O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Menino Desajeitado

Octopus by Victor Hugo200

O brincar das ondas mortas
O tilintar das marés vazias
Os movimentos soltos, à revelia
Na tua vida, pelos nossos dias.

Por onde andas ó menino desajeitado
Onde se embocou agora, outra vez enganado?
Tudo espero menos que permaneça recatado
Grita e estarei a teu lado.

Por onde andas ó menino atrapalhado
Donde se enfiou, novamente fechado?
Tudo espero até que estejas confuso
Grita e adormecerás ao meu lado.

Há a terra onde pisou brincando com as ondas
E as marés abandonadas todas vazias
O tilintar, os movimentos, aprazias?
Menino tens jeito: Contagia.

Carente, abastado, estatelado
Pequeno, ingrato, mal educado
A vagar sem rumo e sem norte
Passeou pela casa da minha triste sorte.

Por onde andas ó menino calado?
Onde estás nessa noite melancolicamente fria?
Gira correndo pra casa, serás perdoado
Somente tu para embalar os meus dias.

O mangar do alvoroço findou
Entre sons e espíritos desocupados
O abalo solto, finalmente, foi enlaçado
Em nossos caminhos frágeis e eternizados.

sexta-feira, 7 de março de 2008

"Alma Amada - a parte de cá" - Eis, por fim, Tânia



'A parte de lá' by Tânia Barros

"Minh'alma, amad'alma,
que de mundo e desmundo
é coroada!

Que desmundo é este te alumia
a luzir o mundo com tanta galhardia?!"


'A parte de cá' by gill benício

O final (?), 'a parte de cá' by gill benício

Tua amad’alma
De mundo e desmundo coroada
Não te espantes agora, minha senhora. Faz-se hora?
Para aclarar noites sórdidas e acobardadas?

Que desmundo é este que te alumia,
A luzir o mundo em galhardia?
Olhas! Perpetua com brio próprio, aludia
Nosso acanhado desmundo das palavras em melodias.

Outrora, quão infeliz, rudemente estudado
Por fim, depois de tanto rebuscado,
Burila calmo e acalmado: Pobre, jamais coitado.

Caminha seguindo pelos dias
Igrejas,
Altares e
Melancolias.

Colossal, enfim, aquietou-se nos lugares
Não ambiciona durar algazarras
Deseja mesmo é alastrar-se
Embebedando suavemente mentes secas pelos ares.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Peso adocicado - Para ti "iSA bELA"



Estranha qualquer tentativa de elucidar
Estrangeira é a forma desse ensaio
Vê-se imperiosa rápido articular
Não agüenta mais - tão Bela - calar

Há um peso adocicado em suas costas
Não arreda pé posse ou lugar
Atende essa garota orgulhosa
Impedindo-a de notar como o largar

Há um peso adocicado em suas costas
Frente a algo quase não esquecido
Intrusa prerrogativa perdura do passado
Remoendo tantos anos desajustados

É um peso estranho de explicar
É um peso estranho de sentir
Ela o reconhece como um peso adocicado
Sua grande dificuldade: Deixá-lo de lado

Peregrina caminha por sua extensa alameda
Avança a passos longos e compridos
Deleita-se no gosto desgastado - seu paladar
Não descobriu, todavia, como agir como evitar

Procura formas e formas de expulsá-lo
Vê-se arranhando os próprios calcanhares
Equilibrada em suas sandálias de salto alto
Alcança os mínimos e maiores lugares

É o peso adocicado das suas costas
Suplicando, ambicionando continuar
Pela manhã estrondosamente, na sua frente, gritou:
- Irei embora somente à minha hora!

Largou as sandálias e agora pisa na areia molhada
Agatanhou as solas dos pés cândidos delicados
Todavia, não sentiu dor - há até um pequeno rumor
“O peso adocicado tem lá um forasteiro sabor”

Dissimulado, esse danado, não disfarça mais
Intrometido, o velado, nem pede licença
Indiscreto, tal safado, chega a qualquer hora
Arredio desvairado louco a namora

Tornou-se deveras mal-educado
Mantém-se principiando nada gentil
Tampouco guardou o que lhe era afável
Maldição perdeu o doce ar da dor pueril

Cansada bem mais que enamorada
Decidiu resoluta removê-lo – ainda paira certo temor
Precipício abaixo há de arremessá-lo
Aspira vê-lo só, bem longe, devastado

Agarra-o, maneja-o com destreza
Despenhadeiro abaixo o impele – pura certeza
Com a força de mulher madura a execrar
Deseja sua alegre tristeza – por fim - serenar

Nesse momento Isa pisa na calçada
Retrai-se um pouco meio desamparada
Ignora, não pensa, segue abençoada
O peso adocicado transformou-se em nada

Agora persegue acompanhada seu caminho
Apaziguada - atenta - menos desalinho
Forte e serenizada
Tranqüila mais adocicada

Enxerga adiante o mundo que se abre
Abraça-o com energia abstrata
Pede exílio para ela mais o pequenino
Tão senhora, tão exata
Dá partida sossegada.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

"Apagamento II" - Para a amiga Tany por gill benício

Desejar sem aspirar não discorrer
Como carentes indigentes e enamorados
Buscando desesperados somente sobreviver
Por palavras digeridas mastigadas e corroídas

Ler? Não ler nada - sumir
Escrever? Menos ainda - apagar
Cada uma com sua alma salgada
Condenadas ao sol que não despontará

Desatar as cortinas descortinar
Doar sangue - doar vento - ventar
Na ânsia de simplesmente reter os sentidos
Existir, para quê?

Sumir não divagar
Não abrandar menos afastar
Não iludir-se - desesperançar
Dobrar o relógio - despertar

Maldito encanto nosso - doce retiro
Rarefeito puro espanto
Onde me abrigo noite adentro dia afora
Sem pensar na maldita hora

Apavoras-te?
Eu também
Sozinha, cá sem ninguém
Reduzida a nada
Um pouco mais, menos encantada

Saboreio o sal do teu ar
Sou a voz do mundo a te enfrentar
Açoite sólido açoite lírico
Ecoando divinamente devagar
Pairando de qualquer forma
Pairando em qualquer lugar

gill benício

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Perdão para o pai



Não penso mais num ser humano errando
Por intento ou desejo
Ninguém ingressa a errar por aspiração
Seria falta de ciência ou capricho vão.

Faz-se tudo no intuito de acertar
Todavia, o desacerto chega
Sem aviso prévio
Ninguém a comunicar só desarranjar

Dói ter ciência da ausência do nome do teu pai
Na tua certidão de nascimento
O quão difícil deve ter sido
E ainda persiste encoberto o enigma.

Por isso não te desgosto mais
As mágoas se quebraram
De tempos pra cá, posso te asseverar
Com lisura e integridade no coração

Que as angústias espancaram
Nos muros e paredes da minha solidão

Compreendi,
Tomei aviso,
Senti:

Foi o que podias
Foi o que sabias
Foi o vivenciado por ti
Foi o atingido com o pai dos outros

É sabido:

Altercarmo-nos por alguns trocados
O tempo foi incumbido tornando tudo miúdo
Porque não dizer sagaz
Ao mirarmos nossos valiosos filhos de paz.

Releva o padecimento
Perdoa a humilhação
Se puder, esqueça as ofensas
E anistia o quebranto causado.

Do mesmo modo compete a mim:
Fui o sugestionado o recomendado
Porque não dizer o mais cômodo ou indicado
Menos sofisticado o mais iludido lado

Tão arredia em meu casco quebrado
Sem reza nem bênção
Sem graça ou consternação
Fui só mais um alguém
Nós - dois seres miúdos -
Eu e você também.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Por fim, o coração abrandou a razão

'O coração é mais sábio do que a razão...'

Senti aversão ao perceber minha razão
Perturbando, fria e seca,meu coração.
Lembrei-me da história da mulher do pintor
Aquele pintor da arte e do amor,
Ela, um dia sentada na janela, às costas paro o céu,
Mirou-me indagando:

- “Você sabe o que é o amor?
O verdadeiro amor?
Você já amou tanto que se condenaria
À eternidade no inferno?
Perdoa, já vou...".

Não tive réplica
Quase não atingi a pergunta
Amar pra mim, até então, era unicamente amar
Nunca embalara amor às provas mistas da dor.

Conto-te agora:
Não sabia amar até encontrá-lo
Nunca sentira qualquer pesar
Nem lamentara nada, face seca e calada.

Nesse momento chora a alma dos amargurados
Arde o coração dos vivos angustiados
Sabedores da dor da razão
E conhecedores por viverem uma grande paixão.

Quanto a mim, perdi minhas referências
Afastei-me do meio-fio e da ilusão
Inundou-se também minha percepção
Antes, o Amor denominado como certo
Fui obrigada a abortar e
Reconhecer seus manifestos.

Recordo, amei-te mais ainda
Ao ouvir: - Espera, confia, imploro,
Repara, nosso tempo não se perdeu.
Desejo ansioso um filho teu.

Apoquentada, perguntei a meu modo, insegura e rígida:
- Quanto tempo ei de esperar
Acolheremos e impeliremos
Todos os desgostos judiciosos por vir?
A resposta não me apaziguou, fingi.

Bem sei que mentiras, no passado, 'por amor'
Abominei-te severamente impiedosa e cruel
- Inconveniente, covarde e prosaico
Tu, rendido a um preço tão baixo.

Algumas situações a sorte não adota
Menos ainda permite ou consente
Felicidade só conhece amor vindo da pura alma
Somente assim, ao saber, distingui.

Volto a minha questão peculiar
O que fazer do presente
Nossa história, por pouco, não se foi
Largo-me nesse momento, entrego-me a ti
Quase depois da minha hora.

Seguidamente falo-te tensa
Perdoa, bens sabes que não me contenho,
- Amado, receio ir além,
Postar-me, perder-me, aquém.

Essa maldita e perversa insensatez
Talvez me leve à procura – não! Outra vez -
D’um outro alguém. Ninguém?

Temo não suportar o tempo necessitado
Alarmo não ter meus próprios aparatos
Sou pobre, mistura do aqui e agora ,
Mas reponho-me circunda:
- Deixa-me ir embora?

Leva contigo a ciência de ter golpeado bem
Conquistastes teu desejoso bem
Obteve êxito, fez-se o meu homem precioso .

Minha alma arde, alardeia e entoa
Roga calma, paciência a minha pessoa
Meu corpo contrai-se, é puro fogo
Enquanto meus seios nus aspiram tua boca
Vem e apossa-te desse teu ser asilado.

Outra história vou te contar:
Não rias, envergonhar-me-ia
O beijo dito 'roubado'
A ti foi astuciosamente doado!

Não, não amolgarei ou golpearei
Nosso retraído retiro
Nossa luz não escurecerá
Abandonando nosso canto,
Tomando outra direção, tolice, em vão.

Acatada agora minha tola e ingênua alma
Despreza meu acanhado e minúsculo momento
Ausentar-me solidificar-me-ia uma farsa - longe de ti –
Inadequadamente engenhosa.

Quanto à despedida faremos depois
Revogaremos, um ou outro, o destino apontará
É sabido: Jamais estaremos os dois.

Reconhecido o tempo perdido
Cruzadas as horas perfiladas
Forço a razão a acudir-me, de novo,
Nega-se impiedosa
Tomará novo rumo pelas auroras.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Temeroso discorrer tua ausência

Queixo em demasia tuas lacunas
Não concebo indispor tua presença
Não cultivarei somente tuas sobras
No fundo de uma gaveta por amor esqueça

Tenho medo tenho pressa
Sou ansiosa inquieta
Admitias bem antes
Agora aceitas muito mais

Há um temor grande não impetrar
Lidar com a situação hesitar
Eis uma nova etapa
É aqui que dispõe-se outra porta na vida
Vivida por nós - um e dois – a sós

Apreendo-me intimidada
Quando se traz à baila o tempo imperioso
O que perpetrarei em minha temporada
Algo a improvisar nas horas vagas

Nesse momento meu amor
Meu desejo é encontrar-me contigo
Nesse momento meu querido
Agonia-me cobiçá-lo sem senti-lo

Há tempos não vivia algo similar
Um alguém tão próximo a mim
Homem cuidadoso que és a me acalmar
Atinado bem como deveras apaixonado

Há estações vago atravessadamente noites escuras
Trafegando madrugadas embrenhadas
Buscando o porquê do antigo sofrimento
Esqueço

Agora se faz passado
Deixado de lado alongado
Carecidamente finado acurado
Mereço

Peço, não me deixes
Peço, monopolizes a expiação
Peço que alcances a situação
De estar unicamente meio com medo

Trafico: Eu a escrever alucinada
Com a cara quase que lavada
Você a podar plantas a tirar ervas
Fazendo arroz e improvisando a salada

A história acontecerá de forma pacata
Essa que agora teima e contra-ataca
Discrepando do vivido e imaginado
Discordando do passado tão planejado

Queremo-nos um mais que o outro
Não há entusiasmos a aferir
Não há estaturas nem há peso
Menos ainda comedimentos
Há nessa era nossos desejos

Não se chora mais nem se lamenta
Eis meu amor à nossa frente
Um mundo acenando de cara pra gente

Eis meu amor na nossa frente
A vida ofertando-se acabrunhada
Eis meu amor na nossa cabeceira
Mais uma chance límpida transpirada

Faz-se agora imperioso vigiar
Ter acurado cultivar
Com amor amar
Com carinho afagar
Sem pudor descomposturar

Atravessei quase tudo atravanquei por quase todos
O que sinto não me é nada novo
Menos ainda trivial
O que dizer de abjeto ou senão banal

Vejo como raro assisto como belo
Vejo como puro percorro como deleitoso
Algo a viver tão único e tão apetitoso

Toma-me em teus braços
Acolhe-me e aperta-me
Amolga-me enfim
Teu amor a embaraçar em mim

Para perdurar meu querido
Abafa-me em tua astúcia
Em teus braços serenarei na fleuma
Em teus estreitos serei feliz
Viverei calma viverei plena.


Ferdinand by Victor Delacroix

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Vidas Sacadas

Conclui, a duras penas,
Talvez tardias
De que viver é somente ir levando
Seu pequenino dia-a-dia.

Não há de ter fé, menos ainda, esperança
Há de ser desprovido de quaisquer expectativas
Mesmo essas julgadas por vocês como nobres

Como se atrevem a discorrerem sobre nobreza
Diante de tanta miséria perante tanta penúria
Ocultando milhões e milhões de biografias?

Não consideram - faz-se evidente -
O outro a vocês não diz nada
Ou fingem bem, parabéns.

Saiba, disseram-me um dia,
Ser mais fácil ignorar
Sendo assim, senhoras e senhores, mascarados
Misto de regalos enojados
Não me digam nem me apontem
Quais regras devo seguir

Não as quero
Nem mesmo anseio ouvir
Devolvo-as, abraças e siga-as
Tampando o teu coração
Mas, o meu não.

Continuo seguindo minha direção
Nada modifico - vou levando -
Já que a vida
Não me cumprimenta mais, essa danada
Tornou-se mal educada
Também não respondo presença
À sua lista de chamada
Prefiro escarrar na sua cara

Não me perguntem
Não tenho respostas
Quais são os lados quais são as facetas
Oportunas por denominarmos de certas

Aproprio-me das minhas crostas
Lado esquerdo, lado direito enxotados
Pensando bem, até mesmo, mal arranjado

Não me importo
Informo-lhe um pouco apressadamente
Que também não te suporto

Quanto ao que denominas
Tristezas, desgraças e infelicidades
Procure-as nas tendas
Essas que são esticadas
Sob as pontes edificadas
Agora, peço licença
Pra vomitar na tua cara

Queres muito, bem sei, teu ego anseia
Minhas súplicas, minhas solicitações, esqueça
Penando bem, sei que no fundo,
Isso até te alivia, diminui a tua culpa, tardia

Não rogo nada
Serei rápida, darei partida
Não arrazoarei da tua
Menos ainda de outras vidas
Deixadas por ti - esquecidas -

Creia, tenha uma única certeza,
Podes me titular
De louca e completamente desvairada

Enquanto a hora
Não se apresenta
Fumo meus cigarros
São vários, são profusos
Abasteço meus pulmões
Ei-los repletos da mais pura fumaça

Num intento temperamental, nefário, aturdido
Em percorrer o caminho das moradias
Daqueles denominados simples migalhas

Dá-se o encontro
Eis meu canto, talvez, um pouco fingido,
Não me bestifique
Nem me trates feito tola
Não me engano com a tua pessoa
Nem me Iludo com a tua fala

Todos os refúgios apontam-me ninharias
Tuas e também minhas
Então, permito somente à essa teimosa
Continuar buscando
Os leitos de morte dos inúmeros
Dos sofridos e apelidados de ninguém.

Esses mesmos que não têm casa
Não têm comida
O que dizer, então,
De esperança ou expectativa?

Pra terminar, não tente
Nem se atreva, tampouco ouse me doutrinar
Seu maldito hipócrita e fingido

Por isso, todas as vezes que me ofereces
Um copo d’água, bebo-a
E vomito um misto de sangue
No chão da tua abastecida casa

Quanto à minha boca
Limpo-a com ternura – um tanto brava -
Não sou pura menos ainda imaculada
Mas grito, berro e exclamo
Por essas vidas roubadas
Desses cuja a história insana
Não doou nem doa nada.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Sobras

Tens aqui as sobras de um alvo antigo e aspirado
Tens aqui as sobras do aglomerado e vinculado
Tens aqui as sobras do glorificado e brioso e enfatizado
Tens aqui a porção do que permaneceu abotoado em tua goela
Recheando meus casebres e recheando teus casarões
Vasculhando grandes moscas e vasculhando pequenas mansões
Abarrotando latas
Abarrotando latões
Vomitando na cegueira dos que já não vêm quase nada – dói dizer -
Vês aqui o que deixou calado
A ferro e fogo reprimidos
Fechados pela tua existência
Escorraçados e banidos
Parvos e acabrunhados
Tão insignificante, a pó, agora amortizado.

És:

Fogueira na água;
Sombra na pedra e
Sabonete no corpo denso

E, se queres, saber
Tens também
Um pedaço do chão de alguém.

Essa que te fala
Engradada quase calada
Petrificada por pouco não amarrada
Pouco amada meio assombrada
Desaventurada na vida não foi largada
Em pratos desnuda e abençoada.

Eu mesma
Lambendo teus pés
Lavando tuas feridas
Secando tua face e
Buscando teus lábios, ainda.

Teu Interesse Por Mim

Muitas Palavras Palavras Soltas
Nessas Águas Mornas Esfriadas
Molhadas Em Riachos Vazios
Palavras Ditas Palavras Enviesadas

Teu Interesse Por Mim
É Grosseiro Atrevido Obsceno
Teu interesse Por Mim
Fez-se Ínfimo Mesquinho Avarento

Teu Interesse Por Mim
Passa Batido Leva Porrada Sem Pena Sem Ninharia
Teu Interesse Por mim
Não Faz Sentido Algum A Mim

Teu Interesse Por Mim Nada Me Fala
Faz-se Eco No Hall Da Sala De Entrada
É Oração Friamente Entrecortada

Teu Interesse Por Mim Vem Como Bala Invadida
Desvio-a Nos Riachos Paralelos Inflamados
Submissas Acampadas Sem Sentido Desatinadas

Teu Interesse Por Mim
Pra Mim
É Instantâneo Mal Combalido
Perverso Prenúncio Desatento Combatido

Esqueça
Peço Não Te Atrevas
Risca
Rogo Não Te Submetas

Apenas Saia
Por Favor
Agora Talvez Por Amor
Vá Embora.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Pensamento: Asno

"E um dia, a pequena grande senhora daquele vilarejo, perdido ao longo das rodovias, olhou para o pequeno grande homem de sua vida e pensou: Deus meu, era tão inteligente e agora, assim, da noite para o dia, virou um asno. "

Sofrimento Avessado


Com gosto arranco minhas feridas
Boto fora minhas cascas
Boto fora tuas calças, compridas

Junto, segue envio essa capa
Tua tortura encobre os teus desejos
Esse é o teu piegas
Ou senão, maior medo

Ignoro
Faço vista grossa
Uso-a agora
Na tua hora

Minha rouca ou louca redenção
Submetida a tua insinuação
Persegue algo distante
Mediante a azáfama cobiçada - minha mão

Sei que não sou
Somente estou
Aceno
- Olá. Cheguei. Desculpem, já vou.

Não há o que contemporizar
O tempo deverá ajustar
Grande será a vida fortuita
Sei que não veio
Iludo-me de novo - Abençôo
Sei que não virá

De costas mando todo o mundo à merda
De frente, sou gente, mando a puta que ME pariu
De lado sou escrava morta a tesouradas
D’uma dor meramente amargada
Entre as portas abertas
Inabalavelmente escancaradas

Sigo assim
Não me recordo de ter sido feliz
‘Felicidade alimenta a ignorância da alma’
Não me apetece e na fleuma fujo
Vôo para bem longe

Minha couraça é uma fantasia blindada de papel crepom
A cabeça se debate contra os murros nas esquinas
Mesmo assim, meu estômago corrupto ainda assenta pó
Bem como, meu pulmão molhado tende a denunciar
Os maços e maços de cigarros fumados
Numa noite só

Meu cauto precário e raro
Feito de mineral esfumaçado
Leva as últimas lágrimas soltas
Não se ausentam, seguem sem fim
Dessa vez, não mais em mim

No final, penso,transformei-me num quase nada
Sou apenas mais uma fenda recortada
Talvez aquela dona meio embebedada
Pela vida, à ela, monopolizada

Porém, é na palma dessa mão
A estreita veia da minha canção
O que vem – se sim, se não

Sinto pena do tempo
Esse pobre coitado
A perseguir meus passos
Equivocados e desajustados

Reconheço, encontrei nas enxurradas
As pragas obscenas e mal lavadas
A escorrerem no meio fio uma erva danosa
D’entre um coração em pedaços - pena penosa

Enfim, dediquei-me a outro percurso
Sem saber qual foi, menos ainda, qual será
- Minha plena canção bucólica -
Meu acabrunhado e pequeno
Tão intrigado - quieto - lugar

Excluo-o, lembra-te bem, de qualquer passagem
Apresento-lhe meu mais novo recente limiar
Reconstruo quieta o passo - a - passo
Sou eu sim, assim e
Longe de ti hei de ficar.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Choro em vão do meu coração: O pedido que não saiu - Para ti Chamusca

Tive vontade de pedir para que não fosses.

Tive vontade de implorar, não vá, fique, por favor, aqui ao meu lado.

Queria te pedir pra me tirar desse casulo, desse quarto, desse canto onde me estabeleci e passo a maior parte dos meus dias refletindo sem comer, sem dormir, sem saber nada de mim.

Queria que me fizesse um pouco feliz.Sabe felicidade momentânea, espontânea, rica?

Preciso dela. Não há espaço para negligenciá-la agora. Faz-se tarde.

A busca tornou-se exaustiva, estou cansada.

Ao perceber que irias, mesmo tendo alegado chuva, tempestade, vendaval e nada o deteria, roguei a Cristo, roguei à toa.

Fica, por Deus, fica aqui. Preciso de um deus diante de mim.

Que te custa?

Cuida da pipoca, cuido do filme. São cento e oitenta títulos. Decerto ainda não viu algum.

Depois podemos ler abraçados, lado a lado, no tapete encarnado da sala, enquanto nossas bocas se procuram sedentas. Enquanto meus pés resvalam nos teus.

Música? Há de fazer-se ouvir, sem pressa, sem medo, sem receio, sem interferências seguindo a cumplicidade do respeito individual e glorioso do que cada um aprecia.

Adquiri o hábito de interessar-me por aqueles que estão sempre em fuga.

Seja fuga de si que acaba refletindo em mim.

Não me faça pensar que não há saída.

Os meninos? Ah os meninos. Não corres risco algum.

Não me faça crer que nosso porão é oco.

Não me faça acreditar que não valeu a pena, não me faça rastejar, não me maltrates com tua indiferença.

“Deixo-te antes para que não me deixes depois. Sofro menos. Essa é a dor de quem não encara uma partida”.

Tu agüentas, bem sei. Quantas vezes me pus longe e ficastes a esperar sem espanto, sem temores, sem receio.

Nenhuma dúvida a torturar teus pensamentos ingênuos.

A dor do esquecido consome também quem a esqueceu.

A dor do esquecido dilui aquele que a viveu.

A dor do esquecido, meu amor, nesse momento, sou eu.

Assusta-me a rotina do dia-a-dia, logo eu, tão desvinculada desses princípios, tão dona do meu nariz, tão senhora das minhas horas.

Tão desprendida. Mas, sinto, não há como mudar. Não mais agora.

Não vejo como retroceder. Fiz-me assim.

Mas, pensa comigo: Assim me encontrou e quis, assim me conquistou. Assim me perpetuou na tua carne.

Sou como gostas e precisa. Encaixo-me nas tuas medidas.

Sigo amando aquilo que revelastes pra mim...

Confessado,

No filtro amarelo do cigarro Hollywood, quando não Marlboro.

Nu,

Perante a Portela – Enredo de samba – Puro carnaval – Eu a rir de ti.

Cruel,

Perante meus desejos incertos, insaciáveis, translúcidos.

Obcecado,

Nas suas viagens junks tão esporádicas quanto profundas. Obcecado pela minha inteligência. Pelo nosso complemento, pelo nosso composto, pela tequila varando madrugada.

Libertino,

Na medida daquilo que anseio e preciso.

Maltrapilho,

Vestido com um sobretudo rasgado, furtado? Quê importa?

E, maltratado pela violência do perdão que não veio.

Tua presença faz-se mais necessária do que tudo, agora.

Tua presença transforma-se em luz, não te olvida.

Vê? Chega a iluminar aquela casinha, mais precisamente o quarto dos fundos, detrás dos morros esverdeados.Por cima dos fios dos postes perdidos.

Tua ausência é você atravessado, sobreposto a mim.

Tua presença é poder revelar, não esconder a minha existência.

E fazer com que tu me enxergues.

Estou aqui, olha, sou eu, anunciando-me pra ti.

O que fiz para merecer tal sentença?

Se eu fosse diferente tu não me quererias.

Se eu fosse diferente jamais despertaria tua curiosidade ou interesse.

Se eu fosse diferente teu amor não me abarcaria.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Luiza Laura e Laurinda



Encontro-me com ela
Pequeno começo estabeleço
Um momento a sós – só nosso -
Junto à esquina daquele farol
Brigadeiro com Consolação.

" Tamanha indiscrição a sua
Meta-se com tua vida
Prurida fantasia modesta e fria
Pequena prolongada
Nada refinada."

Bota medo, bem sei
Àqueles que ainda não foram
Correm o risco de perderem-se
Pelas vilas lidas ladainhas.

- Ignora,
Típico de gente
Bem gentinha
Quase um nada
Um nadinha.

Encontro-me com ela
Estabelecemos outro momento – só nosso -
Eu a pedir - Roga por ti
Quanto a mim, esqueça
O momento abençoado é todo teu
Trague-o

Por mim não desafies nenhum rancor
Não atormente
Nem transforme
Veste-se de seu minúsculo pudor.

Diferente do começo, lembro bem
Principiou tão curiosa quanto banal
Na cara espelhava
Transtorno ventania vendaval

-Mas é ela quem se levanta
À noite, pra fazer o mal?

- Que mal?
Por isso deixou-a assim,
Perplexa, sozinha amedrontada
Numa rua pequena encruzilhada
Maleta em punho empunhada?

Saiba, foi naquele momento
Viu-se inteira
Aos pés do chão abandonada
Diferente dos becos das tuas ruelas
Desafiando teus ecos pela goela

Alegoria de gente,
Bem gentinha
Chorando calada sozinha
Sem pensar em melhorar
Ser melhorzinha.

Nesse momento
Dói-lhe a barriga a cabeça
Suas mãos denunciam medo
Os pés estão úmidos gelados
Grudados ao lado do pequeno coração roubado.

Mas é na garganta da minha canção
Que te vejo na contramão
Diriam, tens aí uma canção vestida
Encontrada justamente pela menina desavisada
Durante sua estreita estadia.

Novo encontro estabelecem
Fez-se outro momento a sós - mais um entre nós -
Melhor se comparado aos outros
Outrora denunciados
Há até um pequeno luar na saia bem guardado.

Viu-se na tua lua esbranquiçada
De pó empoeirada
De calma acalmada
De azul bem azulada.

Fizeram-na podre sem calor
Teimosa em adormecer durante o dia
E acordar somente nas madrugadas

Recorda-te,
Em minhas mãos permeiam suas mãos vazias.
Roga perdão
- Implora ao teu coração!

Mais uma vez elas se encontram
Novo momento - outro a sós -
Duas confusas, tal como nós.

- Cuida,
Há vômito na geladeira
De pó tanta poeira

- Repara,
Recebestes um luar esbranquiçado
A ti todo doado
Enquanto não me acostumo
Eu retardo.

Sei que mereço menos do que já faz
Mas há espaço
Doa-te um pouco mais.

Com tua lua luazinha - branca esbranquiçadinha
De calor acalorada
De medo amedrontada
De branco enviesado
Eu? Louvo o preto ao cinza avivado.

Teu pequeno medo tornou-se desajustado
Transformou-se em choro desavergonhado
Chora bem
Chora calado
Choro imundo
Empoeirado.

Lá, na beira, mar estiva tua dor
Por pouco, quase nada,
Não te dou outro valor.

Por menos, fiz-me sozinha
Correndo pelas calçadas
Os pés descalços
As havaianas largadas.

Imploro teu ponto final
Abono o momento abjeto
Soubesse, juro,
Percorria contigo outro trajeto.

- Mas e dela, alguém ainda se lembra?

Perdeu-se, foi embora
Levou as sobras mal agouradas
Roga paz recebe nada
Pede amor simulam paixão

Quanto a mim penso em suicídio
Por outro lado, hei de confessar,
Por ela morreria sem nada carregar
Só assim ,entre nós, outro momento haveria.

Mas,é em teu destino que ela se faz febril...

- Agora não!
Cala
Ouve a poesia - pequeno regalo -
Atirado na sala pelo hall de entrada.

Pelas brechas ainda te vejo rodopiar
Rodopias curto bem devagar
Pena, a partir desse momento não te vejo mais
Acabou, maltratastes minha imunda paz.

Dividida fico eu como miolo de jornal
Nado na chuva desavergonhada
Procuro um caminho seco
Mas só vejo o da frente largueado

A neblina? Tempestade baixou
Abriga-me e pensa
Encara tua efêmera dor?

A mim, sei, doaria um coração embalsamado
De desapego desapegado
Não anseie galanteios, não por hora,
Esse momento é dessa senhora.

Mesmo sem alimento e sem cozinha
Ainda é de cata-vento
- Venta a vadia -
Agora, menos enjaulada

É noite, não parou de dia
- Vai menina
Descansa sossegada
Fico a espiar tuas passadas
Ouço ranger os dentes, confusa

Faço deles suave melodia
A parte que faltava
Da minha biografia não autorizada.

- Ei-lo
Está morto
Decompôs-se
Puro desgosto

Ao acordar
Levanta-te logo
Procura tua cama
Mamãe aflita cedo te chama
Em desespero há de gritar
- Levaram teu corpo
Não se sabe ainda quem.

Novamente sozinha
Procuro um outro raro e velho bem
- Ei-lo
Morto amortecido
Quieto encarecido
Feito anjo louro endiabrado.

Resta agora seu som sobre o meu
Essa, já não sou mais eu
Fiz-me alvo de ninguém.
Tornei-me refém.

- Ei-la
Está viva e embalada
Pela preguiça amparada
Despida e embebida
Coitada, rechaça.

Rezou,
Chorou,
Cremou o corpo nu
Disso tudo fez um culto.

Jaz morto,
Não alivia dor
De quem nasceu atravessado
De lado, quase um finado,
Digno como qualquer outro rejeitado.

- Espera,
Não terminei
Cuspiu no retrato da própria filha
À sua propriedade agora reduzida.

Nada mais a abala
Segue quieta perante a ida
Alcançou
Com laço laçou
Arrematou
Apoderou-se
De sua corrente sangüínea.

Como és bela,
Melhor, fez-se linda!

Conto: A playboy da Sheila Carvalho

Táva os três largadão no quintal da casa do Juca quando o Afonso - isso é nome de adolescente? – Sacou de puxar história pra gente rir um pouco.

Não tinha mais as bitucas do cigarro do pai, o véio sacou que eu tava limpando cinzeiro com o beiço, começou a jogar na privada. Não tinha nada pra beber, adolescente precisa de manguá.

Porra, meu, não tô vendo nem Ki-suco... É foda, viu?

Juca saiu com essa:

- Então conta daquela vez que o teu tio Af (Afonso) se mijou no metrô.

- Nem ôh... O coitado tá mau pra caralho... Fala aí de quando cê cagou na Calça, Elvis (Elvis sou eu, o próprio). Minha mãe fez o favor de me abençoar - ela fala que abençoou - com esse nome, nunca perguntou pro meu pai. Os dois se bicam até hoje porque ele não curtia o som do cara – nem sei qual é óh – E a safada – da minha mãe - não pensou que eu ia ser gozado pra caralho na escola, no futi e pagar mó mico com as mina. É foda, viu?

– Conto e daí, tenho vergonha não, óh...
Vamo lá: Juntei a grana do lanche pra comprar a revista. Demorou pra caralho. Seu Vicente, o da banca, liberou. Fui felizão pra casa.

- Deitei cedo, nem esperei terminar a bosta da novela – minha mãe é quem gosta - quer que a gente assista tudo junto – É foda, viu?

- Subi, escovei os dentes, troquei a roupa e peguei a Sheila, oh mulherão, tá louco, não tem pra ninguém...

- Deitei todo feliz, pronto pá dá uma boa gozada, sujar até o lustre, depois limpava.
Af interrompeu pedindo o final.

- Se liga oh Af deixa ele contar...

- To com as cueca no joelho, preparadão, é foda, viu? Ela entra... Enfiei a Sheila na bunda, sentei nela. Esqueci a porra da porta aberta... É foda, viu?

– Filho você subiu antes, está tudo bem?

- Tô com sono (se manda, oh, mãe...).

- Pode ser virose. Vou tirar a febre – nem eu me ligo mano que ela ainda faz isso – É foda, viu? Pegou a porra do termômetro no banheiro, voltou.

- Pensei: Se eu abaixar o cobertor ela vai vê que a cueca tá pra baixo...
Nem pensei duas vezes... Ela chegando eu soltei um puta fedorento, mano, a vizinhança toda sentiu, ela, então, deu meia volta e saiu rapidinho a intrusa:

- “Já volto, isso são modos?”.

Foi o tempo deu acomodar a Sheila na bunda, esconder bem, deitar nela e, É foda, viu? vi que o fedorento soltou mais que barulho soltou bosta e ainda na cara da Sheila, puta mano que que é isso mano, deu mó nojo, peguei o saco do lixo – sorte que tava vazio – enfiei a Sheila com a bosta e joguei pela janela.

- Agora é que é...

- Quer ouvir Juca? O mulamba do cachorro da vizinha olhou pro saco, pegou o saco, rasgou e saiu com a Sheila de merda latindo feito doido.

- Ela voltou e foi ver a barulhada da janela.

- Ué, que será que o Dong tem? Tá parecendo doido com papel na boca, girando pra lá e pra cá.
- Sei não... – É Foda, viu?

O puto do dono bateu lá embaixo, o pai reclamou e abriu, o puto do dono do Dong me viu jogar e foi falar com a mãe. Tava fudido. – Nem tinha conseguido tirar a Sheila da boca do cachorro – maldito dono – pior o cachorro.

Dono e Dong: - Dona Ana, eu vi, foi seu filho...

- Não seu Alfredo. O que é isso?

- ‘Que é isso’ foi o Dong latindo e mandando a revista pra testa da mãe.

Carimbão de merda. Fudeu geral.

- Nem vi mais nada. Subi rapidão... Falou que passou mó vergonha e eu tinha que ter um castigo adequado – falou assim mesmo – um mês sem dinheiro pro lanche, sem vídeo-game e sem playboy pra dar uma pimba sozinho... Ah, bosta de história. O Juca tua mãe saiu, pô, pega umas breja do teu pai lá pra gente.

Juca voltou com três latinhas de Brahma – tiradas do freezer, geladas!

- Adolescente é essa bosta, né: Fuma bituca do pai, bebe cerveja do pai dos outros e se fode porque precisa dar uma pimba. Não vejo a hora de sair dessa porra.

- De onde, que porra? Af, o lerdo perdido.

- Porra da adolescência, pô... É foda, viu?

domingo, 6 de janeiro de 2008

Conto: A Consulta

Recolhida no canto direito da cama sentiu seu corpo emitindo ondas de choque. Precisava ir ao banheiro instalado a uns seis passos dali, porém, acovardada, não ousava.

Temia que ao se levantar a agitação física - inoportuna e intrusa - aumentasse levando-a de encontro ao belo tapete branco estendido sob o piso de madeira.

De raiva iniciou nos dedos dos pés uma compressão rancorosa apertando-os com tanta força o que favorecia a cabeceira da cama se debater contra a parede num barulho agudo e irritante.

- Maldição - balbuciou.

Essa foi sua primeira palavra do dia e de horror àquela situação, bem como a todo o restante que estava por vir.

Num exercício frenético pôs-se a segurar a urina, contraindo, ao máximo, o abdômen. O medo sobrepunha à vontade de urinar. Por outro lado sentia a bexiga prestes a alagar o colchão e ainda exalar um odor asqueroso emporcalhando sua última muda de lençóis.

- Era só o que faltava - pensou em voz alta - repelindo a idéia de molhar-se toda ali mesmo.

Atentou novamente para seu pensamento. Aquietou-se: Havia necessidade de se concentrar em outra coisa - não sabia o quê – isso lhe daria um pouco mais de tempo até o primeiro comprimido do dia fazer efeito e conduzi-lá ao toalete.

Ingerira-o há quase quarenta minutos tempo suficiente para manifestar-se, todavia nada. O frenesi insano persistia, percorrendo cabeça, barriga, braços, pernas e pés.

Ocorreu enfiar outra cápsula goela abaixo. Bastava abrir a gavetinha do criado-mudo acertar a embalagem e pimba.

Sua garrafinha d' água, verdadeira e fiel companheira, tanto dela quanto do criado, estava a postos facilitando a intenção de apoderar-se da segunda pílula.

- Maldição - retornou a palavra num sussurro.

O desejo de expelir a água amarelada misturava-se agora a necessidade de dar vazão aos alimentos sólidos ingeridos no dia anterior.

Como de costume comera pouco, mas mesmo esse pouco buscava uma forma de desprender-se de seu organismo.

Mijar já não era prioridade. Inundar os lençóis transformara-se em algo pequeno perante a infeliz coincidência, comumente, denominada de 'Tipo Dois'.

Estranhava não falar cagar ou defecar. Considerava as palavras feias além de remetê-la ao que via na privada antes de puxar a descarga.

Quanto à expressão cocô jamais: NEM EM PENSAMENTO.

– Gargalhou, imaginando: - Adultos fazendo cocô. Adultos infantilizados. Adultos dementes. Adultos em-merdados.

Assim, num determinado momento da vida, não sabia mais qual, optou por utilizar a expressão ‘tipo dois’.

Obviamente só mencionava caso alguém lhe perguntasse o porquê da demora, mesmo considerando tamanha indiscrição acrescida de falta de educação.

-Tipo dois. (Filho d’uma puta curioso).

Deu um suspiro infundado e dirigiu os olhos ao criado. Foi quando percebeu que os choques haviam parado.

Enfiou-se, agora, num outro exercício de dúvida e questionamento: Conhecedora de seu organismo acreditava que ao colocar-se em pé voltaria a senti-los.

- Maldição!

Deu de cara com sua descrença. Suspeitava do corpo como quem suspeita da existência de um ser maior, sim, na mesma medida e proporção.

Passara por situações constrangedoras, não poderia desconsiderá-las a ponto de confiar num primeiro recado físico.

Decidiu-se pela segunda drágea. Melhor certificar-se por completo.

O pensamento na drágea fê-la desprezar, por segundos, a praga da urina e o infortúnio 'Tipo Dois'.

Voltou a perceber a desventura física quando o intestino enviou sinais mais agressivos, por meio de sons estrondosos, vazados pela barriga.

Assentou-se e abrigou-se nos travesseiros encostados na cabeceira da mísera cama barulhenta.

Foi quando experimentou a sensação de ter um buraco no estômago, é como um vão, não, enfureceu:

- Fome!

O suspiro, agora engasgado, apresentou-se novamente numa atitude de total reprovação às necessidades biológicas.

Todavia, considerou: - Se os choques haviam findado – a posição sentada confirmava - era o momento de aproveitar e fazer tudo que a apoquentava:

- Mijar, cagar e comer (nessa seqüência).

Pensou novamente na merda. Não lidava tranqüilamente com a idéia de todos os dias, numa típica via sacra anal, ter mais essa obrigação de caráter intestinal. Infeliz. O organismo, prá lá de fraco, presenteou-a com uma diarréia constante, fazendo com que a água do vaso sanitário não alcançasse os espirros jorrados debaixo da tampa.

Enfim, era MERDA sobre M E R D A!

Olhou novamente o criado e furtivamente abriu a gavetinha. Acertou de primeira. Retirou o comprimido e apropriou-se, claro, de mais uma dúvida:

- Um ou dois? – Pergunta implexa.

Como medida de precaução e resposta à questão optou por ingerir dois, desviando qualquer possibilidade das sensações físicas voltarem a atormentá-la. No total, somariam três comprimidos ingeridos em menos de uma hora o que certamente poderia levá-la a uma outra grandiosa e definitiva MERDA!

Glub, glub.

Voltou à posição anterior. Cobriu-se nervosamente com o edredom de malha vermelho, companheiro diário e fiel, escorregou o corpo na cama alternando o costumeiro.

Pôs-se a contemplar a parede branca, rente a porta, ansiosa por colorir. Saboreou um gosto levemente salgado nos lábios. Mecanicamente, lambeu-os.

Adormeceu devaneando num arco íris imaginando qual cor a parede acolheria melhor. Sonhou com um verde-água, cor de mar muito sereno, quando ambiciona seduzir alguém:

- Verde água. Decisão tomada.Feng shui rejeitado.

Com tanto pensamento envolto em tanta merda, não poderia ser diferente, perdeu o horário da consulta.

Melhor assim: Já estava cansada daquele repeteco semanal e de todo o blá blá blá Freudiano.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Pensamento: Eu?



Ando meio cansada de ser quem deveria, tenho sido o que esperam de mim, não quem realmente sou.

Cegos. Não percebem quanto sofrimento já me causaram?

Infiltraram-no facilmente em minhas veias, agora quero saber quem vai remover.

Sou fraca. Disponho-me a ser o que desejam.

Trato minha personalidade de forma leviana.

Não sou digna de possuí-la. Engano-a.

Essa é a vida a qual me acostumei.

Será sempre esse o meu caminho?

Espero que a morte me acolha e me embale.

Somente ela poderá me devolver a quem sou.

Resposta (em tempo)

Ontem, miseravelmente, aflita e agoniada
Buscava o revide, implorava um contra-ataque
Por essa alma maldita – imposta-me por um alguém - não sei quem -
Indicando-me passagens minúsculas e perigosas
Pelas madrugadas gélidas e enevoadas

- É esse o preço a pagar?

(Perguntei mesquinhamente dorida)

- Esse mundo a mim foi aludido
Encontra-se pobre e desamparado
Um misto de estilhaços podres entrecortados
Não vê? Fizestes um mundo apartado
Perderam-no sozinho e tristonho
Hoje, responde por Renegado
Ouve! Ainda há dúvidas soltas e espalhadas
Simploriamente deixadas de um outro lado

Foi quando zuniu:

“- Eis os fragmentos e as sobras
Os restos das vias e das valas
Enlaça tuas regalias - serão somente essas -
Não espera mais nada”

- Mas logo eu
Um ser tão diminuto
Ausente de fé religião parentesco ocupação
Batizaram-me ponto confuso
Denominam-me frágil e carente
Além, de deveras doente

Caí sobre a cama

(Infame é a pergunta que não cala!)

- É esse o preço a pagar?
Por desfrutar dos brados alheios
Suplícios que nem são meus - doeu -
Por comprazer-me em páginas vazias
Pautadas e, a mim, destinadas

- Que esperas de mim?

(Antes, por favor, dá-me um copo d’ água!)

Mais próximo ecoou:

“- Às vezes resposta não vem
Pode acontecer de vir devagar
Pensas que não as tem
Por não existirem
Quão indolente tu és - saiba, conheço-te bem!
Resposta espera hora e
Merece lugar.”

Nesse momento rente ao final
Uma senhora idosa e intrusa
Pairou na minha frente e ecoou quase inaudível – pude escutar –

“- Tola não há valor
Tola não se avalia
Carrega contigo o que é teu
Não te ausentes
Nem mascare a tua dor!”

(Apressei em perguntar)

- Vó!?

Arregalei-me diante de seus olhos negros e úmidos
Fitando-me através dos meus bem encharcados
Acuados porém, despojadamente, não desviados

A idosa e intrusa fincou pé, não arredou
Espaçou-se diante de mim
Então, num gesto longo e acalorado, acudiu-me

(Eu sorvida aos pés de um momento tão vil quanto ordinário)

Ao minha face secar
Desfrutei de seu afeto plácido e delicado
Em seguida ela, grandiosa, meus cabelos, pôs-se a embaraçar

(Suspeitei, claro, sou feita de dúvidas!)

- Logo eu acarinhada?
Essa a quem chamam desnorteada
Afligem-se só com o meu formato
Quieto, calado e apaziguado

Foi quando em obediência a seu mandado
Repousei minha cabeça sobre seu colo e
Adormeci quieta, retraída e amparada


Hoje, dentre a manhã ensolarada
Alguém gritou, do lado de lá, da minha calçada

(Sórdida e levianamente banalizada)

“-Toma!
Não era esse o momento postulado
Vem e aprazia-te
Eis - em minhas mãos - tua resposta
Agora segue teu caminho
Não te afugentes
Compõe-se eficaz
Assenta-te e varre o mundo
A ti, miseravelmente, ofertado
E, ao mesmo tempo, carecidamente sangrado”.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Conto: Invisível



Enfim, chegara o dia.

Como de costume, o despertador soou às cinco da manhã.

Passara vinte e três anos da vida acordando ao mesmo barulho, emitido pelo mesmo relógio. Salvo, quando um dos filhos, ainda pequeno, recorria febril ao seu colo, numa madrugada qualquer e ainda sem luz, pondo-a de pé, intranqüila e pensativa.

Os pensamentos a espezinhavam com freqüência. Tinha consciência de que viveria sempre sobre aquelas mesmas circunstâncias.

(Pena, o som emitido pelo relógio estava longe de ser uma melodia!).

Lembrou-se de quando, juntos, foram comprar o aparelho.

Ela, no desejo de conhecer o valor da felicidade, sugeriu que não fosse convencional, desses de trimmm. Porém, ao sentir seu olhar de soslaio, meio sorrateiro, entendeu qual era a resposta.

Entendeu também que diálogo não seria habitual a eles.

Foi aí que deu de cara com o que a vida lhe abençoou:

Um casamento onde sua voz não ecoaria.

Um casamento onde nem mesmo teria voz.

O resto de esperança, por uma vida em harmonia, evadiu-se de forma árdua e completa.

O ferrenho momento denunciou os anos por vir. Concluiu cedo que o sabor do novo permaneceria longe de seus sonhos e desejos.

Considerou assustador o que um instante pequeno e miúdo é capaz de mostrar.

Encolhida e diminuta aceitou, resignadamente, o que a vida lhe doou.

Mecanicamente desligou seu tic-tac rotineiro e astucioso.

Sentou-se na cama e estendeu o braço direito até alcançar o penhoar. Esse, não era o mesmo, como o despertador. Mas, sim, o segundo. Acompanhava por uns nove anos.

Recebera-o em forma de presente, num natal.Vindo dele soou um verdadeiro ato de caridade.

Surpreendeu-se: Seu marido nascera embalado pelo pecado da avareza.Uma avareza fria e contundente.

Desembrulhou o pacote e agradou-se ao dar de cara com o tamanho "M".

Conservara o mesmo tamanho, não o mesmo corpo, mas o ‘eme’ ainda lhe cabia bem.

Com seu penhoar "M", em mãos, agradeceu,cabeça baixa,evitando seus olhos alcançarem os dele.

Cobriu-se.

Arrastou os chinelos aos pés. Permaneceu sentada enquanto recapitulou a programação do dia.

Foi quando, fortemente, seus olhos se contraíram numa demonstração de apoio.

Ao passar pelo banheiro escovou os dentes meio encardidos. Não por tabaco. Largara-o há tempos.Mas, talvez, por nunca haver consultado um especialista.

Lembrou de que pedira. Pedido negado e rejeitado.

Depositou-o num canto da memória.Esqueceu.

Do altar de sua própria enjeição questionava como se submetera àquela vida. Sem respostas, desviava as perguntas teimando em torturá-la.

Secou o rosto, numa toalha branca bordada por suas mãos, e fitou sua imagem no espelho.Esse, incólume, quieto, calado e nada amigável.

Reconheceu a forma bruta que o tempo dedicou para marcá-la.

Fitou seus próprios olhos com força e um resto de coragem.

Encontrou-os sem brilho. Vazios. Deparando-se com a profundidade, pensou ser oriunda do cansaço.

Ao analisar as linhas tortas contornando as pálpebras, fez-se de indiferente.

Havia ali uma expressão agoniada e emudecida.

Um presente da vida pelos anos vividos sob aquelas circunstâncias. Presente doado em ritmo lento e cruel.

Pôs-se a avaliar a boca. Não gostava dos lábios. Eram, por demais,finos e tracejados, bem como desprovidos de carne.

O tom quase bege, como a pele, reforçava mais os dentes amarelados.

Assustou-se ao lembrar que sua boca já fora de num tom rosa claro.

Os molares apresentavam-se inclinados, meio tortos, além de contarem com uma pequena abertura em ‘v’ de cabeça pra baixo, bem no centro da arcada superior.

Incomodada, desviou a face e, quase com raiva, escovou os cabelos.

Prendeu-os.

Dirigiu-se à escada rumo à cozinha. Lugar esse onde passara mais da metade do tempo enfurnada, numa ânsia sem precedentes, de agradar a todos.

Ajeitou a mesa do café.

Coou o pó em água pelando, despejou no bule de alumínio escurecido e deixou sobre a pia.

Fatiou o pão feito na noite anterior tão habilmente instaloundo-o ao centro da mesa.

Margarina, requeijão, a sobra do bolo que daria de sobra para todos, leite, o quê mais? Nada. Café posto.

Cinco lugares. Não durante todos aqueles anos, e, sim, ao longo deles. Contara com bons intervalos de tempo na idade dos filhos o que denunciava, claramente,a ausência de carícias.

Deu de ombros. Tarde demais pra pensar sobre aquilo. Tarde demais para
pensar sobre qualquer coisa. Sua cabeça agora abrigava apenas a agenda do dia.

Começou a arrumação pelos quartos.

Roupas e sapatos, largados no chão, retornaram aos seus lugares.

Camas forradas precisamente na primeira estirada dos lençóis que também haviam sido feitos por ela, na época, um lindo linho branco e, hoje, marfim escurecido.

Na sala recolheu um prato de sobremesa largado na noite anterior na mesa central.

Devolveu almofadas ao sofá e passou um pano úmido nas mesinhas laterais (bonitas as mesinhas com vasinhos de flores violeta), retirando o pó que teimava em visitá-la, dia após dia.

Ao abrir a cortina um sol vermelho cerrou-lhe os olhos. Virou-se e deparou com um par de chinelos esquecidos na beirada esquerda da poltrona.Eram Os chinelos dele.

Pôs-se escada acima para despejar as sandálias, afinal já havia acontecido de deixá-los ali e ler, num único olhar, a total desaprovação ao seu ofício de dona-de-casa.

Repentinamente parou num dos degraus e fez o caminho de volta. Largou os malditos no mesmo lugar.

Caminhou até o tanque.

Esfregou, ensaboou, pôs pra quarar, enxaguou, torceu e estendeu.

Não contava com máquina de lavar. (Coisa supérflua para quem fica o dia todo em casa ).

Arrepiou-se ao perceber o quão tinha se acostumado ao hábito diário da concordância e da mudez. Da palavra presa e engolida as secas.

Café, almoço, lanche, jantar, ou qualquer outra coisa, tudo sempre ao gosto dele, dia após dia.

O mais dorido, entretanto, foi constatar sua invisibilidade. Não se fazia ver aos olhos e coração dos que moravam ali. Usavam seus serviços, afinal era sua obrigação e saíam sem nem mesmo se despedirem.

Deu de ombros.

Apreciava esse gesto. Sentia-o como se simbolizasse que nada a incomodava. Mas, um suspiro baixo, denunciou a leve mentira.

Caprichosamente lavou a louça. Limpou o fogão com um pano seco e sem sabão. Sim, sem sabão! Sentiu-se atrevida. Esboçou um sorriso lateral que não saiu por falta de hábito.

Mesa forrada, fruteira no devido lugar e a tampa do fogão abaixada denunciavam que não haveria almoço naquele dia.

Carecia ir ao quarto antes que alguém chegasse. Era quase hora.

Passou os olhos pelos cantos da cozinha, reparou no hall de entrada com suas fotografias abandonadas pelas paredes.

Olhando a sala concluiu que era acinzentada mesmo quando um sol avermelhado despontava por entre as brechas da janela, sob a cortina em voil cru.

Subiu.

No topo das escadas, num semi-giro, espiou o quarto da filha mais nova. Somente essa recordação queria ao seu lado.

Mais alguns passos e assentou em sua cama.

De improviso, resolveu alterar uma parte do plano.

Foi até o quarto da moça e sentada diante da penteadeira passou pó, blush, rímel e batom cor de cereja.(Bem bonito o batom).

Novamente aquele sorriso lateral não saiu.Mas, sentiu-se ousada, após tantos anos, apropriou-se de um pequeno atrevimento estético.

(O tom cereja afastara os equívocos cometidos pelo blush e rímel).

Guardou-os e levantou.

Deu de cara com sua imagem no espelho grande da porta do armário. Então resolveu trocar de roupa. Mudanças no plano.

De volta, abriu o baú, que que abrigava fronhas e lençóis. Do do fundo sacou um embrulho meio marrom, que pareceu ter sido cuidadosamente guardado. Vestiu-se de um belo azul celeste. Decote pudico, em v.

O colo arredondado e livre de sardas surgiu. Pode concluir, tardiamente, como era vistoso.

Enfiou a meia-calça de seda preta pernas acima.Calçou os sapatos também pretos de salto médio e retornou ao quarto da filha.

Desejava se ver por inteira.

Fê-lo no espelho grande. O sorriso de canto quase saiu. Quase.

Do gabinete do banheiro amarelo, escondido atrás de um nada profundo, tirou da última gaveta, por sinal meio emperrada, um pacote miúdo.

Olhou a gaveta com certa tristeza. Gaveta abandonada.

Na cama acendeu o cigarro de filtro amarelo e fumou. O primeiro trago a pôs ligeiramente emaranhada, tão desacostumada que estava ao gosto da nicotina.

Logo ondas de fumaça distribuíram os pensamentos restantes e perdios pelo ar.


Tragou até a bituca que foi eliminada pela água da privada.

Não se preocupou com o odor exalado. Não agora. Não mais.

Do criado, retirou a Bíblia Sagrada. Sentiu as mãos tremeram em demasia como se fossem uma centrífuga (a enxuga-lher a alma).

Também da Bíblia retirou uma sacolinha branca, dessas de supermercado.Estava bem dobrada em formato de pequenos quadrados.

Sacudiu-a no espaço para que o ar se alastrasse por completo e transformasse em algo parecido com uma bexiga, é, dessas, que criança gosta.

Bruscamente meteu o plástico na cabeça. Certificou-se de estar bem ajustado.

Deu um nó cego usando um pedaço de pano grosso, previamente cortado.Chegou a assustar-se com sua força, mas foi essa, que pôs de lado, quaisquer possibilidades de recuo.

Enfim, deu-se por feliz ao concluir que não haveria por onde entrar uma brisa qualquer.

Sentiu um leve medo. Leve e passageiro.

Uma respiração sôfrega tomou conta da boca e das narinas.

Agitou-se num movimento que pareceu ensaiado - mãos, braços, joelhos, pernas e pés - enquanto o ar percorria seu caminho de ida.

Bruscamente, o corpo se deparou com o chão.

Vieram oscilações físicas - como uma coreografia desarranjada.A dança intensificou-se para que o corpo pudesse se debater num ritmo mais desesperado.

E repousou, mais acomodado, no chão de tábuas corridas.

Subitamente o barulho da madeira parou por completo.

Fez-se silêncio total.

Conto: Visitei o Dingo (O amigo escroto e nojento do PC)

E fui. Fui mesmo.

Descendo do carro reparei na movimentação das pessoas, gente pra caramba. A Mulherada numa estica semi-burguesa, fase pré-concordata, (nunca entendi porque rico não sabe se vestir), porém alinhadíssimas no quesito preço inclusive as bregas, porque brega também pode ser rico e rico, normalmente, é brega. Believe-me.

Isso sem contar a quantidade de homens engravatados, calvos, barrigudos, certamente com uma boa dose de pelanca escondida sob a roupa, sessentões e cara de tarados.

A casa (casa? bobinha) a mansão, muito bem situada nas ruas verdes dos Jardins, dita zona nobre da ‘cidade da garoa’ como disse alguém (sorry, não lembro quem), um dia.

Do portão principal vi a piscina me indicando o hall de entrada, esse me indicava a sala principal, bela arquitetura, neoclássica. Bela indicação.

- Classe média alta pomposa-burguesa-metida-do-cacete, falei. Só pra eu ouvir, claro.

Reunia-se ali a sobra dos filhos da puta donos do dinheiro que reside (a grana), em São Paulo, e esfrega, dia-a-dia, com luva de pelica, na cara de tudo quanto é pobre. E pobre, a gente sabe, que é tudo fudido.

Típicos viados, sabe, desses que quando param seus carrões importados em farol vermelho e criança pede trocado não dá porque considera errado, causa e conseqüência, mais um monte de blá blá blá. Tenha santa paciência.

Meu comportamento pré-assustado apresentou-se rapidinho. Gente demais. Não vou. Eu? E pensei alto, pois no pensamento consigo alcançar outro tom:

- Fudeu!

Tenho medo de gente. Gente me assusta. Gente olha pra gente com cara de que sempre, a qualquer momento, perguntará algo. E, eu na minha ansiedade pré-precoce, já me ponho a articular mentalmente uma resposta para uma pergunta que não faço idéia qual será, menos ainda se virá.

- Insana.

O frio na barriga compareceu pra auxiliar no comportamento pré-assustado, só em me imaginar rodeando a piscina, inevitável, para alcançar o hall.

Bom, o negócio era sair de mansinho. (Bem covarde, sabe?) - Ninguém repararia. Manguaceiro metido a besta tem classe. Eu não ouviria:

- Ei. (Eu?)

- Nem chegou e já vai?

Eita ‘frasesinha’ ordinária. Frase de pobre. Inventada por um pobre num churrasco de sabadão à tarde com pagode rolando solto e todos os mané de olho no bando de bundas i-g-u-a-i-z-i-n-h-as, tal e qual, rebolando igual cachorro labrador se tivesse fumado crack.

Do nada, a covarde aqui (eu) teve um estalo:

- Já que estava ali, vestida pra ocasião (caprichei), parada, imóvel e imune, covarde e calada (falando somente comigo, bem baixinho, porque também tenho medo de falar com gente), entraria.

Daria a olhada pró-forme no já-já-serei-defunto e, de quebra, entornaria, free, uma vodka da boa. Dessas que só se toma de três em três anos porque tem amigo de amigo morrendo, percebe?

Como há tempos não bebia algo decente, prontamente a ocasião encontrou o local:

- Ia tirar a goela da miséria.

30/12/2007 18:57:12

Na entrada da porta principal, uma velhota de cabelinho meio ralo cor de nuvem e carteira dourada na mão (bem brega a carteira dourada), disse-me algo que não ouvi e, se não tinha ouvido, sabia direitinho o que fazer: Fingir que não era comigo e me m a n d a r!

- Covarde, surda e fingida.

O certo (Maria Madalena Certinha da Vida), seria:

Antes de bebericar a cobiçada vodka, dar uma olhada no futuro defunto, afinal esse foi o motivo que me instaurou ali. Falaria um oi sem graça e amarelo, de acordo com o devido merecimento do escroto que está prestes a morrer, desceria para que o copo encontrasse a garganta seca.

Feito isso, evaporar-me-ia.

No meio das escadas dei um trupicão num dos degraus, maldito, e, por pouco, não esfrego a cara no chão aos pés da desvairada burguesia paulistana.

Mas a merda mesmo foi perceber que esfoliou um pedacinho do couro do meu salto, pé direito, um belo sapato chanel semi-novo (angariei num brechó finérrimo da Oscar Freire), e chique, of course.

Consegui chegar inteira à porta do quarto.

Bati.

A voz do além:

– Quem é.

Voz grossa, lenta e mal humorada.

Abri.

- Oi Dingo.

- Que que é, ohhh?

(Que que é, ohhh seu filho da puta-moribundo e grosseiro?).

Nem morrendo o desgraçado consegue ter o mínimo de educação.

– Oi Dingo e aí? (Sorry, não me ocorreu nada mais além dessa frase em forma de esqueleto lingüístico.).

- Ahhh, é a classuda vadia do salto alto e das ‘teta bonita’.

(Jesus prefiro morrer parafusada na cruz a suportar por mais de dez minutos esse infeliz.).

– Ahn?

- Não finge que não me escutou. Nunca deu pra mim, né, nojenta?

(Nunca dei nem beijo na tua cara enrugada seu viado pré-morte.).

- Dingo eu...

- Me deixa ver teu peito, vai, tô morrendo mesmo, pego um pouquinho, dou uma mordiscada, cê vai gostar, prometo, vem, põe esse peitão aqui, põe.

(Pai nosso que estais no céu santificado seja o vosso nome venha a nós o vosso reino...).

– Eu... (Te acho um velho nojento-escroto-feio-comedor de bagaceira e as vias de arder nas mãos quentinhas de Lúcifer).

- Vai logo, tira essa blusa, peituda.

(Never! Seu fedido a caminho do seu devido lugar: - O inferno).

- Não, Dingo, eu... (Sou uma idiota-trouxa-covarde-fingida, que vim aqui, sem querer, passando, novamente, por cima da minha fraca personalidade, só porque o PC me pediu. Esse, um maldito filho da puta, me enfiou essa roubada e, acreditem, vai se ver comigo, (ahhh se vai.).

- Então se manda, vai, se manda, vai, ohhh. Fora peituda! (Berrou)

Juro que tive vontade de chorar. Mas na frente do Dingo? Nunca. Nem que matassem minha mãe a tesouradas.

Pré-jazia ali o tipo de homem que não merecia (nem nunca merecerá) ver lágrima na face de uma mulher (mesmo sendo ela uma bagaceira, o que não é meu caso, baby).

Afetou meus ouvidos. (Cornudo!).

Olhei nos olhos do moribundo (Ia dizer umas boas; mentira, ia nada), na cara do canalha, sair e bater a porta estrondosamente pra afetar os ouvidos dele.

Senti meu rosto esquentar (indício de choro), não pensei em mais nada. Dei um rodopio, até hoje não entendi o movimento saltado e pus-me fora dali.

Fechei a porta (não bati).

Encostei-me próxima à porta, bem quietinha e inerte, para recompor-me daquela figura nojenta e pronta pra comer bagaceira nos quintos dos infernos.

Tardiamente (como sempre), pensei: - Podia ter esbofeteado o abjeto. Ele não teria como reagir.

(Eu, esbofeteando alguém? Nem mesmo o Dingo).

A cara dele (do Dingo) me dava medo. O canalha consegue ser tão escroto que está escrito na sua testa:

Filho-da-puta-nojento-ordinário-sem-escrúpulos-comedor-de-bagaceira-prestes-a-arder-no-fogo-do-inferno. Eu sou do Mal.

Desci.

Iniciei minha via sacra rumo à porta principal.

Não.

Sim.

Uma passada de mão na minha bunda.

Quem?

Só podia:

Outro velho careca, pançudo com cabelo cor de algodão doce e branco.

Eu, no limite da minha covardia diária, não ia reagir? Não ia falar nada? Ia Deixar pra lá? Deixar pra lá o cacete!

Voltei.

Ao pé do seu ouvido (do velhote minguado), sussurrei:

- Se liga, oh viado e cornudo de pinto mole, escroto e filho da puta vai, passar a mão na bunda da tua mãe, aquela vadia.

(Nem eu acreditei em mim.).

Destilei meu cordel de palavrões naquele ouvido cheio de cera amarelada, bem gema de ovo, e apodrecida.

Lavei a honra, tardiamente, mas lavei.

O velhote, passador de mão na bunda, ficou me olhando atônito, olhão arregalado, medrou de eu armar um barraco.

- Fica tranqüilo safado. Eu não sou de baixaria. (e sou covarde, só chego até aqui, meu limite de coragem), trouxa.

Afastei-me honrada e classuda.

Alcancei a porta.

A maldita da velhota (do cabelo cor-de-nuvem-carteira-dourada-brega), falou-me novamente algo.

Dessa vez escutei, mas fingi que não. Continuei. Se fingira que não tinha ouvido, auto-proclamei:
- Não é comigo.

Sumi.

Já no carro, respirei fundo e suada. Recuperei o fôlego e um pouco do orgulho próprio.

Dei partida.

Segui mal humorada e azeda rumo ao meu canto.
Além de tudo aquilo, vivido em menos de quarenta minutos, não tinha bebido a porra da vodka.

- Mal humorada, azeda, fudida e sem vodka.

Quanto ao Dingo, o comedor de bagaceira, continua vivinho da silva, na cama, claro, dali não sai mais, enchendo a cara de uísque escocês e fumando feito condenado.

É o típico infeliz-ordinário-filho-da-puta-nojento-que-não-morre-tão-cedo.

Normalmente, escroto rico demora mais pra morrer ou vive mais: Você escolhe.

Ah, quanto à multidão de pessoas bregas do casarão, não sei o que comemoravam. Provavelmente, penso cá comigo, a notícia de que o filho-da-puta, dessa vez, embarcaria.