O caminho...

Intento, ainda acanhada, entregar-me às letras, sílabas, palavras, frases e o que se pode obter dessa junção. Coisa linda a mistura das palavras.


Sempre fui encantada pela nossa Língua e tive a oportunidade de ter como mentora, na antiga quinta série, a professora de LP Maria Alice.

Seu saber e envolver a todos nós, seus alunos, fez-me, literalmente, apaixonar-me por uma mulher aos onze anos de idade

Paixão platônica, pueril, inocente e verdadeira. Nascida da admiração do saber e ir além fazendo os outros também participarem desse conhecimento espetacular, quanto se trata de se entregar à Língua Portuguesa.

Vivo pelos cantos, tanto internos quanto externos, de caderneta em punho e caneta entre os dedos. Do nada, vejo uma imagem ou ouço uma palavra perdida num bar e dali parto para uma história vinculada à alguma vivência minha, da infância difícil até a executiva promissora, e me abro para o mundo das letras.

Meus dedos percorrem rapidamente a caderneta anotando o que me for possível trazer à tona, num momento posterior, de pura entrega, dedicar-me a misturar palavras, ritmos, sentidos, além, de uma boa dose de singularidade.

É assim que construo sem pressa meus poemas, versos, sonetos, também minhas crônicas, prosas e contos.

Foi a poesia que me salvou de me destruir na minha mais pura e insólita melancolia.

Foi a poesia que me salvou de mim mesma, impediu que eu ultrapassasse a linha da imaginação e fosse para algum lugar nunca antes visitado.

É a poesia, o verso, a magnitude da construção literária que me mostram quem realmente sou.

Oras posso valer até um milhão, mas sei tão bem que não valho sequer um tostão.

Humana sou.

sábado, 25 de julho de 2009

Falsear



Se é pra ser feliz
Toma um trago
Depois vomita ou cospe
Pelo nariz.

Condolência











Tamanho o prazer de passar desapercebida
Imune aos olhares alheios
Imune as vastas grandezas.
Adotas agora uma nova postura
Para trás, por fim, deixou
Suas freqüentes nuances de amor.

Pancada


Desfruto das pauladas
Minha cabeça encontra-se inchada.
Estou em casa
Não saio
Não saio
E não saio.
De prontidão aguardo
Sei que pára
Sei que um dia parará.

Mentira




Anda anda andou
À toa no mundo praguejou
Perdoou com o coração
Mas por dentro disse não.

Anda anda andou
Sofreu nesse mundo sem fim
Perdoou com o coração
Dentro dele nenhum sim.

Indesejados


















Ei senhores de ternos aí parados
Senhores ricos e encachaçados
Reparem logo ali do outro lado da calçada
Frente à igreja ainda trancada
Os pedintes cheirando mal
Mendigando novamente
Adornando a praça esverdeada.

Senhores poderosos corram
E adentrem suas belas casas
Apoderem-se de suas pistolas ilustres
E voltem rapidamente.

Ao voltar atirem
Atirem friamente.
Matem.
Matem descaradamente.
Repitam o que obram todos os dias
Matando a revelia.

Triste constatação





É possível morrer de tristeza se alguém não te acolher a tempo.

Doação




Ainda criança
Pensa e dança
Seu sangue
Quer não
Consagrar em vão.

Desesperança










Desesperança
Eis mais uma criança
Bonita e minguada
Sem paz nem brinquedo
Para se distrair.

Desesperança
Eis mais uma criança
Sem alimento, sem nada
Sem caminho para um dia seguir.

Balança

Medo de ti
Medo de mim
Não sei se não
Não sei se sim.

Ciranda






Ri,
Brinca,
Pula amarelinha.
Faz de conta
Que não está sozinha.

Abstração

















Na esquina há uma senhorita
Elegante, esbelta, bem bonita.
Essa senhorita carrega uma dúvida
Qual rua seguir?
Qual rumo tomar?

Supõe, pensa e reflete
Não alcança nada
Que lhe ofereça um lugar
Para seu corpo descansar
E da multidão se apartar.

Em sua mente um pensamento lhe assiste
Ir-se
Ir-se e
Ir-se.

Intolerância





Não sustenta a ignorância
Não sustenta a invasão
Não tolera que lhe digam o que vestir
Não acolhe que lhe indiquem o caminho a seguir.

Esconderijo



Apresento-me de uma forma
Enquanto sou outra.
Mostro-me capaz
Enquanto sou as sobras.
Todos os dias faço de conta
Que acredito em mim.
Não me olhes como se também acreditasses
Por favor, não me olhe assim.

Fraqueza







Maldição.
Entrego ao mundo minhas poucas forças.

Condição





Tu,
Esmoleiro
Miserável
Desfavorecido
Esfaimado
Espelhas
Nosso vilarejo
Refletes
Nosso estado.

Beirada





De lá para cá
Uma esquina
Um trator
Quanta ruína
Tamanho desamor.

Fim






Acabou, adeus.
Fica com o teu deus
Que eu vou sem o meu.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Solidão





Ousadamente
Venho a público anunciar
Minha vigorosa solidão
Que agarrada está
Ao meu fraco coração.

Proteção


Casca em cima
Nada por baixo
Sinto
Penso
Saio
Aos poucos me desvio
Aos poucos não desabafo
Por completo emudeço
Por completo me calo.

Socorro





Ei moço peço por favor que me ouça
Grito por teu socorro
Tira-me daqui
Arrasta-me desse anonimato
Preciso de cama
E também de sapatos.

Pranto





Pranto irremediável
Pranto ensurdecedor
Pranto nostálgico
Pranto trazido
Pelas mãos do horror.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Incredulidade





Patenteada
Faz-se agora
A deus recorrente.

Chama
Roga
Clama.

Deposita seu pedido sem fé
Num deus que não quer.

Desespero




Hoje eu vou
Hoje eu vou
Hoje eu vou.

Não me meneio
Não me arrasto.
Desse lugar
Não me afasto.

Arremato


















Faço direito?
Não sei
Dou meu jeito.

Ponho pra fora
Corro
Enlaço a porta
Dou o fora.

Parto daqui
Anulada por ti
Lastimada por mim.

Digna me fiz
Da minha cruz
Velem, por favor,
Outra pecadora sem luz.

domingo, 19 de julho de 2009

Ingenuidade







Chegou a hora
De subir no palco
E esperar pelas palmas
Dessa doce ilusão.

Crueldade





Composto
Composição
Desnutrido
Desnutrição
Ausente do povo
Carente da população.

Tolice






Dorme e balança
Quem sabe deus tu alcanças.

Eu








Não me restam mais dúvidas:
Sou uma louca tentando ordinariamente enquadrar-me na mediocridade humana.

Subsistir
















Habitualmente a poesia me serve de passadio. Dela tiro o alento para manter-me em equilíbrio no dia-a-dia. Por vezes, numa sucessão de movimentos, escoro-me na parede fria do lado de fora da pequena cabana e atino sustentar-me em pé. Desequilibro-me. Por pouco não caio. É embaraçoso. Ouvi falar que o passado foi esquecido. Disseram-me que o futuro não é vivido. Também escutei que o presente, se existente, há de se pedir licença para habitá-lo.

Peço agora
Desejo sair daqui
Dimanar-me
Ir para casa
Ir embora
Adeus.

Maldição





O presente só serve para lidarmos com as maldições do passado.
O chamado futuro será o presente repetindo o ciclo infame do que já se foi.

Idiota

No radar da tua companhia esqueci da minha.

Vão












Não ouço os sinos das igrejas
Não vejo os pássaros nas praças
Amaldiçoei-me
Sou pura desgraça.

Mente

Mente inquieta
Mente alucinada
Mente alerta
Mente alertada.

Sorry















Mãe não penses em mim como alguém capaz
Saibas que me encubro nos lençóis que tu lavas
Enquanto apresento-me, vergonhosamente, de forma eficaz.

Babesíase







Bela e inconstante
Busco na minha beleza
Um abraço para minha apanhada tristeza.

Percurso






A caminhada é longa
A chegada é incerta
E o destino nos é ofertado
Para fazermos de nossas vidas
Uma grande e relevante cagada.

sábado, 18 de julho de 2009

Sentido
















O que sinto por ti?
- Não sei.
Quão intrigado te pões
Com minhas respostas vazias.

Porque estou ao teu lado?
- Não sei.
Quão desconfiado te situas
Com minhas respostas curtas.

Porque não te deixo?
- Não sei.
Quão adverso te abrigas
Em minhas respostas tacanhas.

O que sinto por ti?
- Não sei, já disse meu amor.
Sei que te ambiciono
Em teu modo desusado de viver.
Sei que te cobiço
Com teu jeito desazado de ser.
Sei que me equilibro
Em teu coração fracionado.

Aconteceu
Um simples sobrevir
Inopinado
Amor
Amado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Quando eu morrer (Prece)

















Quando eu morrer não quero ninguém chorando ao meu lado. Já não existo, lembrem-se, sou passado.

Quando eu morrer distribúam meus pedaços àqueles necessitados, depois aqueçam as sobras e arremessem em qualquer lugar.

Quando eu morrer não permitirei que ninguém vá, mês a mês, visitar-me num canto que não escolhi, num canto que não aluguei.

Quando eu morrer esqueçam-me de vez. Por favor, dêem-me paz. Ao morrer, lembrem-se, não quero nada mais.

Quando eu morrer esqueçam o que fiz, esqueçam o que preguei e olvidem as rezas que rezei.

Festejem meu último suspiro. Festejem minha palidez. Festejem, por fim, o otário da vez.

Covarde





Ele me chama
Digo que não vou
Sou covarde
Sou miúda
Abasteço
Minha dor.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Ermo

















Olha ao seu redor
Não avista nada
Não vê ninguém
Não atraiu
Sequer alguém
Para extraí-la
Do lugar
Onde se abriga
Derribada
Na astuciosa solidão
D’um ser
Feito de abstração.

Olha ao seu redor
Ninguém por perto
Está só
Recolhida
Ao seu
Próprio deserto.

Olha ao seu redor
Não vê nada
Está cega
Perdeu o rumo
Da própria estrada.

Olha ao seu redor
Não há ninguém
Sente-se largada
Recorda
Fez de si
Seu próprio além.

domingo, 28 de junho de 2009

by Baudelaire

"Esta manhã ainda me maravilha a imagem viva e distante da terrível paisagem jamais contemplada por olhos mortais".

Isolação

















Isolação,
Companheira ardilosa
Amiga de plantão
Presente na minha vida
Freqüente no meu coração.

Guia-me com sua mão taluda
Virou pátria, virou rainha
Dias de folga
Ela não me propicia.

Afeiçoou-se a mim
Tornou-se meu apreso
Movimenta-se pela minha estrada
Pactuada, garantida e abastada.

Contumaz,
Fez-me sua afável cria
Acompanha-me pelo mundo
É ela quem me guia.

Hipocrisia
















Hipocrisia, praga encachaçada
Que à grande maioria
- Quase todos, eu diria –
Pela vida sentencia.

Hipocrisia,
Doença grandiosa
Com sua força
Tornou-nos miseráveis
Presunçosos e insaciáveis.

Desgraçadamente,
Não nos damos conta
De que para dessa miséria
Libertarmo-nos
Basta somente
Arredores minutarmos.

Prece de desesperado










Desunhada infindamente
Faz-se agora a deus recorrente.
Flinge,
Roga,
Clama e
Implora
Deposita seu pedido sem fé
Num deus que não quer.

Bom dia

sexta-feira, 26 de junho de 2009









Suporto o frio
Suporto o calor
Só não suporto mais
Essa intensa dor.

Eu comigo

Círculo

















Vaga vaga ainda vago
Nesse mundo de estranhezas
Perdôo com o coração
Enquanto paraliso minha tristeza.

Vaga vaga vagueei
À toa na sinceridade
Fui honesta, fui ridícula
Mas o fiz com a pura verdade.

Vaga vaga vaguearei
Nesse mundo corroído
Não tenho dúvidas, enfraquecerei
Mas, meu caminho seguirei.