
Tomei aviso,
Senti:

Foi o que podias
Foi o que sabias
Foi o vivenciado por ti
Foi o atingido com o pai dos outros

É sabido:

Altercarmo-nos por alguns trocados
O tempo foi incumbido tornando tudo miúdo
Porque não dizer sagaz
Ao mirarmos nossos valiosos filhos de paz.

Releva o padecimento
Perdoa a humilhação
Se puder, esqueça as ofensas
E anistia o quebranto causado.

Do mesmo modo compete a mim:
Fui o sugestionado o recomendado
Porque não dizer o mais cômodo ou indicado
Menos sofisticado o mais iludido lado

Tão arredia em meu casco quebrado
Sem reza nem bênção
Sem graça ou consternação
Fui só mais um alguém
Nós - dois seres miúdos -
Eu e você também.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Por fim, o coração abrandou a razão

'O coração é mais sábio do que a razão...'

Senti aversão ao perceber minha razão
Perturbando, fria e seca,meu coração.
Lembrei-me da história da mulher do pintor
Aquele pintor da arte e do amor,
Ela, um dia sentada na janela, às costas paro o céu,
Mirou-me indagando:

- “Você sabe o que é o amor?
O verdadeiro amor?
Você já amou tanto que se condenaria
À eternidade no inferno?
Perdoa, já vou...".

Não tive réplica
Quase não atingi a pergunta
Amar pra mim, até então, era unicamente amar
Nunca embalara amor às provas mistas da dor.

Conto-te agora:
Não sabia amar até encontrá-lo
Nunca sentira qualquer pesar
Nem lamentara nada, face seca e calada.

Nesse momento chora a alma dos amargurados
Arde o coração dos vivos angustiados
Sabedores da dor da razão
E conhecedores por viverem uma grande paixão.

Quanto a mim, perdi minhas referências
Afastei-me do meio-fio e da ilusão
Inundou-se também minha percepção
Antes, o Amor denominado como certo
Fui obrigada a abortar e
Reconhecer seus manifestos.

Recordo, amei-te mais ainda
Ao ouvir: - Espera, confia, imploro,
Repara, nosso tempo não se perdeu.
Desejo ansioso um filho teu.

Apoquentada, perguntei a meu modo, insegura e rígida:
- Quanto tempo ei de esperar
Acolheremos e impeliremos
Todos os desgostos judiciosos por vir?
A resposta não me apaziguou, fingi.

Bem sei que mentiras, no passado, 'por amor'
Abominei-te severamente impiedosa e cruel
- Inconveniente, covarde e prosaico
Tu, rendido a um preço tão baixo.

Algumas situações a sorte não adota
Menos ainda permite ou consente
Felicidade só conhece amor vindo da pura alma
Somente assim, ao saber, distingui.

Volto a minha questão peculiar
O que fazer do presente
Nossa história, por pouco, não se foi
Largo-me nesse momento, entrego-me a ti
Quase depois da minha hora.

Seguidamente falo-te tensa
Perdoa, bens sabes que não me contenho,
- Amado, receio ir além,
Postar-me, perder-me, aquém.

Essa maldita e perversa insensatez
Talvez me leve à procura – não! Outra vez -
D’um outro alguém. Ninguém?

Temo não suportar o tempo necessitado
Alarmo não ter meus próprios aparatos
Sou pobre, mistura do aqui e agora ,
Mas reponho-me circunda:
- Deixa-me ir embora?

Leva contigo a ciência de ter golpeado bem
Conquistastes teu desejoso bem
Obteve êxito, fez-se o meu homem precioso .

Minha alma arde, alardeia e entoa
Roga calma, paciência a minha pessoa
Meu corpo contrai-se, é puro fogo
Enquanto meus seios nus aspiram tua boca
Vem e apossa-te desse teu ser asilado.

Outra história vou te contar:
Não rias, envergonhar-me-ia
O beijo dito 'roubado'
A ti foi astuciosamente doado!

Não, não amolgarei ou golpearei
Nosso retraído retiro
Nossa luz não escurecerá
Abandonando nosso canto,
Tomando outra direção, tolice, em vão.

Acatada agora minha tola e ingênua alma
Despreza meu acanhado e minúsculo momento
Ausentar-me solidificar-me-ia uma farsa - longe de ti –
Inadequadamente engenhosa.

Quanto à despedida faremos depois
Revogaremos, um ou outro, o destino apontará
É sabido: Jamais estaremos os dois.

Reconhecido o tempo perdido
Cruzadas as horas perfiladas
Forço a razão a acudir-me, de novo,
Nega-se impiedosa
Tomará novo rumo pelas auroras.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Temeroso discorrer tua ausência

Queixo em demasia tuas lacunas
Não concebo indispor tua presença
Não cultivarei somente tuas sobras
No fundo de uma gaveta por amor esqueça

Tenho medo tenho pressa
Sou ansiosa inquieta
Admitias bem antes
Agora aceitas muito mais

Há um temor grande não impetrar
Lidar com a situação hesitar
Eis uma nova etapa
É aqui que dispõe-se outra porta na vida
Vivida por nós - um e dois – a sós

Apreendo-me intimidada
Quando se traz à baila o tempo imperioso
O que perpetrarei em minha temporada
Algo a improvisar nas horas vagas

Nesse momento meu amor
Meu desejo é encontrar-me contigo
Nesse momento meu querido
Agonia-me cobiçá-lo sem senti-lo

Há tempos não vivia algo similar
Um alguém tão próximo a mim
Homem cuidadoso que és a me acalmar
Atinado bem como deveras apaixonado

Há estações vago atravessadamente noites escuras
Trafegando madrugadas embrenhadas
Buscando o porquê do antigo sofrimento
Esqueço

Agora se faz passado
Deixado de lado alongado
Carecidamente finado acurado
Mereço

Peço, não me deixes
Peço, monopolizes a expiação
Peço que alcances a situação
De estar unicamente meio com medo

Trafico: Eu a escrever alucinada
Com a cara quase que lavada
Você a podar plantas a tirar ervas
Fazendo arroz e improvisando a salada

A história acontecerá de forma pacata
Essa que agora teima e contra-ataca
Discrepando do vivido e imaginado
Discordando do passado tão planejado

Queremo-nos um mais que o outro
Não há entusiasmos a aferir
Não há estaturas nem há peso
Menos ainda comedimentos
Há nessa era nossos desejos

Não se chora mais nem se lamenta
Eis meu amor à nossa frente
Um mundo acenando de cara pra gente

Eis meu amor na nossa frente
A vida ofertando-se acabrunhada
Eis meu amor na nossa cabeceira
Mais uma chance límpida transpirada

Faz-se agora imperioso vigiar
Ter acurado cultivar
Com amor amar
Com carinho afagar
Sem pudor descomposturar

Atravessei quase tudo atravanquei por quase todos
O que sinto não me é nada novo
Menos ainda trivial
O que dizer de abjeto ou senão banal

Vejo como raro assisto como belo
Vejo como puro percorro como deleitoso
Algo a viver tão único e tão apetitoso

Toma-me em teus braços
Acolhe-me e aperta-me
Amolga-me enfim
Teu amor a embaraçar em mim

Para perdurar meu querido
Abafa-me em tua astúcia
Em teus braços serenarei na fleuma
Em teus estreitos serei feliz
Viverei calma viverei plena.


Ferdinand by Victor Delacroix