O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Depoimento
























Obtive a permissão para falar sobre uma mulher que incomoda muitas pessoas. Não por sua aparência física ou pelo seu nível de instrução ou ainda por sua posição social e horizonte cultural.

Ela incomoda por ser o que é.

Ela incomoda por ter absorvido na íntegra como simplesmente existir: Da forma como é, ou seja, espontânea. Um ser humano singular em sua significação.

Essa mulher demorou anos para abraçar seu modo novo de vida pois, para chegar a esse nível de sobriedade teve que ignorar opiniões e críticas alheias.

Num determinado dia ela entendeu que conselhos disseminados e ouvidos por ela, em diferentes circunstâncias, não serviam para nada.

Entendeu que alguém que se julga no direito e na prepotência de aconselhar poderia juntar esses pareceres e jogá-los numa privada. Em seguida, puxar a descarga até que todos eles encontrassem seus devidos lugares: Ao percorrerem a merda dirigir-se-iam aos fétidos esgotos.

Engraçado é que mesmo antes das pessoas conhecerem essa mulher já a desaprovavam. Foi denominada de insolente, arrogante, prepotente, metida a besta, madame, chique, poderosa, atrevida, muito familiarizada e etc.

Para vomitar tanta falação os senhores e as senhoras se apoiaram somente em três coisas: A forma como ela caminha, a forma como ela fala e a forma como ela se veste.

Há algo peculiar sobre o seu caminhar: Enquanto caminha sempre matuta sobre alguma coisa. Nunca sua cabeça encontra-se vazia.

Demorou um pouco até que finalmente, aos quarenta e sete anos de idade, ela chegou ao ponto de prezar e agir e, claro, caminhar, conforme seu próprio ritmo.

Já não permite mais que lhe imponham movimentos a seguir ou advertências a acompanhar como em tempos outrora.

É claro que que durante o tempo em que viveu à sua própria sombra, torturou-se e maltratou-se em proporções vastas mas, o mais importante é vocês saberem que ela conseguiu pular fora. Concluiu seu próprio desfecho e de sua forma.

A tal mulher ainda continua sendo crucificada por ser como é e zelar por sua essência acalentando-a diariamente.

Não liga mais. A coragem tomou posse dos adjetivos que seus ouvidos alcançaram. Agora dá de ombros e segue flutuando do seu jeito pelo seu caminho.

Não pretensiosa mais ser igual a ninguém e não lhe incomoda mais fazer parte de um grupo quase que oculto. Agora as falácias alheias provocam-lhe saborosas gargalhadas.

Não a afetam mais. Não a dominam mais. Não a põem mais doente .

Por ser como encarou ser invocada até de doente.
Oxalá, cá entre nós, que bom seria se uma boa parte da população sofresse desse 'mal'. Explico melhor: Foi e é considerada doente por não fazer parte de grupos, rodas, bisbilhotices, fofocas, religião, etc.

Não posso deixar de mencionar que a rotularam também de ‘estranha’ porque enxerga o mundo em suas cores reais: Branco e Preto. É ciente que o colorido se foi há décadas. Perdido está há séculos o arco-íris da vida.

Vez ou outra vem à sua cabeça uma frase de Bob Marley : “Vocês riem de mim porque eu sou diferente e eu rio de vocês porque vocês são todos iguais”.

Saibam que seu coração nunca abrigou mesquinharias ou sentenciou audiências. Ela pensa sempre lá com seus botões: Se tivesse agido dessa forma, como a grande maioria, somente teria antecipado sua provável e irreversível cegueira, além de lhe faltar a audição. Pensa que se tivesse agido dessa forma disforme seria precocemente visitada por esses dois males.

Por fim, quando há anos resolveu ser quem realmente era e é (mesmo sendo mascarada estava mal escondida e pôde enxergar muitas coisas), ultrapassou as barreiras das sentenças que lhe impuseram e deu de ombros aos conselhos que lhe determinaram. Não liga mais quando gritam na rua por seu nome: - Estrangeira.

Atualmente, sendo quem é, saboreia momentos de felicidade e de alegria.

Em seu pedido final à minha pessoa, para transmitir a vocês essas palavras, ela quer que eu lhes diga que assegura um dia abrir a janela e ouvir gritos e mais gritos do povo pronunciando a nova maneira de ser, de realmente ser e gozando, finalmente, do frescor límpido que ainda, mesmo escondido, habita em casa um.

Dessa forma, ela crê que todos alcançariam momentos de alegria e apaziguariam suas existências tornando a vida mais delgada.

Na verdade seu desejo é que cada um tenha a oportunidade de brindar o próprio ser que existe em sua pura totalidade.

Pediu-me que lhes assegurassem: Isso não se trata de fábula.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Meu encanto

Os dois

Olhinhos de brincadeirinha


Júpiter
Solar
Luz
Do dia
Lampear.

Júpiter
Solar
Luz
Do dia
Luz da noite
Tardear.

Confesso agora:
- Há tempos esqueci o clarão do teu olhar.

Efêmero






Vive de ilusão
Tem medo não
Amparada está
Na sua solidão.

Talvez






Entre o sim e o não escolha o talvez.

Solidão




Solidão
Conquistei para mim
Botei num frasquinho
E para ela disse sim.

Bens




- Piedade,
- Lástima,
- Dó,
- Pena,
- Compaixão,
- Comiseração,
- Remorso
- Bicho-da-consciência.

Heranças malditas.

Sim


Dá-me tua mão
Em troca tu levas,
Por favor,
Meu coração.

Dou-te a liberdade
De fazer com ele
O que bem quiseres.

Mais: Prometo não mais me pronunciar, como sempre, em vão
Perturbando assim tua amada ilusão.

gill





Ouço com frequência que sou uma mulher inteligente,
Ouço com frequencia que sou uma mulher culta,
Ouço com frequencia que sou uma mulher esperta,
Ouço com frequencia que sou uma mulher criativa.

Só não ouço a verdade:
- Que sou uma mulher vazia,
Perdida pelas tardes frias.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Pilhéria
























Todas as vezes em que penso sobre a vida creio mais precisamente que essa não passa de uma grande brincadeira narrada diariamente, na terceira pessoa, por não sei quem, tendo como pretensão tornar essa pilhéria menos miserável.

Acredito que esse alguém, de posse dessa prosa abjeta, quando da sua criação, ambicionou, assim, manter-nos esticados, na posição vertical, eretos, marchando rumo a algum lugar, que também não sei aonde fica e menos ainda o que pode nos oferecer. E mais, esse alguém, acreditou que dessa forma poderia nos cegar frente às injustiças que nossos olhos alcançam e, desgraçadamente, acostumaram-se a ignorar.

Esse chiste consiste no poder de desbotar um a um impiedosamente, de forma feroz. Estamos nos tornando cada vez mais singulares.

Caso o infame, ou a infame, sei lá, não tivesse tornado a vida uma piada estaríamos deitados, de peito para baixo, nas calçadas frias, lambendo a poeira adquirida através da infeliz e crescente ignorância humana.

Talvez fosse mais digno para se brincar de viver.

Quem sabe a poeira afastasse essa cegueira proposital concedida por esse alguém, que eu não sei quem é, sério, não faço a menor ideia mesmo de quem seja esse sujeito, apropriado, ao meu ver, de uma pífia estranheza e atuando eficazmente de forma deveras ordinária.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A sabedoria de Mário Quintana:

"Se algum dia alguém lhe perguntar o que quisestes dizer com um poema, pergunta o que deus quis dizer com esse mundo".

Ignorante

Se queres perdão
Lembre-se antes de adormercer
Olhar para o céu
E clamar perdão ao cão.

Ignorante.

Embuste




Não penses que tu me desejas
Menos ainda que tu me amas
Enlouquecestes?
Tu não me conheces
Se conhecesses sairia correndo na primeira oportunidade.

Poeta (isa)

Penso que o (a) poeta (isa) expressa-se dentro de sua infiel realidade. Eis sua grande fortuna.

Comodista

Não me engano mais
Voltei a viver para mim
Comigo converso
E calo na hora certa.

Demasia







Amar
Amor
Louvar
Louvor
Prazer
Horror.

Colei

"Recebe menos quem nasceu pra dar".

Revelação





Suicídio é para quem é corajoso.
Já tentei algumas vezes mas sou covarde demais para ir até o final.

Minha primeira decepção por passar horas como um ser invisível

















Passei a noite toda acordada de tanta ansiedade até que, felizmente, o dia clareou e eu saltei eufórica da cama.

Durante o dia todo corri de cima para baixo. Fui buscar o vestido na loja que alugava roupa de festa. Minha amiga Clara me emprestou as sandálias e a bolsinha de mão combinando com o calçado.

Pela primeira vez na vida passei horas num salão de beleza. Isso depois de ficar horas convencendo meu pai a me descolar uma grana, afinal era a primeira vez que eu iria a um evento desses. Cheguei a chorar para conseguir umas merrecas e minha mãe teve que interferir até o velho abrir a mão.

No salão fiz um montão de coisas: Pé, mão, um coque no alto da cabeça, maquiaram-me suavemente para combinar com minha pouca idade.

Merda, não sobrou um centavo. Ah, dane-se. Naquela hora tudo que eu queria era que chegasse a hora do baile.

Nunca havia me sentido tão empolgada antes. Era a primeira vez que me convidavam para ir a um bailado. Inclusive, recebi o convite em casa. Verdade.

Quando chegou a hora de sairmos de casa, meu pai foi me levar – na nossa Belina 1.978 verde musgo – bateu uma puta vergonha de chegar naquele carro. Sem a menor piedade ou remorso pedi que meu pai me deixasse a uma quadra do salão. Chegar naquele carro para todo mundo ver? Não e não.

Atravessei o salão um tanto o quanto tímida e receando cair dos saltos. Do outro lado da grande sala logo meus olhos avistaram o que eu precisava: Cadeiras. Sentei-me ereta e cruzei as pernas. Logo aceitei um ponche servido num belo copo acompanhado de um guardanapinho branco. Lindo.

Passaram-se alguns minutos. Depois vieram as horas. Minha bunda já estava meio quadrada de tanto ficar sentada na mesma posição.

Por dentro ansiava que alguém me tirasse para dançar. Vou confessar: Quando recebi o convite para o baile me imaginei dançando com um moço bem apanhado pela noite toda. No meu devaneio chegávamos a trocar diversas palavras.

Ainda em casa, recordei os passos de dança que via nos filmes da TV e ensaiei no meu quarto escondida e sozinha, claro, auxiliada por uma vassoura alguns movimentos.

Voltando para o baile: Chegou um momento em que perdi a noção do tempo. Avistei o relógio redondo do outro lado do salão que indicava o horário que eu deveria sair dali e ir para casa de Belina verde com meu pai.

Minha primeira grande e marcante decepção: Ninguém me tirou para uma mísera dança. Logo tomou conta da minha mente meus defeitos ou minha falta de beleza ou sei lá o que. Pensei feito uma doida imaginando os motivos de ter ficado o tempo todo sozinha, sentada e muda.

Já no meu quarto pensei sobre os rapazes. Formava-se ali minha primeira constatação: Como os homens são cruéis.

Depois vieram outras. Mas, deixa para lá. Isso é outra história.