O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Doença




Doença da paz
Doença do amor
Doença que traz
Tragédia e horror.
Doença fora,
Faça-me o favor!

Desesperança








Desesperança
Eis mais uma criança
Bonita e minguada
Sem amor e sem brinquedo
Para se divertir.

Desesperança
Eis mais uma criança
Sem alimento e sem casa
Sem caminho para seguir.

Busca

















Planeou um caminho diferente
Encontrou um percurso inacabado
Não sabe se lá permanece
Não sabe se lá se estabelece.
Sabe apenas que carece
De um meio que o afaste
Da solidão que amarga
Da solidão que o guarda.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Enfeite





Brinquedinho de papel
No cartório de aluguel
Anel no dedo a revelar
A ousadia de se querer
Um bem para si próprio ter.

Felicidade




Caso queiras ser feliz
Busques um outro lugar
Quem sabe um planeta feito somente d'água
Porém, sem mar.
Aqui, sinto informar
Feliz, tu jamais serás.

Dor da fome











Menina não chora não
Chorar não traz pão
Nem arranja para esquentar
Um pouco de feijão.

Menina não chora não
A mesa seguirá vazia
E teu pai perseguirá
Um emprego que não encontrará.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Filho


Filho é para sempre, portanto, não vá embora.

Operação saco cheio

















Casar? Nunca mais. E não fiquem referindo freqüentemente para eu casar de novo. Casamento para mim acontece somente uma vez na vida. Filhos também não mais. Só se tem filhos com um único homem. Então, deixem-me em paz e fodam-se.

Ruína







Saibas que sofisticado
É o meu cálice louvado
Esse que pôs de lado
Toda a água putrefata
Do meu espelho sagrado.

Retiro




Vou-me de vez desse lugar
Parto para não mais me machucar.

Despedida



Não vá embora
Peço-lhe, fiques comigo
Tu és meu porto seguro, lembra?
Tornou-se meu abrigo.
Não vá embora,
Peço-lhe, albergues-te ao meu lado
Para quando do sono profundo eu acordar
Saber que foi tu que me fez aninar.

Degrau


Vôo rasante o vôo dessa mulher
Que passeia passeando
Vendo somente o que quer.

Dança de salão







Cabana, pensa, levanta a pestana
É a dança da criança pequena
Que afirma querer não
Seu nome entoar em vão.

Casa de rico casa de pobre






Casa de rico
Casa de pobre
Mais um casal aflito
Mais um casal nobre.

Asilo












Desejo vão
Asilo do meu coração
Palavras que são mistas
E abrigam o meu não.
Lamúrias e incertezas
São algumas desventuras
Das minhas tristezas.

Acinte



















Para revoltear
Olho para o alto, rio e alegro
Também gargalho e faço pirraça
Enquanto encho a cara de cachaça.

Se tu estranhas o que vês em mim
Saibas que o estranho aqui és tu.

Então, novamente,
Com a cara cheia de cachaça,
Rio, faço fita, faço graça
E para ti: Um pouco mais de pirraça.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

João Gabriel

















Filho, fostes minha primeira cria
Eu, mãe pequena, plantei somente o que sabia
Se pouco, se muito não consigo sacramentar
Se certo, se errado não consigo arranjar
Em contrapartida, posso afirmar:
Fui apenas o que alcancei
Mas, ao extremo, de cara, te amei.

És meu turbilhão de alegrias
És meu primogênito, minha bela cria
És também o poço onde, equivocadamente,
Deposito minhas frias agonias.

Filho vem a mim e abasta meu coração
Sabes que careço de tu como meu guia
Avizinha-te e leva-me pela mão
Tu me indicas a melhor direção?

És sábio,
Sozinho aprendestes a cuidar de mim
Tens ciência do frágil equilíbrio em que me sustento
És sábio,
Sozinho aprendestes a cuidar de mim
Conhece as angústias em que me afundo, sim.

Filho, vem cá,
Necessito que me abarques
Sabias que por mim fostes apelidado
De menino sagrado?
E em teu nome abençoado, João Gabriel,
Agradeço o ar que diariamente me é ofertado.

Filho abraça meu coração
Juntos uniremos harmonia
Dessa forma tu poderás sentir
Um pouco do quanto és amado por mim.

Minúscula






Da pele luminosa da mulher
Restou somente o pó
O brilho se foi
O colorido se acabou.
Há no dedo anelar
Uma aliança a tirar.

Ciclo







O presente só serve para lidarmos com os infortúnios do passado e o chamado futuro – vindouro - será o presente repetindo o clico infame do que já se foi.

Assentar


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Difícil é decidir
Depois que a gente decide,
Seja lá qual for a decisão,
Tudo se torna mais fácil
Independente do tamanho da ida
Ou da vinda na contramão.